BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos "No Palco da Saudade". Rubrica que se destina a recordar as figuras dos nossos palcos que já nos deixaram. Hoje recorda-se Sérgio de Azevedo.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos "No Palco da Saudade". Rubrica que se destina a recordar as figuras dos nossos palcos que já nos deixaram. Hoje recorda-se Sérgio de Azevedo.


O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos "No Palco da Saudade". 
Rubrica que se destina a recordar as figuras dos nossos palcos que já nos deixaram.
 Hoje recorda-se Sérgio de Azevedo. "

No Palco da Saudade" 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)  

SÉRGIO DE AZEVEDO 
Muito poucos saberão, mas foi ele o verdadeiro Tony Silva, nome que o humorista Herman José recuperou quando compôs o célebre «el grande criador de toda a música ró» para o programa “O Passeio dos Alegres” de Júlio Isidro, na RTP!

 Foi na verdade como cantor que o empresário Sérgio de Azevedo se iniciou no mundo do espetáculo, quando, em 1961, emigrou para o Brasil ao encontro de uma nova vida. Em São Paulo fez amizade com um grupo de músicos, com os quais viria a fundar uma banda onde foi vocalista e fez grande furor. 


E tal foi o sucesso que a Rede Globo TV o contratou para produzir e protagonizar um programa de variedades e entretenimento a que deu o título de “As Canções de Tony Silva”, que esteve no ar durante 18 meses. Sete anos depois do início da sua inesperada aventura brasileira no meio musical e televisivo, o seu enamoramento por uma das quatro companheiras que teve ao longo da vida fê-lo regressar a Portugal
Famosos foram os tempos das grandes festas e convívios organizados por Sérgio de Azevedo. Foi o 1º empresario a ter um bar de Café- Concerto, o Frou-Frou. Na foto vê-se Sérgio de Azevedo e Luis Mascarenhas numa dessas festas


Por cá, ainda tentou prosseguir a sua experiência como «crooner» num conjunto musical em início de carreira, mas a sua debilidade vocal e o repertório que interpretava não lhe permitiram grandes avanços. Aconselhado pelo seu amigo Victor Espadinha – actor e radialista recém-chegado de Londres em busca de um lugar no quase impenetrável teatro comercial português –, Sérgio de Azevedo enveredou então pela produção e agenciamento de espectáculos, até se decidir a assumir o risco de gerir uma das salas do Parque Mayer, em Lisboa: o popular Teatro ABC. Nascido de uma ideia do empresário José Miguel, que o geriu até 1971, o ABC foi o último teatro a ser erguido no Parque Mayer. E foi a partir desta sala que, graças a Sérgio de Azevedo, se empreenderam mudanças radicais na estrutura da revista à portuguesa. 

“É o Fim da Macacada!”, distinguido com o Prémio de Imprensa, foi o espetáculo que marcou o início da tentativa da restituição da crítica à revista. Inovando nos textos, cenografia e música, o teatro de revista surgia então com outra força. Força essa que seria reforçada com “Tudo a Nu”, que ganhou o prémio da melhor revista da temporada 1973-1974, e “Uma no Cravo e Outra na Ditadura”, produção que reuniu na sua equipa de autores os nomes de José Carlos Ary dos Santos e Bernardo Santareno. 

Antes destas suas três mais marcantes produções, Sérgio de Azevedo já havia dado sinais de querer romper com a monotonia que se instalara no teatro ligeiro português, levando a cena no arranque da sua vida empresarial um espectáculo capitaneado por Victor Espadinha: “Dura Lex Sed Lex”, um híbrido entre o musical, a comédia de costumes e a revista que aguçou a curiosidade dos públicos do Parque Mayer, que haviam depois de encher o Teatro ABC para ver e aplaudir os espectáculos que se lhe seguiram, onde se destacam ainda, para além dos que acima se mencionam, “É P’ró Menino e P’rá Menina”, “P’ra Trás Mija a Burra”, “Oh da Guarda” e “Põe-te na Bicha”, que figuram entre as melhores produções de sempre do nosso teatro de revista. Para além de teatro de revista, 

Sérgio de Azevedo produziu ainda no Teatro ABC, enquanto dirigiu aquele espaço entre 1971 e 1978, algumas comédias como “Risolucionário” do comediante Badaró ou as peças destinadas ao público mais jovem “ABCzinho”, “Cavaleiro Sem Medo” e “Batatinha e Casacão”, que ajudaram a diversificar a oferta do Parque Mayer. 

Porém, aquela sala começou a ser demasiado limitativa para as ambições do empresário, que decidiu então apostar noutro género de espectáculos musicais, levando-o a construir na zona do Campo Grande, em Lisboa, o já desaparecido Café-Concerto Frou-Frou, considerado como a melhor sala nocturna da Península Ibérica, onde apresentou os célebres shows “Crazy Horse” e “Dzi Croquetes”. Paralelamente a esta aventura na animação nocturna de Lisboa, 

Sérgio de Azevedo decidiu alugar o Teatro Maria Matos para aí se abalançar na produção de dois musicais: “Annie”, considerado pela critica nacional como o melhor do género no país e distinguido pela imprensa norte-americana como a melhor versão daquela obra realizada no estrangeiro; e “Severa”, uma adaptação livre do célebre texto homónimo de Júlio Dantas. Apesar dos encómios da crítica especializada, os espectáculos não mereceram os favores do público e o empresário registou o primeiro fracasso do seu currículo. 


Apesar de insatisfeito com os resultados, não esmoreceu e tentou recuperar um género de grandes tradições em Portugal – a opereta! “A Invasão” foi a obra escolhida, estreada no Teatro da Trindade, em Lisboa, que resultou também num grande fracasso financeiro. Parecia chegado o fim do percurso de Sérgio de Azevedo como empresário teatral. 
Investiu o que lhe restava num negócio em Sintra ligado à montagem e comercialização e de aparelhos de ar condicionado e outros electrodomésticos, teve uma muito breve passagem pela política, até que as saudades do teatro o levaram a propor a Nicolau Breyner a remontagem do célebre monólogo “Esta Noite Choveu Prata” no Centro Cultural Olga Cadaval. Outro fracasso!

Desgostoso, retirou-se definitivamente, não sem antes escrever um livro de memórias: “Histórias de Teatro e Outras Paralelas”. Quatro anos depois, em 5 de março de 2006, sucumbe a um cancro que o atormentou durante os seus últimos seis anos de vida. Ainda não tinha 70 anos quando nos deixou. 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Maio .08

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