BANCADA DIRECTA: "No Palco da Saudade" é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos que recorda as figuras que pisaram os palcos dos nossos teatros e que já deixaram o nosso convívio. Hoje recorda-se Anabela. É o Teatro no Bancada Directa "No Palco da Saudade" Texto inédito e integral de Salvador Santos

quinta-feira, 30 de abril de 2015

"No Palco da Saudade" é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos que recorda as figuras que pisaram os palcos dos nossos teatros e que já deixaram o nosso convívio. Hoje recorda-se Anabela. É o Teatro no Bancada Directa "No Palco da Saudade" Texto inédito e integral de Salvador Santos

"No Palco da Saudade" é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos que recorda as figuras que pisaram os palcos dos nossos teatros e que já deixaram o nosso convívio.
Hoje recorda-se Anabela.
É o Teatro no Bancada Directa

"No Palco da Saudade"
Texto inédito e integral de Salvador Santos

ANABELA
O seu talento natural para a dança, a sua graciosidade e a sua escultural beleza física incendiavam as noites do Porão da Nau, local de culto da gente do teatro dos anos 1960/1970. Já casada e sem qualquer ambição em ingressar no mundo do espetáculo, ela aparecia por lá com o marido sempre que na manhã no palco da saudade Ado dia seguinte podia estar mais algumas horas na cama. Incentivada por frequentadores do local, decidiu participar num concurso de Yé-Yé (estilo de música pop muito em voga), que acabaria por vencer.

O empresário Vasco Morgado repara então na jovem e convida-a por diversas vezes para integrar os elencos dos seus espetáculos, e em todas recebeu um «não» como resposta. O empresário não era pessoa de desistir com facilidade e jamais parou de insistir enquanto não obteve os seus intentos. Anabela estrear-se-ia nos palcos da revista no Teatro Monumental, em Lisboa, como atração, juntamente com o conjunto musical Rock’s, no espetáculo “Esta Lisboa Que Eu Amo”, em 1969, tinha ela pouco mais de vinte e dois anos.
A sua prestação foi de tal modo bem conseguida que o mestre Ribeirinho (Francisco Ribeiro) a convidou imediatamente para trabalhar na companhia do Teatro Alegre, na qual pontificavam ele próprio e outros nomes conceituados da comédia, como Henrique Santana, Maria Helena Matos, Luísa Durão ou Irene Isidro, com os quais fez várias digressões por todo o país, incluindo as nossas ex-colónias.

Mas seria no Parque Mayer, em Lisboa, que o nome de Anabela começaria a brilhar no topo dos cartazes das nossas produções teatrais, quando aceitou integrar o elenco da revista “Frangas na Grelha”, no ABC, a convite de Tony de Matos, com quem havia contracenado no filme “O Destino Marca a Hora”, a sua única incursão no mundo do cinema.
Terminada a carreira desta sua primeira revista como atriz, é desafiada a ensaiar um novo espetáculo no mesmo palco, que subiria a cena com o título “Saídas da Casca”, contando com um elenco maioritariamente feminino liderado pela (então também muito jovem) atriz Maria do Céu Guerra. Nesse espetáculo, o público confirma o que já se dizia pelos bastidores: Anabela é a nova grande vedeta do teatro de revista!

Os empresários começam a disputá-la. Guiseppe Bastos e Vasco Morgado tentam levá-la para o Teatro Maria Vitória, mas ela prefere continuar no ABC onde faz enorme sucesso com “Viva a Pandilha”. O assédio acentua-se e Anabela não resiste a novo convite daquela dupla de empresários, contracenando então aí pela primeira vez com Eugénio Salvador. Sérgio de Azevedo não se dá por vencido e chama-a de novo para o seu ABC, devido sobretudo à crise de vedetas femininas. Ivone Silva andava em digressão, Florbela Queiroz não podia, Aida Baptista estava ocupada...
É então que ela surge como primeira figura absoluta. E o sucesso não podia ter sido maior: “É o Fim da Macacada” tornou-a definitivamente numa das vedetas mais queridas do público. No espetáculo seguinte Anabela reforça o seu estatuto de estrela ao criar um dos muitos números que compõem a galeria dos melhores de sempre da história da revista à portuguesa: Cabaret, inspirado no célebre tema Money, protagonizado por Liza Minnelli e Joel Grey no filme “Cabaret”.

A atriz chegava a repetir o número oito vezes por noite e saía de cena exausta... Mas valeu pelo sucesso. Era aquele número que enchia o Teatro ABC noite após noite e que fez da revista “P'ró Menino e P'rá Menina” mais um êxito popular. Na revista que se seguiu (“Tudo a Nu”) a atriz volta a criar outro boneco memorável, pleno de graça, sentido crítico e grande complexidade, considerado por muitos como uma das melhores criações de sempre no nosso teatro musicado: Charlot.
O empresário Sérgio de Azevedo continua entretanto a apostar na sua vedeta, juntando-a a Ivone Silva na revista “Uma no Cravo, Outra na Ditadura”. Seguiu-se, no mesmo palco do Parque Mayer “P’ra Trás Mija a Burra”, transitando depois para o Teatro Ádoque. Aí continua a sua carreira de sucesso, mas uma queda no fosso de orquestra atirá-la-ia para uma reabilitação demorada. Anabela só voltaria ao teatro dois anos depois para substituir Ivone Silva em “Ó da Guarda!”.

Mas passado algum tempo perde os pais e a irmã, entrando em depressão. Ela, que tinha um corpo escultural, começa a engordar e em 1982 o seu peso rondava os 100kg. Mesmo assim ainda atuou em duas divertidas comédias: “O Gato” e “Chega P’ra Todas”, no Teatro Laura Alves. Para cúmulo da pouca sorte, Anabela é vítima de atropelamento e atirada para uma cama.

Nessa altura, ela dizia muitas vezes, então já com 200kg de peso, que lhe bastava perder 100kg para regressar aos palcos. Os seus colegas mais chegados abandonaram-na. Apenas alguns poucos a visitavam espaçadamente. A fadista Maria da Fé chegou mesmo a organizar um espetáculo, cuja receita reverteu a favor da atriz.

Entretanto, com o surgimento do Dr. Tallon e de novos processos de emagrecimento, Anabela recuperou a esperança de perder peso e de voltar aos palcos. Mas infelizmente a morte foi muito mais célere e ela acabaria por morrer, triste e desiludida, ainda muito jovem, com apenas quarenta e cinco anos de idade. Para a história da revista ficaram muitos dos seus números...

A atriz esfumou-se da memória das pessoas, mas não de todas. Hoje recordamo-la, porque quem é realmente Grande jamais será esquecido!

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2015. Abril. 30

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