BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e o seu "No Palco da Saudade". Hoje recorda-se o grande Gil Vicente

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e o seu "No Palco da Saudade". Hoje recorda-se o grande Gil Vicente

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e o seu "No Palco da Saudade". 
Hoje recorda-se o grande Gil Vicente

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

GIL VICENTE

Ele foi não só o primeiro dramaturgo português como também fundou uma certa tradição de representação teatral que inspirou as mais diversas produções em Portugal e noutros países europeus e sul-americanos, designadamente no Brasil. Viveu entre os anos de 1465 e 1537, não se sabendo ao certo as datas de nascimento e morte, assim como se tem dúvidas sobre o seu primeiro ofício.

 Há quem defenda que começou por ser ourives e que só depois de muito apreciado na corte de D. Manuel, graças aos favores de sua alteza a Rainha, é que se descobriu como poeta e dramaturgo, começando por organizar espetáculos palacianos, como festejos de casamento, nascimento, receção de membros da realeza e de comemoração de datas cristãs, como a Páscoa e o Natal.
Valendo-se do prestígio que adquiriu na corte, Gil Vicente atreveu-se a satirizar, através das suas obras teatrais, os vícios do clero e da nobreza. E é através dessas obras que o dramaturgo realiza uma síntese ibérica e original das tradições medievais do teatro, retomando os «milagres», os «mistérios», com consciência moral renovadora – própria do Renascimento cristão e erasmiano – que nas suas comédias se revelam na expressão satírica, de humor saboroso e popular, arma considerada de direta e inevitável eficácia.

Ele recriou nas suas farsas e autos pastoris os diferentes aspetos da vida de Portugal do século XVI, tanto de Lisboa, onde emergia a revolução marítima e comercial, como do meio camponês com sua linguagem, folclore e costumes peculiares. Dirigindo-se a uma plateia requintada, na corte dos reis D. Manuel e D. João III, onde imperava o orgulho das grandes descobertas das navegações, Gil Vicente refina a substância popular de sua comicidade, incutindo-lhe o riso cosmopolita que anuncia os triunfos da nova era. São variadas as fontes da sua dramaturgia.
E embora fosse mínima a experiência do teatro entre nós, o dramaturgo não ignora as representações profanas de textos religiosos, que lhe servirão de base aos autos voltados para os temas da Religião e para as farsas episódicas. E ao buscar inspiração em textos religiosos, mostra como o homem – independentemente da classe social, sexo ou religião – é egoísta, falso, orgulhoso e frágil quando se trata de satisfazer os desejos da carne e do dinheiro.

 O melhor das obras de Gil Vicente encontra-se fundamentalmente nas suas peças populares que abririam caminho para a sua grande obra-prima, a trilogia das sátiras que compõem o “Auto das Barcas” (sem esquecer as geniais farsas “O Velho da Horta”, “Auto da Índia e “Farsa de Inês Pereira”): “Auto da Barca do Inferno” (1516), “Auto da Barca do Purgatório” (1518) e “Auto da Barca do Paraíso” (1519), peças que apresentam uma verdadeira galeria de tipos sociais absolutamente irrepreensíveis de graça e verdade: um nobre, um frade, um sapateiro, uma alcoviteira, um judeu, um enforcado, entre muitos outros, que compõem um rico painel das fraquezas humanas. 
A primeira obra conhecida de Gil Vicente foi “O Auto da Visitação ou O Mónologo do Vaqueiro”, que foi escrita e representada por ele próprio num castelhano mascavado de tipismos da região de Saiago. Recorde-se que o castelhano era a língua da Rainha cuja maternidade se celebrava, idioma muito comum na corte portuguesa. Nessa mesma língua, veio ele a escrever um total de onze peças, contra dezasseis bilingues.

Nestas, por vezes, uma única personagem se exprime em castelhano, por motivo das sua nacionalidade ou por disfarce, como é o caso, por exemplo, da já referida “Farsa de Inês Pereira”, considerada a sua obra mais competente do ponto de vista estrutural, cujo personagem central era uma Inês fútil e preguiçosa, desejosa de um casamento que lhe livrasse do tédio da vida solteira, mas que não conseguia ser feliz com os maridos.
Alguns teóricos consideram que Gil Vicente nasceu em Barcelos. Outros, que ele nasceu em Guimarães. Mas a maioria sustenta que o chamado fundador do teatro português nasceu em Lisboa, embora alguns elementos de sua obra não comprovem isso. Do seu lado mais pessoal sabe-se que casou com Branca Bezerra que morreu e o deixou viúvo com três filhos. Casou-se novamente com Melícia Rodrigues, que lhe deu também três filhos. 

Dois deles, Paula e Luís Vicente, ainda se iniciaram na escrita dramática, sem grandes rasgos, sendo da responsabilidade de ambos a edição póstuma da obra paterna, composta por trinta e cinco títulos, que podem ser classificados em duas categorias: autos e mistérios (caráter sagrado), comédias e farsas (caráter profano). Para além da sua vasta obra dramática,

Gil Vicente escreveu também inúmeros poemas ao estilo das cantigas dos trovadores medievais, onde retrata de forma satírica e cáustica a sociedade portuguesa do século XVI. A obra vicentina é tida, aliás, como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Ele que foi o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa, não teve um fim de vida propriamente muito tranquilo.

Morreu em lugar desconhecido, junto da família.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2015. Junho. 11

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