BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos "No Palco da Saudade". Hoje o actor Barreto Poeira é a figura que se recorda

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos "No Palco da Saudade". Hoje o actor Barreto Poeira é a figura que se recorda


O Teatro no Bancada  Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos "No Palco da Saudade". Hoje o actor Barreto Poeira é a figura que se recorda

"No Palco da Saudade"

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

BARRETO POEIRA 
Ribatejano contemporâneo de Alves Redol, foi um dos grandes impulsionadores do teatro amador na sua região de nascimento, sobretudo como actor e encenador do Grupo Cénico Vila-Franquense, onde pisou o palco pela primeira vez com apenas seis anos de idade

Apesar da sua grande ligação a este grupo desde muito jovem, não deixou, porém, de colaborar em muitos outros colectivos amadores da sua terra, designadamente no Grupo Dramático e Beneficente Afonso de Araújo, na condição de coautor e encenador da revista ”Sem Pés Nem Cabeça”, que foi levada a cena em 1927 com grande sucesso, fazendo deslocar um apreciável número de espectadores de outras paragens até lá, nomeadamente actores, encenadores e empresários do teatro profissional. 

Julieta Castelo e Barreto Poeira no filme de Jorge Brun de Canto "Um homem às direitas". 1944

Sondado por um influente empresário da época para colaborar na autoria de uma revista para o Teatro Apolo, em Lisboa, Barreto Poeira temeu perder o seu emprego e optou por declinar a proposta, mantendo-se ligado à actividade teatral apenas como amador. Na comemoração do 25º. aniversário da sua estreia como actor, tinha ele 31 anos, interpretou, ao lado de Alves Redol, um dos principais papeis da peça ”A Sesta” da autoria de Faustino Reis Sousa, que reproduzia os costumes dos homens da borda d‘água

O êxito desta representação, que voltaria ao palco no ano seguinte no âmbito da 1ª. Festa do Colete Encarnado, proporcionaria um novo convite para uma aventura no teatro profissional, mas recusa o convite e mantém-se no Grupo Cénico do Clube Vila-Franquense, de onde se despede em 1932 com a peça “Cobardias” de Linares Rivas. 
Barreto Poeira e Carmen Dolores no filme de Antonio Lopes Ribeiro "Amor de Perdição". 1943. Neste filme Barreto Poeira fez o papel de Tadeu Albuquerque

Com a deslocalização da empresa onde trabalha para Lisboa, o jovem actor dramático amador passa então a representar no grupo cénico do Clube Estefânia, onde o realizador Henrique Campos o conhece e não tem dúvidas em escolhê-lo para substituir o actor Alves da Cunha (que havia adoecido) num pequeno papel no seu filme mudo “A Pequena de Nápoles”. Jorge Brum do Canto vai depois buscá-lo para protagonista de “A Canção da Terra”, que o lança para uma carreira de actor cinematográfico de grande expressão nos anos 1940.

É nessa década, mais concretamente em 1947, que o actor experimenta profissionalmente o palco, no Teatro Avenida, em Lisboa, com três peças dirigidas por Maria Matos: “Ana Cristina” de Eugène O’Neill, “Vidas Privadas” de Noel Coward e “A Cadeira da Verdade” de Ramada Curto, que foram grande sucesso. 

A estreia de Barreto Poeira nos palcos do teatro profissional foi extremamente promissora, a crer no que escreveu o severo e exigente Jorge de Sena, então critico na revista Seara Nova: «Representa com à-vontade e tem momentos excelentes, sempre servido por um sóbrio e muito expressivo jogo fisionómico, dos mais vivos que tenho observado. Futuras interpretações confirmarão e excederão, por certo, as esperanças que é lícito pôr nas suas qualidades». Mas a verdade é que o actor, apesar dos inúmeros convites recebidos, não persistiria numa carreira de fôlego nos palcos, remetendo-se quase praticamente ao cinema e, nos primórdios da televisão, a algum teatro televisivo. 
Barreto Poeira no filme "Fátima Terra de Fé"

Do íntegro Gonçalves de “A Canção da Terra” ao Romeiro de “Frei Luís de Sousa” (realizado por António Lopes Ribeiro), passando pelo Dr. Silveira, militante ateu de “Fátima, Terra de Fé” (J. Brum do Canto) ou pelo brutal Tadeu de Albuquerque de “Amor de Perdição” (A. Lopes Ribeiro), muitas foram as prestações de Barreto Poeira no cinema português, sempre dotadas de um fundo de solidez, uma âncora de verdade que era a sua imagem de marca.


Mas a sua interpretação mais emblemática talvez esteja no burguês que acredita no valor do trabalho, nos valores da família – sem nunca alcandorar-se à fidalguia do sangue – de “Um Homem às Direitas” (J. Brum do Canto), em tom de comédia dramática e pesada moralidade que muito bem lhe assenta. 

Da longa série de filmes em que Barreto Poeira participou seria injusto não referir “O Diabo São Elas”, uma coprodução luso-espanhola realizada por Ladislao Vajda, “Cais do Sodré” com direcção de Alejandro Perla, “O Trigo e o Joio” com realização de Manuel Guimarães ou “Vendaval Maravilhoso” com direcção de Leitão de Barros, trabalhos que o dotaram de um impressionante à-vontade na relação com as câmaras que viria a ser determinante nos convites recebidos da RTP aquando do surgimento da televisão em Portugal.

A nível televisivo, quando ainda tudo era feito em directo, das inúmeras peças em que colaborou nas célebres Noites de Teatro destaca-se o seu trabalho em “A Sapateira Prodigiosa” de Federico Garcia Lorca, contracenando com Amália Rodrigues, Paulo Renato e Varela Silva, numa realização de Fernando Frazão. 
Romeiro, quem sois ?
-Ninguém...

Este breve diálogo, entre duas personagens do filme «Frei Luís de Sousa», é uma das cenas mais pungentes do cinema português. É travado entre Telmo Pais, o velho criado dos Coutinhos (João Vilaret, à direita) e um romeiro de passagem pelo paço dos ditos fidalgos (Barreto Poeira, à esquerda). O filme foi realizado, como é sabido, em 1950, por António Lopes Ribeiro


Ombreando com os melhores na arte de representar, Barreto Poeira mereceu sempre da crítica especializada os maiores elogios pelo seus desempenhos, destacando quase sempre os seus excelentes escrúpulos de composição das personagens, um notável rigor da transmissão dos textos e uma presença forte e dominadora nas contracenas, características que foram recordadas na momento do seu funeral, em 30 de Outubro de 1980, tinha o actor 79 anos. 

O município de Vila Franca de Xira, que o viu nascer, deu o seu nome a uma das ruas do concelho, exemplo que viria a ser seguido por diversas outras localidades que o perpetuaram nas placas toponímicas das suas artérias.

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João.
Porto. 2015. Maio. 20

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !