BANCADA DIRECTA: A escola 127: uma das mais emblematicas desta cidade de Lisboa. Historias da cidade de Lisboa com pessoas dentro dela a viver. A historia do Toninho. 3º episódio

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A escola 127: uma das mais emblematicas desta cidade de Lisboa. Historias da cidade de Lisboa com pessoas dentro dela a viver. A historia do Toninho. 3º episódio

A escola primaria da Câmara 127. Uma das mais emblematicas de Lisboa. Historias da cidade de Lisboa com pessoas dentro dela a viver. A historia do Toninho, um puto fixe. 3º episodio

AS DISTRAÇÕES DA MALTA 
 (3º episódio da história do Toninho) 

Cada geração é diferente da anterior nas suas brincadeiras de miúdos. No meu tempo, apesar das ausências de actividades artísticas ou desportivas, a rapaziada acabava fazendo os infindáveis jogos de futebol do tipo “Muda aos cinco e acaba aos dez”. 

Com duas pedras soltas da calçada a fazer de balizas e a dividir a malta por dois grupos, escolhidos um a um por cada chefe de grupo. 

 O número de jogadores era o que houvesse disponível. Ia à baliza aquele que não tivesse jeito nenhum para avançado ou defesa. Daquele maralhal de rapaziada sobraram alguns razoáveis jogadores quando mais crescidos para os clubes locais. 

Além do futebol que rebentava com as botas cardadas e de pele de carneira ensebada, havia as bolas que nós próprios fabricávamos com uma meia de seda de senhora, já com malhas caídas e abandonada cheia de jornais amachucados. 

Anos depois, já no Liceu Camões lembro-me da malta jogar no pátio do recreio e o Fagundes um tipo baixinho que era porteiro e continuo caçar as bolas ao pessoal e guardá-las numa sala fechada à chave. 

Era proibido jogar! O Fagundes levava uma bola e misteriosamente outra bola saltava de dentro de uma pasta qualquer e nova jogatana continuava. Mas ainda na primaria lembro-me bem dos frios passados nos três primeiros meses do ano e nos três mesdes ultimos - os meses de frio - a roupa dea rapaziada era pouco espessa e os calções não ajudavam
Lisboa.Praça José Fontana, mais conhecida por Praça do Matadouro. Ano de 1960. Fachada do Lyceu Camões, hoje chamada de Escola Secundaria de Camões

As mãos avermelhadas do frio tinham dificuldade em segurar os lápis e canetas. A rapaziada tinha frieiras nas mãos e nos pés! Quando chovia aconchegávamos debaixo de um portal. Chegávamos a casa molhados até aos ossos. Nenhum dos meus trinta colegas da primária seguiu comigo os estudos no secundário. Foram todos trabalhar porque eram pobres. Uns foram logo para as profissões que apareciam: talhante, loja de fazendas, bazar de utilidades domésticas, ourivesarias, sapatarias. Mercearias. Capelistas. Ainda encontrei alguns dos meus antigos colegas de primária.

Uma vez o Sílvio foi-me sentar no cinema Éden. Era arrumador. Outra vez passei por um talho e lá estava de avental ao peito o Runa, o mais rebelde de todos nós. 

Este rapaz sabia resistir às investidas do Professor Dias quando era castigado por provocar desacatos. O Professor punha-o de costas para a parede e com o livro aberto na mão, junto ao quadro de lousa da parede. 


Não me esqueço que ele tirava as botas e punha-as nos ombros. O professor, de costas não o via, e quando o via lá apanhava o pobre do Runa uma valente meia dúzia de reguadas. O professor batia-lhe muito mas ele nunca chorava!

Era o meu herói. Contra tanta injustiça o Runa ganhava! Nunca mais o vi mas se for vivo gostava de lhe dar um abraço e agradecer-lhe o sacrifício.

 Era esta a escola salazarenta que felizmente as novas gerações não conheceram.

 FIM

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