BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e onde hoje se recorda Rafael Bordalo Pinheiro.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e onde hoje se recorda Rafael Bordalo Pinheiro.

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e onde hoje se recorda Rafael Bordalo Pinheiro. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 RAFAEL BORDALO PINHEIRO 
Considerado um dos maiores artistas plásticos portugueses do século XIX, este importante caricaturista, ilustrador, ceramista, autor de banda desenhada, decorador, figurinista e cenógrafo, revelou-se também um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou uma contínua intervenção atenta e crítica à vida portuguesa. Permanecem de surpreendente actualidade os seus comentários à política, à economia e à sociedade da época nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raramente reflectiu na cerâmica que, a partir de 1884, logrou revitalizar nas Caldas da Rainha. 

O mesmo acontecendo nos palcos, onde contribuiu para a criação de alguns dos momentos mais brilhantes, de humor ácido e acutilante, em vários espectáculos de revista à portuguesa. Mas será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português. 


O seu lápis traduziu no quotidiano a perspicaz e oportuna observação crítica, caracterizando a política do país e escalpelizando os seus ícones, criando símbolos das nossas realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem de um povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe. Na verdade, ele perfilou-se como crítico, mas também como lutador em defesa dos valores e da dignidade de Portugal, sendo um dos momentos mais altos e mais sentidos o da crise do «Ultimatum» britânico de 1890, que lhe motivou inúmeras páginas patrióticas verdadeiramente inesquecíveis. 

Oriundo de uma família de artistas, Rafael Bordalo Pinheiro iniciou o Curso do Liceus em 1857, no mesmo ano em que nasceu o irmão Columbano Bordalo Pinheiro, que viria a revelar-se um notável pintor. Experimentou a representação teatral aos treze anos, inscreveu-se pouco depois no Conservatório Nacional, em 1860, e, no ano seguinte, matriculou-se em desenho de arquitectura civil na Academia de Belas Artes, onde também se inscreveu em desenho histórico. Perante um percurso escolar irregular e marcado por pouca assiduidade, em 1863 foi trabalhar como escriturário. 

Em paralelo, desenvolveu o gosto pela arte, como se verificou no Salão da Sociedade Promotora de Belas Artes, onde foi expondo aguarelas com motivos populares a partir de 1868. Dois anos mais tarde, o sucesso obtido com um desenho alusivo à peça “O Dente da Baronesa”, em cena num dos teatros da capital, revela em Rafael Bordalo Pinheiro o talento que viria a despoletar uma paixão: a caricatura. Editou então o espirituoso álbum de caricaturas “O Calcanhar d’Aquiles” e o semanário “O Binóculo”, que se vendia apenas nos teatros. 

De seguida deu à estampa o “Mapa de Portugal”, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a quatro mil exemplares no espaço de um mês. E pouco tempo depois, em 1875, associa-se à criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: “A Lanterna Mágica”, um projeto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições, onde tem por companheiro Guerra Junqueiro. 

 Definia-se aí o vasto campo da actuação de Rafael Bordalo Pinheiro, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas também de intervenção cívica e patriótica. Reúne então o desenho a outras formas de expressão, passando à argila a caricatura e o humor, onde cria, entre muitos outros motivos, bonecos de movimento, como a Velha Maria, a Ama das Caldas, o Cura, o Sacristão, o Polícia. 


Por outro lado, executa figuras da Paixão de Cristo para as Capelas do Buçaco e esculpe em terracota de grande animismo, individualidade e movimento, diversas figuras que se podem apreciar no Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Tudo isto ao mesmo tempo que se mantém ligado, até à sua morte, ao teatro de revista, género que colhe benéfico fruto da acção e da inspiração desse notável vulto da nossa cultura, ainda hoje visível. 

Ao longo dos tempos, o tipo de humor trabalhado no teatro de revista tem tido uma especial incidência no corpo político e social da nação, aproximando-se do registo imprimido por Rafael Bordalo Pinheiro na sua arte, evocando-o muitas vezes e quase sempre inspirando-se na sua maior criação – o Zé Povinho! Não era por acaso que muitas das revistas do final do século XIX reproduziam no seu título o nome das publicações que o artista animou com o seu lápis inconfundível e implacável: “Os Pontos nos Is”, “A Paródia”, “Lanterna Mágica”… 

Nesta última publicação fora criada, em 1875, o seu Zé Povinho, personagem que deu lugar a uma série inesgotável de «Zés» que têm vinho a apadrinhar os nossos espectáculos de revista até aos dias de hoje. Duas das revistas produzidas no século XX subiram a cena como “Zé Povinho”, mas o Zé criado por Rafael Bordalo Pinheiro esteve presente no título de dezenas delas: “O Zé Encravado”, “O Zé Num Sarilho”, “Anima-te Zé”, “Aguenta-te ó Zé”, “O Zé Faz Tudo” ou “Ó Zé Aperta o Cinto”, são alguns desses exemplos. 

Na revista “A Paródia”, com que o Adóque homenageou, em 1977, esse génio da caricatura, da sátira, da crítica mordaz e impiedosa, historiador implacável da sua época e das forças e fraquezas dos nossos gestos, a personagem por ele imortalizada cantava esta ideia: «meu Zé Povinho / abre esses olhos / ergue-te, avança / vais criar o país novo / não adormeças mais, ó Zé! / pelos teus pés / mostra o que és / que o Zé Povinho / hoje é finalmente… Povo!» 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Abril. 09

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