O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e em que o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda a actriz Lina Demoel
“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)
LINA DEMOEL
Ela foi a maior vedeta do teatro ligeiro em Portugal nas décadas de 1920 e 1930,
sendo disputada pelos principais teatros da capital, onde criou alguns dos mais belos
temas musicais de maior sucesso popular no nosso país que ainda hoje trauteamos sem
memória da sua origem. Em 1926, um prestigiado jornalista escrevia assim: «Lina Demoel é uma artista que está sempre em foco.
Depois do Inverno, onde cantou como
ninguém a primavera linda e encantadora das Rosas de Portugal, criação magnífica que
é uma verdadeira página de beleza, ela – que é hoje a estrela mais brilhante, cheia de
fulgor e de elegância, de distinção e de sorriso, que pisa o nosso teatro ligeiro – foi para
o Brasil conquistar para o seu nome novas glórias, outros triunfos, aplausos vibrantes”.
Antes de pisar os palcos para uma
rápida ascensão ao lugar de primeira estrela, Lina Demoel era uma jovem
despreocupada e sonhadora. Certo dia, em conversa com uma costureira que trabalhava em
sua casa, ficou a saber que se preparava uma nova revista no Teatro da Trindade, em
Lisboa, para a qual procuravam coristas.
E lá foi ela a caminho da audição, depois de se
preparar muito bem e em segredo. Vestiu uma das suas mais belas peças de guarda-roupa, penteou-se e maquilhou-se com a perfeição que lhe era reconhecida no seio da
família, subiu ao palco com a graça e a desenvoltura que a caracterizavam e cantou um conhecido tema – “A Valsa dos Beijos”. Na plateia,
o maestro Luís Felgueiras e o
empresário António de Macedo, ficaram deslumbrados...
A estreia de Lina Demoel nos
palcos da revista aconteceu assim, desta forma,
em 1919, como simples corista, e dois anos depois encabeçava já o cartaz
de “Gato por Lebre”, assumindo a partir daí a personificação de um certo tipo
de vedeta de grandes luxos e muitas atenções sociais, com automóveis
caríssimos que ostentavam o seu monograma em prata e motorista fardado ao seu serviço.
Constantemente cortejada pelos homens mais poderosos, galantes e desejados da
época, ela percorreu as mais ricas e idílicas paragens de veraneio
sempre que os seus compromissos artísticos o permitiam. Nas suas estadas na
cidade de Paris, para onde viajava com assiduidade, era frequentadora das grandes festas das estrelas e...comprava
diamantes no Cartier!
Foi ali ás em Paris que teve origem “As Rosas”, um dos
maiores sucessos de Lina Demoel. Ela fora convidada para um show de
Mistinguett, onde esta cantou pela primeira vez o tema “Valência” de José Padilha. E ficou tão
encantada com o que viu que, no final da actuação, foi ao camarim da mítica cantora
francesa e manifestou-lhe o desejo de integrar aquela música no seu repertório.
Daquele
primeiro contacto nasceu uma enorme amizade entre as duas artistas. E foi tão grande
a intimidade gerada entre ambas que, para além de passar a gozar do privilégio de
fazer parte dos jantares privados em casa de Mistinguett, Lina Demoel teve
oportunidade de visitar o seu ateliê de costura e de aprender alguns segredos na confecção de
peças de guarda-roupa teatral.
Vestida com um belíssimo figurino branco, revestido com a
aplicação de grandes rosas em tecido, Lina Demoel apresentou-se no primeiro
ensaio da revista “Foot-ball” com a partitura de “Valência” nas mãos e pediu a
um dos seus autores (Ernesto Rodrigues) que fizesse uma versão do tema de Padilha inspirada nas
flores que embelezavam a sua peça de guarda-roupa. E graças àquela canção, o espectáculo esteve
em cena durante um ano e meio com lotações esgotadas, acabando por se
transformar no maior êxito da actriz, então também já empresária.
"Carnaval
de 1926": a actriz Lina Demoel, que tomou parte no corso da avenida da Liberdade
E foi nessa dupla
qualidade que o público passou a vê-la a partir daquele momento, nos mais
diversos teatros portugueses e brasileiros, representando alguns dos maiores sucessos
do nosso teatro musicado
Depois de mais de três dezenas de espectáculos como vedeta
absoluta, onde criou temas como “Marias de Portugal”, “Cavaquinho”,
“Mademoiselle Bola de Sabão” ou “Cabaret”, em 1938, Lina Demoel, que teve tudo –
fama, dinheiro, joias, casas, carros –, acabou abruptamente a sua carreira cheia de dívidas, que
pagou tostão a tostão, e caiu num profundo esquecimento. Até que, em meados dos anos 1970,
a imprensa deu conta de que ela estava semi-inválida por via de um acidente e
vivia em condições quase miseráveis, com uma reforma ridícula, num pequeno quarto
alugado. A comunidade artística uniu-se e fez quanto pôde para minimizar os
efeitos devastadores da sua mal sucedida experiência de empresária, dando-lhe o apoio
possível naquelas horas amargas.
Em 1982, já com 86 anos, e a viver em condições muito mais
dignas graças aos esforços de Manuela Eanes, Lina Demoel foi convidada por Raul
Solnado e Fialho Gouveia a participar no programa “O Resto São Cantigas”, da
RTP, onde pudemos testemunhar a alegria, o carinho, a emoção e a gratidão desta atriz por
reencontrar-se com o público, tantas décadas depois de ser aplaudida pela
última vez. E foi bom vê-la recordar, ao talvez pelos versos mais eróticos da nossa
música ligeira («Maria, são teus olhos azeitonas/Cachopa, são teus lábios quais
cereja/E os teus seios cachos de uvas que
abandonas/À vindima desta boca que os deseja»)
No final do programa ouvimo-la dizer: «Tenho tanta pena de me
ir embora». Deixou-nos para sempre três anos depois!
Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Agosto.18