BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” rubrica de Salvador Santos para se recordar os nomes que engrandeceram os palcos portugueses. Hoje é lembrada a figura de Mario Jacques. É o Teatro no Bancada Directa

quinta-feira, 16 de abril de 2015

“No Palco da Saudade” rubrica de Salvador Santos para se recordar os nomes que engrandeceram os palcos portugueses. Hoje é lembrada a figura de Mario Jacques. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade” rubrica de Salvador Santos para se recordar os nomes que engrandeceram os palcos portugueses. 
Hoje é lembrada a figura de Mário Jacques. 
É o Teatro no Bancada Directa 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

MÁRIO JACQUES 
Foram as preocupações sociais e políticas que o levaram para o teatro, tendo o amor pelas artes cénicas crescido aos poucos até ao arrebatamento da paixão. Amante dos desportos de pavilhão, praticava basquetebol no F.C. Porto quando sentiu o apelo dos palcos, era ainda adolescente. No convívio dos balneários confrontou-se com colegas que tinham uma situação social totalmente diferente da sua, muitos deles a trabalhar para ajudar a sustentar as famílias. 

Oriundo da burguesia mais endinheirada da cidade Invicta, deparou-se então com um mundo que desconhecia, ganhando aí a consciência cívica que o fez interessar-se muito mais pela cultura como veículo social e político. Meio a brincar, costumava dizer que foi o desporto que o levou para o teatro. A estreia de Mário Jacques como actor ocorreu em 1960, aos vinte anos, no Teatro Experimental do Porto (TEP), sob a direcção de António Pedro, primeiro substituindo um ator em “O Morgado de Fafe Amoroso” de Camilo Castelo Branco e depois criando de origem uma personagem de “O Rinoceronte” de Ionesco. 
Nos três primeiros anos de colaboração no TEP, que para ele funcionou como uma verdadeira escola onde aprendeu as bases fundamentais para o trabalho de ator, destacam-se as suas inesquecíveis prestações em peças como “Madrugada” de Buero Vallejo, “Conhece a Via Láctea?” de Karl Wittinger, “O Vagabundo das Mãos de Oiro” de Romeu Correia e “Os Credores” de Arthur Strindberg, todas com encenação do saudoso João Guedes. 

A febre de aprender todas as técnicas de representação e de evoluir do ponto de vista humano, levou-o então até França para frequentar, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, a École Dramatique de Estrasburgo e a École d’ Art Dramatique Charles Dullin de Paris, percorrendo aí todos os géneros de representação teatral, desde a mímica, o que lhe deu uma maior noção da consciência do corpo e do significado dos gestos em cada palavra. Nessa altura teve ainda oportunidade de estagiar durante alguns meses com Roger Planchon, no Thèâtre de la Cité de Villeurbanne, e com Georges Wilson, no Théâtre National Populaire. Com estes encenadores, dois extraordinários homens de teatro e grandes comunicadores, desenvolveu importantes competências. 

Serie  televisiva "A Noite do Fim do Mundo" RTP. 2010. Outubro. 16. Mário Jacques contracena com Maria João Abreu e Sofia Duarte Silva

No regresso a Portugal, em 1966, Mário Jacques recebeu o convite para ingressar nos quadros do Teatro Nacional D. Maria II, onde ficou até ao dia do incêndio que o destruiu quase por completo. Numa das peças em que participou naquele palco (“Ciclone” de Somerset Maugham), teve o privilégio de contracenar com a atriz Palmira Bastos, que o marcou profundamente, segundo as suas próprias palavras em entrevista recente: «Ela tinha 90 anos, eu tinha 25. 

Era quase comovente ver uma atriz daquela idade, com dificuldade de se mover – montou-se inclusive um camarim no palco para ela não andar a subir e descer escadas; mas assim que o espetáculo começava, ninguém a agarrava, com aquela sua voz fortíssima. Foi uma extraordinária lição de teatro». Outras lições de vida, adquiriu-as em cena e no seu quotidiano, no contacto com camaradas de palco e com gente anónima, que o fizeram crescer como cidadão atento e crítico da sociedade. 

Cada vez mais firme nas suas convicções políticas e ideológicas, Mário Jacques adere em 1970 ao Partido Comunista Português e funda o grupo de teatro independente Os Bonecreiros, ao mesmo tempo que reforça a sua participação cívica nos mais diversos fóruns. Celebra a Liberdade conquistada com a Revolução de Abril com a esperança num país mais justo, e, seis anos depois, decide aprofundar os seus conhecimentos artísticos e viaja para Moscovo, para estudar Stanislasvki e Tcheckov. 

 Após a sua experiência em Moscovo, funda o Teatro do Actor e assume a coordenação da direcção do Sindicato dos Trabalhadores do Espectáculo, onde se cruza com o autor destas singelas evocações que o recorda não só como um actor e encenador inteligente e muito criativo, mas sobretudo como um ser político e um homem íntegro, leal e honesto. 



Apesar das suas responsabilidades sindicais, que se estenderam até 1997, Mário Jacques nunca deixou de exercer a sua profissão, servindo dramaturgos como Strindberg, Goldoni, Miller, Pinter, Ibsen ou Shakespeare, nos mais diversos palcos, desde o Teatro-Estúdio de Luzia Maria Martins ao Teatro Hoje de Carlos Fernando. Com Edward Albee, Mário Jacques conquistaria, em 1980, o Prémio Palmira Bastos/António Silva pela sua interpretação em “Quem Tem Medo de Virgínia Woolf”, levado a cena no Teatro da Graça. 
Peça "À Beira do Fim".  2011. Teatro da Malaposta. Loures (?). Mário Jacques contracena com Lourdes Norberto e Paula Guedes

A sua prestação como actor nos palcos viria a ser distinguida por mais duas vezes, mas as suas qualidades como intérprete seriam também realçadas em diversas criações na produção audiovisual nacional. Na televisão, merece destaque o trabalho realizado na novela “Mar de Paixão” da TVI. No cinema, o relevo vai para os filmes “Tráfico” de João Botelho e “O Fim do Mundo” de João Mário Grilo. 

Um problema cardíaco que o atormentava obrigou-o no início deste ano a mais uma intervenção cirúrgica. Complicações pós-operatórias inesperadas roubaram-nos Mário Jacques para sempre. Foi no dia 25 de Janeiro de 2015. Acompanharam-no na despedida familiares, camaradas de trabalho e amigos, gente anónima e figuras do universo político, que realçaram as suas excelentes qualidades como ator e ser humano. 


Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Abril. 16

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !