BANCADA DIRECTA: "No Palco da Saudade". Rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar os nomes e as figuras que engrandeceram os nosso palcos. Hoje recorda-se Leandro Vale. É o Teatro no Bancada Directa

sexta-feira, 5 de junho de 2015

"No Palco da Saudade". Rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar os nomes e as figuras que engrandeceram os nosso palcos. Hoje recorda-se Leandro Vale. É o Teatro no Bancada Directa


"No Palco da Saudade".
Rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar os nomes e as figuras que engrandeceram os nosso palcos.
Hoje recorda-se Leandro Vale.
 É o Teatro no Bancada Directa

No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos
 LEANDRO VALE

Actor, encenador, dramaturgo, radialista e jornalista, ele foi um dos maiores impulsionadores da descentralização do teatro do nosso país, fixando nos últimos anos a sua actividade em Trás-os-Montes, com sede de trabalho na cidade de Bragança. Mas na verdade tudo começou em Coimbra, com o seu envolvimento na fundação do CITAC (Circulo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) em 1955.

Rumou então a Lisboa para uma breve incursão no chamado teatro comercial e frequentar o curso do Conservatório Nacional. Passou de depois pelo TEP (Teatro Experimental do Porto) e por outros grupos por ele fundados na cidade Invicta, rumou de seguida aos Açores para uma experiência que o marcou profundamente, até que, com a Revolução dos Cravos, voltou ao Continente para festejar Abril e ajudar a fundar o Centro Dramático de Évora.

O Alentejo foi uma das grandes paixões deste nortenho nascido em Travanca de Lagos (concelho de Oliveira do Hospital), em 1940, que foi aprendendo a amar todas as terras por onde fez vida e deixou a sua marca de homem livre e combatente pelas causas em que sempre acreditou, desde a Cuba de Fidel de Castro ao nosso Nordeste Transmontano que o adotou como seu filho. Leandro Vale considerava, aliás, Cuba como sua segunda pátria, onde esteve pela primeira vez em 1961, no primeiro ano da Revolução Cubana, e onde voltou frequentes vezes, quase sempre para trabalhar, como encenador de diversos espectáculos apresentados no Festival Internacional de Teatro de Havana ou na dupla qualidade de autor e actor, como aconteceu na peça “La Obscuridad Transparente”, com base no Julgamento dos Cinco de Miami, no popular Trevol Teatro.
Mas se desfiarmos as memórias de Leandro Vale encontrá-lo-emos por outras cidades, pelas sete partidas do mundo, onde escreveu, encenou, representou, fez rádio e televisão, conquistando por aí os mais diversos prémios e justas homenagens. Espanha, França, Suíça e Bélgica, por exemplo, receberam-no nos mais prestigiados festivais e noutros eventos culturais, mas foi a lusa Bragança que ele mais calcorreou em trabalho e mais defendeu de forma aguerrida como sendo a terra portuguesa de mais forte identidade cultural e de produtos ímpares. Houve, por isso, quem escrevesse que ele foi o mais brigantino dos beirões.

E o exagero que possa haver na atribuição às virtudes da região nordestina radica simplesmente no amor que sempre colocou em tudo o que fez, desde o mais pequeno papel que interpretou à mais exigente encenação que rubricou. No que à produção literária diz respeito, Leandro Vale deixou para a posteridade 180 peças de teatro, 102 das quais foram postas em cena, para além de inúmeros poemas e crónicas.

Como últimos escritos podemos encontrar nos escaparates “8 Dias nos 80 de Fidel”, crónicas de viagem aquando da sua participação, como convidado especial, nos oitenta anos de Fidel de Castro, “Escritos do Palco”, colectânea de textos teatrais editados pela Seara das Letras com o apoio da Sociedade Portuguesa de Autores, “História do Pouca Terra e da Formiga Rabiga”, texto apresentado no final de uma formação que orientou em Aviz, apresentado pela Poejo Editora, e “Cuba Meu Amor”, um livro de poemas publicado com o apoio da Embaixada de Cuba em Lisboa.
Ainda relativamente à sua escrita, Leandro Vale deixou expressos os seus pensamentos em artigos de opinião publicados mais diversos jornais (desde o prestigiado República aos mais humildes periódicos do distrito de Bragança), em crónicas radiofónicas ou através dos manifestos das suas várias candidaturas, pela CDU, à Câmara Municipal de Vimioso. A política esteve, aliás, desde muito cedo na sua vida, militando desde os tempos da clandestinidade no Partido Comunista Português.

Embora não se possa nunca desligar o ser político do artista, diz com quem ele trabalhou que terá evidenciado sempre um espírito aberto a todas as opiniões sem nunca tentar impor a sua, quer no convívio com os camaradas de profissão quer no trabalho de composição das suas personagens como ator, sendo absolutamente fiel às directrizes dos directores. Na qualidade de actor, Leandro Vale brilhou fundamentalmente na televisão e no cinema.

A sua prestação nas séries “Mau Tempo no Canal” e “Fronteira Ocidental” e nos filmes “A Sombra dos Abutres” e “Aqui Jaz a Minha Casa” são alguns dos melhores exemplos. E a sua coroa de glória como intérprete nos palcos terá sido com o solo “Os Malefícios do Tabaco” de Anton Tchékhov. No teatro ele sentia-se sobretudo encenador, dramaturgo e pedagogo, entendendo o seu trabalho como um contributo para a verdadeira democratização da cultura e sua fruição total.
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E foi isso que ele procurou fazer ao formar a sua companhia, o Teatro em Movimento, em Bragança, há perto de 35 anos, levando centenas de peças de teatro a todas as aldeias do nordeste transmontano. A última vez que estivemos com Leandro Vale foi há pouco menos de dois anos, no Festival de Almada. Passámos boa parte da noite no espaço de convívio do festival falando de teatro e política, exalando o aroma do tabaco do seu inseparável cachimbo

Para nós, a noite só acabou depois ele cantar um fado à capella. E que bem ele cantava fado! Fomos surpreendidos no passado dia 2 de Abril com o seu falecimento, vítima de um AVC. A morte apanhou-o em Lisboa, no Hospital Pulido Valente. Tinha 75 anos.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto.
Porto. 2015. Junho.05

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