BANCADA DIRECTA: "No Palco da Saudade" é uma rubrica a cargo do nosso homem do teatro Salvador Santos para nela se recordarem os nomes das figuras que pisaram os nossos palcos e que já desapareceram. Hoje recorda-se Ester Leão. É o Teatro no Bancada Directa

sexta-feira, 15 de maio de 2015

"No Palco da Saudade" é uma rubrica a cargo do nosso homem do teatro Salvador Santos para nela se recordarem os nomes das figuras que pisaram os nossos palcos e que já desapareceram. Hoje recorda-se Ester Leão. É o Teatro no Bancada Directa

"No Palco da Saudade" é uma rubrica a cargo do nosso homem do teatro Salvador Santos para nela se recordarem os nomes das figuras que pisaram os nossos palcos e que já desapareceram. 
Hoje recorda-se Ester Leão. 
É o Teatro no Bancada Directa 

 "No Palco da Saudade" 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 ESTER LEÃO 
Princesa dos palcos em Portugal, rainha do teatro no Brasil, ela foi responsável pela formação de algumas das maiores estrelas brasileiras que despontaram nos anos 1940 e 1950, como Fernanda Montenegro, Cacilda Becker, Nathália Timberg ou Vanda Lacerda. Descendente de uma poderosa família de Gavião, Portalegre, filha do médico e diplomata Francisco Leão, que foi o primeiro Governador Civil de Lisboa após a implantação da República, cedo se apaixonou pelo teatro. 

Apesar de contrariada pela família, nomeadamente pelo seu tio Ramiro Leão, um influente comerciante de Lisboa, conseguiu estrear-se nos palcos aos 21 anos, no Teatro da República (atual São Luís), com o pseudónimo de Ester Durval, como protagonista de “O Assalto” de Bernstein. A sua decisão de prosseguir uma carreira no teatro causou um grande escândalo nos círculos da elite lisboeta, apesar do talento por ela evidenciado, forçando-a a afastar-se dos palcos. 

Mas a sua natureza irrequieta e aventureira trouxe-a de volta sete anos depois para protagonizar, já com o seu nome verdadeiro, a peça “Maria Isabel” de Américo Durão, no Teatro D. Maria II, onde representaria depois os dramas históricos “Alcácer-Kibir” de D. João da Câmara, “O Pasteleiro de Madrigal” de Augusto Lacerda e “O Crime de Arronches” de Lopes Mendonça (que se constituíram nos seus primeiros êxitos), a que se seguiu o drama rústico “A Filha de Lázaro” de Norberto Lopes e Chianca de Garcia, na então jovem companhia de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro. 
Mas é no repertório moderno, nomeadamente nas peças “Dentro do Castigo” de Norberto de Araújo e “Miragem” de Carlos Selvagem, que Ester Leão viria a encontrar os papéis mais adequados à sua personalidade artística. O mesmo acontecendo no teatro musicado, que a actriz experimentou no Teatro Apolo, durante uma temporada que ficou essencialmente marcada pela sua participação na opereta “Madragoa” de Feliciano Santos

Entretanto, na década de 1930, registam-se algumas mudanças de rumo no teatro em Portugal que a desgostam e resolve criar a sua própria companhia, que produz um repertório formado exclusivamente por originais portugueses em estreia absoluta, como aconteceu com “Mascarada” de Ramada Curto e “Divórcios” de Lorjó Tavares. Inesperadamente, em 1931, Ester Leão aceita o convite para se engajar na temporada portuguesa da peça “Deus lhe Pague” de Joracy Camargo, produzida pela companhia do brasileiro Procópio Ferreira, interpretando o principal papel feminino, Nancy, mulher do Mendigo Filósofo. Finda a carreira do espetáculo no nosso país, a atriz envolve-se na sua digressão por terras de Vera Cruz, de onde nunca mais voltou. 

O retumbante sucesso da atriz nos palcos brasileiros e o «abastardamento da vida teatral portuguesa, que a censura fascista e a desorganização empresarial condenavam à mediocridade e ao conservadorismo», foi o que bastou para que ela cedesse aos vários e insistentes apelos para que assumisse a direcção do TEB-Teatro do Estudante do Brasil. 

Caricatura de Ester Leão da autoria de Amarelhe

Em dez anos de dedicação ao TEB, Ester Leão, para além de ter tido influência na formação de muitos actores brasileiros, produziu alguns dos melhores espectáculos daquela época, a partir de textos clássicos e modernos. “Os Romanescos” de Edmond Rostand, “Leonor de Mendonça” de Gonçalves Dias e “O Jesuíta” de José Alencar foram os três primeiros de uma longa série de sucessos. O mais popular foi sem dúvida o que ela encenou para a estreia daquela que viria a ser considerada por muitos como a maior atriz brasileira de sempre: Cacilda Becker. 

Com o mesmo texto (“Três Mil Metros de Altitude”, com o título alterado para “Alegres Canções da Montanha”), ela lançaria mais tarde outro nome maior do outro lado do Atlântico: Fernanda Montenegro. Ester Leão era uma mulher severa, rigorosa no trabalho, mas sempre muito bem-humorada e solidária com as equipas que dirigiu ou integrou, quer como professora, atriz ou encenadora. 

Para além da sua inestimável colaboração como professora no TEB e, mais tarde, no Teatro Universitário, e para além ainda de algumas das suas memoráveis criações como intérprete, o que fica sobretudo de seu para a história das artes cénicas brasileiras é o honroso título de Rainha do Teatro que conquistou pelas suas geniais encenações, de que são exemplos mais brilhantes os espectáculos “Romeu e Julieta” de Shakespeare, “Castro” de António Ferreira, “A Dama da Madrugada” de Casona, “O Pai” de Strindberg e “A Morte de Um Caixeiro Viajante” de Arthur Miller. 
Para além de ter sido actriz e encenadora nas mais prestigiadas estruturas de produção brasileiras dos dois primeiros terços do século XX, entre as quais se destacam o Teatro de Arte, o Teatro Duse, e as Companhias de Eva Todor, Alma Flora e Luís Iglésias Freire, Ester Leão foi também pioneira do ensino de dicção, corrigindo a voz não só de actores, mas também de ministros e deputados, entre os quais figurava Carlos Lacerda, um dos mais férreos opositores ao ditador Getúlio Vargas. 

Respeitada e amada por toda a classe teatral como uma verdadeira musa, um exemplo de dedicação e amor à arte de representar, figura destacada na renovação cénica brasileira, Ester Leão viveu os três últimos anos de vida sob grande sofrimento, após grave doença que a deixou paralítica para sempre. Tinha 75 anos quando a morte a levou, a 16 de Abril de 1971.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto. 
Porto 2015. Maio. 15

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