BANCADA DIRECTA: "No Palco da Saudade". Rubrica de Salvador Santos, o nosso homem do teatro, que se destina a recordar as figuras dos teatros portugueses. Hoje é recordado Antonio José da Silva "O Judeu". É o Teatro no Bancada Directa

quinta-feira, 18 de junho de 2015

"No Palco da Saudade". Rubrica de Salvador Santos, o nosso homem do teatro, que se destina a recordar as figuras dos teatros portugueses. Hoje é recordado Antonio José da Silva "O Judeu". É o Teatro no Bancada Directa

"No Palco da Saudade". 
Rubrica de Salvador Santos, o nosso homem do teatro, que se destina a recordar as figuras dos teatros portugueses. 
Hoje é recordado António José da Silva "O Judeu". 
É o Teatro no Bancada Directa

"No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA (O JUDEU) 

Nascido no Rio de Janeiro em 1705, numa família de origem judaica radicada no Brasil cujos membros se proclamavam como «cristãos novos», ou seja judeus que tinham renegado à sua fé e convertido ao cristianismo, ficaria para a história com o apelido de O Judeu. Quando tinha apenas sete anos, a comunidade de cristãos novos, na qual a sua família se inseria, foi vítima de perseguições e acusações de heresias. 

A sua mãe, Lourença Coutinho, foi acusada de manter e praticar a fé judaica secretamente e foi deportada para Lisboa para ser processada pela Inquisição. O pai do jovem, o advogado e poeta João Mendes da Silva, partiu para Portugal, levando-o consigo, para estar próximo de sua mulher e, graças à sua influência, conseguir salvá-la da fogueira António José da Silva foi assim criado em Portugal onde recebeu uma educação estritamente católica na escola. 

Mais tarde entrou para a Universidade de Coimbra onde tirou o curso de Direito, chegando depois a exercer advocacia, paralelamente à sua actividade como escritor, tal como seu pai o fizera antes. Da sua escrita ressalta sobretudo a dramaturgia, através de várias sátiras à sociedade portuguesa da época encenadas frequentemente em Lisboa e no Porto na década de 1730, gozando sempre de grande popularidade. 
A sua obra inspirava-se no espírito e na linguagem do povo, rompendo com os modelos clássicos e incorporando o canto e música como elemento do espectáculo, sendo apresentadas como peças do «Judeu», título do qual se orgulhava. Influenciado pelas ideias igualitárias do Iluminismo francês, António José da Silva escreveu um dia uma sátira (hoje perdida) defendendo o igualitarismo social, o que serviu de pretexto às autoridades para o prender, acusando-o sobretudo de práticas judaicas. Foi, por via disso, cruelmente torturado, tendo ficado parcialmente inválido durante algumas semanas. 

E depois de forçado a assinar a sua «reconciliação» com a igreja católica, foi libertado, mas nem a sua vida nem o seu trabalho seriam os mesmos como até ali. A sua prisão levantou entretanto alguns sérios rumores de contestação contra a Inquisição, já que ele era um artista e escritor muito acarinhado pelo público. E isso fez com que a Igreja o mantivesse, a ele e ao seu trabalho, sob apertada vigilância. 


Um período de seis anos, entre 1733 e 1738, corresponde ao auge da criação literária de António José da Silva e à sua afirmação como dramaturgo. As suas sátiras e comédias foram várias vezes encenadas com grande êxito, quase sempre estreadas no Teatro do Bairro Alto, uma Sala do Conde de Soure, na lisboeta Rua da Rosa, adaptada às lides teatrais, também conhecida como Casa dos Bonecos. 

Ali foram representadas as suas oito singulares óperas: “Vida de D. Quixote”, “Esopaida ou A Vida de Esopo”, “Encantos de Medeia”, “Anfitrião ou Júpiter e Alcmena”, “Labirinto de Creta”, “Guerras de Alecrim e Manjerona”, “Variedades de Proteu” e “Precipício de Faetonte”, esta quando já se encontrava de novo encerrado nos cárceres da Inquisição em 1938. 
De facto, apesar de muito respeitado pelo próprio Rei, António José da Silva viu-se de novo preso, juntamente com a mulher e com a mãe, então já viúva. Acusações vindas de dentro da própria Igreja, que não via com bons olhos o espirito irreverente das suas peças, a que acresceu a denúncia feita por uma escrava que acusou a sua família ao Tribunal do Santo Ofício, foram as razões invocadas para o encarceramento. 

Durante a tortura a que o submeteram descobriram que ele era circuncisado, o que lhe agravou a acusação. Num processo que decorreu (sabe-se hoje) com notória má-fé por parte do tribunal, O Judeu foi condenado, apesar de a leitura da sentença deixar transparecer que não praticava na realidade o judaísmo. E ele acabaria garrotado (ou seja, cortaram-lhe o pescoço com um garrote) e queimado em Auto-de-Fé em Lisboa, em outubro de 1739. Ao longo dos tempos, António José da Silva tem sido recordado por gente das letras e das artes, para quem tem servido de inspiração em várias obras. 
Camilo Castelo Branco conta a sua história no romance “O Judeu”, numa escrita cheia de pormenores da época e detalhes verídicos, muito devido a um estudo de investigação e leitura dos processos de condenação da Inquisição que sobreviveram e não foram, felizmente, destruídos. Bernardo Santareno, considerado um dos nossos maiores dramaturgos do século XX, e também ele judeu, escreveu uma peça (“O Judeu”) sobre a sua vida que, curiosamente, faz um paralelismo entre a Inquisição e o regime Salazarista que se vivia na altura. 

E o realizador Tom Tob Azulay transpôs para cinema (“O Judeu”) a sua vida. António José da Silva (O Judeu) constitui um caso singular na história do teatro português e um exemplo de dignidade perante a arbitrariedade e a injustiça dos que não toleram a liberdade e as diferenças. Luís de Freitas Branco apelidou-o de fundador da ópera nacional. Teófilo Braga considerou-o um mártir da Inquisição. 
João Paulo Seara Cardoso exaltou a sua memória para que barbáries semelhantes à Inquisição não voltem a existir nesta Terra e para que a liberdade que a todos os homens assiste, na sua fé e no seu pensamento, seja sempre um bem inalienável. Há, por outro lado, uma outra evidente constatação: sem O Judeu, teriam decorrido 300 anos da nossa história teatral (entre Gil Vicente e Almeida Garrett) sem dramaturgos com obra digna de relevo. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2015. Junho. 18

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