BANCADA DIRECTA: Fernanda Montemor é uma actriz do passado que hoje é recordada por Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade". É o Teatro no Bancada Directa

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Fernanda Montemor é uma actriz do passado que hoje é recordada por Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade". É o Teatro no Bancada Directa

Fernanda Montemor é uma actriz do passado que hoje é recordada por Salvador Santos na sua rubrica "No Palco da Saudade".
 É o Teatro no Bancada Directa 

 "No Palco da Saudade" 

Texto Inédito e integral de Salvador Santos ( Teatro Nacional de São João. Porto)

 FERNANDA MONTEMOR 

Ela foi uma das mais marcantes actrizes da sua geração, dotada de um sentido de cena único, com uma voz singular, clara e límpida, possuidora de uma personalidade calma e serena, mas firme e determinada na defesa das suas convicções. Fernanda Montemor foi, aliás, uma das figuras mais destacadas da resistência cultural no antigo regime e uma das vozes que mais se impôs contra a censura e a polícia política de Salazar e Marcelo Caetano. 

Beirã de nascimento, veio para Lisboa estudar teatro. Ainda antes de concluir o curso do Conservatório Nacional, estreou-se no Teatro da Mocidade Portuguesa, na peça infantil “A Cigarra e a Formiga, passando depois pelo Teatro Ginásio, na Companhia do genial actor Alves da Cunha, que intuiu nela o que veio a demonstrar ao longo do seu percurso artístico: uma atriz de repertório única e exemplar. 
Fernanda Montemor foi a Avó Chica na série da RTP "Rua Sésamo". Notável este diálogo:Avó Chica: "Não, são as gardénias. Não, Poupas, não estão mortas, estão só fechadas. Está a anoitecer e há flores que fecham quando já não há Sol".


Poupas: "Nós somos como as flores, nós também fechamos os olhos quando não há Sol


O talento da jovem Fernanda Montemor também não passou despercebido ao mestre Francisco Ribeiro (Ribeirinho), que a levou de imediato para o seu Teatro do Povo, onde ela desenvolveu o enorme potencial criativo que havia já evidenciado. A sua ascensão na carreira levá-la-ia depois para o Teatro Gerifalto, dirigido pelo poeta António M. Couto Viana, onde conheceu o seu grande amor, o actor Mário Pereira, com quem partilhou a vida até ao desaparecimento deste, e adquiriu uma tarimba invejável no trabalho para crianças.

Paralelamente à sua colaboração em cerca de duas dezenas de peças infantis no Gerifalto, durante dois anos, nessa altura a atriz prestou também uma colaboração frutuosa com o Teatro da Trindade, de Lisboa, sob a direcção de Orlando Vitorino e Azinhal Abelho, ao mesmo tempo que se iniciava na rádio e na televisão. 


Na rádio, a voz de Fernanda Montemor deu corpo a um conjunto apreciável de personagens nos mais variados folhetins e peças de teatro que foram o primeiro contacto com a representação teatral para milhares de portugueses espalhados pelos mais recônditos lugares do país onde o teatro nunca tinha chegado.


O mesmo aconteceu na televisão, onde a atriz foi uma das pioneiras, participando em largas dezenas de peças nas célebres “Noites de Teatro” da RTP e, mais tarde, em inúmeras séries e sitcoms, entre as quais “Zé Gato”, “Sozinhos em Casa”, “Super Pai” e “Noite Sangrenta”, para além do programa infantil “Rua Sésamo”, onde foi a carinhosa e ternurenta Avó Chica, que prendeu ao pequeno ecrã as crianças dos finais dos anos 1980 e da década de 1990

Fernanda Montemor na peça "Tão só o fim do Mundo"


 O cinema não soube aproveitar convenientemente as particularidades físicas, a fotogenia e o singular registo vocal de Fernanda Montemor, que apenas terá sido dirigida com a atenção e os cuidados merecidos no filme “O Trigo e o Joio” do realizador Manuel Guimarães. Em contrapartida, o teatro aproveitou e bem, em inúmeros momentos, o seu extraordinário talento, especialmente através de encenadores como Luzia Maria Martins, Artur Ramos, Fernando Gusmão, Joaquim Benite, Peter Kleiwert e Jorge Silva Melo, entre outros, servindo os mais diversos textos clássicos e modernos, que vão desde Edward Bond a Simon Gray, de Lilian Helmann a Edward Albee, de Gil Vicente a William Shakespeare ou de Henrik Ibsen a Lilian Helmann,

Dos trabalhos realizados no teatro por Fernanda Montemor não podem deixar de ser relevados o seu impressionante desempenho como Jessica (a filha de Schylock) em “O Mercador de Veneza” de William Shakespeare, no Teatro da Trindade; a sua prestação em “Tartufo” de Molière, ao lado de Raul Solnado, no Teatro Villaret; a sua criação em “Os Irmãos Geboers” de Arne Sierens, no espaço A Capital; a sua interpretação em “A Dama do Maxim’s” de Georges Feydeau, no Teatro Aberto; ou a sua colaboração em “A Birra do Morto” de Vicente Sanches, no Teatro-Estúdio Mário Viegas.


Isto para além do vastíssimo leque de personagens criadas para inúmeras peças no Teatro-Estúdio de Lisboa ou o seu envolvimento em “A Mais Velha Profissão do Mundo” de Paula Vogel, no palco do Teatro Nacional D. Maria II, espetáculo durante o qual foi distinguida pelo Ministério da Cultura com a Medalha de Mérito Artístico. 


Ao longo da trajectória da sua carreira, de mais de seis décadas, que acompanhou muitos dos momentos e projectos mais significativos do teatro em Portugal do último meio século, Fernanda Montemor esteve sempre aberta a novas ideias e novos projectos, viessem eles dos encenadores mais consagrados ou dos mais jovens. 

Fernanda Montemor e Guida Maria na peça "Night Mother". Encenação de Celso Cleto. 1999


Antes de se afastar por decisão própria dos palcos, em 2010, participou em três espectáculos com visões que consubstanciavam apostas de risco, mas ela não teve qualquer medo de arriscar: “Hedda Gabler” de Henrik Ibsen, “Night Mother” de Marsha Norman, e “Elefantes no Jardim” de Virgílio Almeida, onde foi dirigida por Teresa Sobral, sua filha e também atriz

O encenador Jorge Silva Melo, que a dirigiu por diversas vezes, definiu-a assim em declarações ao jornal Público, aquando da notícia do seu falecimento, ocorrido a 26 de Março de 2015, véspera de mais um Dia Mundial do Teatro: «Fernanda Montemor era um encanto, entusiasta, divertida, disposta a experimentar, atenta ao mundo, sincera, empenhada.


 O seu trabalho no espetáculo do Lagarce [“Tão Só o Fim do Mundo”] era comovente, emanava (…) acima de tudo ternura (…). Nunca a vi falhar um papel; mas não se alçava em vedeta, era uma atriz que honrava o seu trabalho». Subscrevemos!


Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2015. Maio. 27

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