BANCADA DIRECTA: Terão as mulheres portuguesas vontade expressa de votar numa pessoa que as subalterniza despudoradamente? Ressuscitando as teorias desgraçadas de Salazar?

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Terão as mulheres portuguesas vontade expressa de votar numa pessoa que as subalterniza despudoradamente? Ressuscitando as teorias desgraçadas de Salazar?

PORTAS CONTRA-ATACA SEM CARÁCTER E RESSUSCITA SALAZAR

As palavras têm força e função. Paulo Portas disse isto: “As mulheres sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos. Foram os portugueses que conseguiram, com os seus sacrifícios, vencer a crise e quero fazer uma homenagem especial às mulheres que aguentaram os anos de chumbo da recessão da herança do PS e procuraram conseguir que os filhos tivessem um futuro melhor.

São elas credoras dos principais objetivos da política de apoio à família desta coligação”. A primeira reação a estas palavras, a reação instintiva, é a de repulsa, de indignação, de estupefação: – isto aconteceu mesmo? Portas usou o retrato obsoleto, subjugante, salazarista das mulheres para elogiá-las exatamente a elas, as mulheres que recusaram e lutaram por não se reduzirem à dona de casa cuidadora e muda? Usou.

É importante analisar esta declaração em dois planos: 1) A declaração em si; 2) A função política da declaração. Vamos à declaração em si. Num país normal, seria suficiente a declaração para nenhuma mulher votar na coligação. Não vale a pena procurar contextos. O que foi dito marca um dos dias mais negros da eloquência verbal de Paulo Portas. A minha geração tem mães e avós que sabem bem dos tempos de uma ditadura que educava a sociedade contra os seus possíveis detratores, entre eles o feminismo.

As mulheres – e o modo da sociedade olhar para as mesmas – foram sujeitas a uma orientação ideológica e doutrinal que as colocava exatamente no lugar para onde Portas agora as remete. A minha geração tem mães e avós que sabem bem dos tempos de uma ditadura que para conseguir o feito que descrevi tinha organismos notáveis, como a Obra das Mães pela Educação Nacional, a Mocidade Portuguesa Feminina e o Movimento Nacional Feminino.
O objetivo destes organismos incluía, entre outros, o de formar as mulheres para a função de educação no seio da família, isto é, “cuidar dos mais novos”, como afirmou Portas. A minha geração tem mães e avós que sabem bem que “para legitimar a ditadura imposta por Salazar, entra em vigor a Constituição de 1933 que, como consequência do pensamento patriarcal do ditador, tolheu das mulheres uma série de direitos, confinando-as no lar” (Chrystiane Castellucci Fermino,

A situação jurídica das mulheres em Portugal no pré e pós 25 de Abril, em especial no âmbito das relações familiares – http://www.fd.uc.pt/hrc/pdf/papers/chrystiane.pdf). Basicamente o mandamento era este: – as mulheres sabem que têm de tratar da casa. Ora foi exatamente isto que foi dito num dos dias mais negros da eloquência verbal de Paulo Portas.

É sério. É grave. É insultuoso. É conhecida a afirmação de Salazar numa entrevista a António Ferro: “Mas a mulher casada, como o homem casado, é uma coluna da família, base indispensável duma obra de reconstrução moral. Dentro do lar, claro está, a mulher não é uma escrava. Deve ser acarinhada, amada e respeitada, porque a sua função de mãe, de educadora dos seus filhos, não é inferior à do homem. 

Nos países ou nos lugares onde a mulher casada concorre com o trabalho do homem – nas fábricas, nas oficinas, nos escritórios, nas profissões liberais – a instituição da família, pelo qual nos batemos como pedra fundamental duma sociedade bem organizada, ameaça ruína … Deixemos, portanto, o homem a lutar com a vida, no exterior, na rua…

E a mulher a defendê-la, a trazê-la nos seus braços, no interior da casa…Não sei, afinal, qual dos dois terá o papel mais belo, mais alto e mais útil.” É evidente que as nossas avós, as nossas mães, nós, a sociedade em geral sabe ouvir na declaração de Portas o espírito salazarento de alegado elogio às mulheres na sua recondução a um papel menor. As palavras de Portas não são um momento indiferente da campanha.

São mais um aviso da indiferença com que se regride nos actos e nas palavras em matérias civilizacionais. Pelo que escrevi até agora, tenho por aterrador que se vote na coligação. A declaração tem de ter consequências e a punição é demiti-lo pelo voto. Acontece que a coisa é ainda mais grave. É mais grave quando analisamos a declaração de Portas a partir da sua função política. 

 Essa função revela um homem sem escrúpulos, um homem sem limites éticos ou morais para atingir um objetivo. Convenhamos: Portas não é iletrado e sabe, mesmo que não o aleije, da longa história da subjugação feminina. Portas faz esta declaração depois de ser confrontado num debate com Catarina Martins, pensando que bastava aparecer perante a pequenota, e levou um ensaio de porrada política.
O conhecido orador implacável precisava de colo ideológico, de conforto dos seus eleitores e, se já foi grave fazer-se de mudo perante consultas compulsivas a mulheres após uma IVG, desta vez subiu a parada na proporção do desespero: o colo do conservadorismo teve a mesma função que a atribuição do sufrágio feminino (limitado) por decreto do ditador às mulheres.

 Numa síntese, a declaração de Portas não é um fait divert. É um marco negro do seu percurso. E deve ser inesquecível. Por outro lado, a declaração de Portas revela uma falta de carácter sem adjetivos possíveis: foge do que lhe corre mal para o conforto do conservadorismo sem hesitar em aliviar a sua invisível coluna com a exaltação da mulher do bolor salazarento. Não, não é um fait divert. Portas mostrou o que é: um calculista indiferente, neste caso, ao peso histórico e simbólico das palavras, pior, usando-os. É inesquecível e quem quiser que o puna com o voto.

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