BANCADA DIRECTA: A escola primaria 127. Historias da cidade de Lisboa com pessoas dentro dela a viver. A historia do Toninho. 2º episódio: A escola primaria do meu tempo

sábado, 23 de abril de 2016

A escola primaria 127. Historias da cidade de Lisboa com pessoas dentro dela a viver. A historia do Toninho. 2º episódio: A escola primaria do meu tempo


A ESCOLA PRIMARIA DO MEU TEMPO
 (2ºepisódio da história do Toninho)

 Aos oito anos fui para a primária. E só fui ao 8 anos porque naquela época havia mais rapaziada do que vagas nas escolas da Câmara. 

Apesar da Escola ter como diretor um amigo e conterrâneo de minha mãe, ele era um homem muito escrupuloso e não permitia pedidos. Era o professor Cabrita que eu vim a saber depois, muitos anos depois que era filiado numa agremiação espirita.

À época Salazar tinha proibido todas as outras Igrejas e só ficara a católica do seu amigo e companheiro Cerejeira. O diretor vivia na Escola e tinha duas filhas pequenas, um pouco mais velhas que eu. Nunca as conheci em miúdas, mas 50 anos depois fui encontrar numa Agencia de Publicidade onde eu também dei assistência técnica a dita Conceição Cabrita. Bem mas vamos contar como eram as aulas daquele tempo.

O grupo de alunos meus colegas era tudo gente muito modesta, mal vestidos, mal calçados, mal alimentados, mas com quem privei e aprendi o que era a amizade e a camaradagem. Tínhamos como professor, que nos acompanhou até ao fim da primária, a 4ª classe, o professor Dias que morava ali ao pé da escola. Ele tinha como pedagogia uma fórmula que depois vim a saber era do tipo da experiência feita com cães pelo russo Pavlov.
Com colheres de pau nunca tinha visto. O meu professor Silveira (que me acompanhou desde a "pira" até à quarta na 127) quando no final da aula escovava o fato do pó de giz do quadro, dava-me com a escova na cabeça e gabava-se de ser meu  amigo. E por acaso até foi quando larguei a escola (nota de Bancada Directa)

Gesto errado castigo, gesto certo recompensa. Tinha uma régua de madeira grossa que doía imenso quando nos atacava nas palmas das mãos. Ficavam quentes, avermelhadas e dormentes. Isso hoje ainda me lembro, 70 anos depois. Esta pedagogia do ensino acompanhou longos anos toda a instrução e marcou gerações no mau sentido.

 O que admiro é que os miúdos do meu tempo que depois foram pais não tenham seguido o exemplo – o mesmo, como é costume na educação suceder – a repetição. A primária era uma passagem de informação para que o aluno viesse a saber ler, escrever, e contar. O nosso professor Dias tinha uma fórmula que me levou o resto da vida a não gostar de gramática e de outras coisas. Mas, principalmente gramática.

Exemplar da Gramatica Portuguesa, livro oficial da época e pela qual o Toninho aprendeu. Edição da Livraria Torrinha de 1946 (nota de Bancada Directa)

Era assim: punha a malta toda numa roda e ele ficava no meio, com a régua. Depois vinham os tempos dos verbos. Começava numa ponta e perguntava: qual era o pretérito perfeito simples do verbo ter. O Balicas, o gordo da turma, afirmava: terei… O Professor Dias negava com a cabeça e seguia para o seguinte: O Jeremias – o magricela – afirmava convicto: hei de ter! De novo o professor negava e seguia: O Runa – o mais mariola – balbuciava a medo: tivera… O professor rapidamente passava ao Fanan, que respondia convicto: teria..

Por fim chegava ao Jacinto que era o único que sabia os verbos. O Jacinto ( o mais pobre de todos mas inteligente ) afirmava: tive! O prof. Dias passava a régua ao Jacinto para o obrigar a dar uma reguada a cada um dos que falharam.

 Os modernos pedagogos teriam desmaiado.

Ass) Toninho

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