BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras do Teatro que já nos deixaram. Hoje o Salvador lembra-nos a figura de Amarelhe. É o Teatro no Bancada Directa

quinta-feira, 2 de abril de 2015

“No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras do Teatro que já nos deixaram. Hoje o Salvador lembra-nos a figura de Amarelhe. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem de teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras do Teatro que já nos deixaram. 
Hoje o Salvador lembra-nos a figura de Amarelhe. 
É o Teatro no Bancada Directa 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 AMARELHE 

Cenógrafo de algumas produções do nosso teatro musicado das quatro primeiras décadas do século XX, para além de pintor e ceramista, foi como caricaturista que se destacou no meio teatral. Artista autodidacta, aprendeu a arte da caricatura através da experiência, embora fosse detentor de um talento inato que o fez começar a sua carreira com apenas oito (!) anos. 

Nascido na cidade do Porto no final do século XIX, filho de mãe portuguesa e de pai espanhol, de quem herdou o apelido aportuguesado com que ficou conhecido, pertenceu à primeira geração dos humoristas portugueses, facto que só por si lhe valeria um lugar de destaque na história da caricatura em Portugal. Porém, muito embora a sua obra seja vastíssima, não obteve a importância que lhe era devida para a posteridade. 
Apesar das inúmeras obras existentes sobre os maiores caricaturistas portugueses, poucos foram os autores que se dedicaram exclusivamente a prestigiar a obra de Amarelhe, artista com um traço pessoal e original inconfundível, que marcou incontestavelmente a arte da caricatura portuguesa do século XX ao atribuir, a cada elemento da sua produção artística, uma identidade própria facilmente reconhecida, mesmo sem a assinatura que comprove a sua autenticidade. 

Por outro lado, a sua paixão pelas artes do palco levou-o a abordar a caricatura teatral de tal forma, que não há atriz ou actor, músico ou autor dos primeiros 40 anos do século XX, que não tenha sido eternizado pelo seu lápis, o que o permitiu deixar uma colectânea de desenhos que formam um verdadeiro Álbum Teatral. Américo da Silva Amarelhe, de seu nome completo, começou por trabalhar como empregado de comércio, tarefa que cedo recusou atraído pelo seu talento instintivo e pela magia do seu lápis de humorista, publicando bem cedo os seus desenhos nos jornais do Porto, tendo realizado a primeira exposição individual com apenas catorze anos. 
O êxito desta exposição foi tal que virou moda os lojistas da baixa portuense passarem a ter uma caricatura do artista nas montras, eles próprios lisonjeados por se mandarem caricaturar. A par do valor artístico da obra, a simpatia pelas suas caricaturas resultavam do facto de não realçarem as deformações e os exageros habituais das caricaturas, privilegiando a sátira pitoresca ao grotesco, destacando o comportamento social e não apenas o modo de vestir. 

Estimulado pelo reconhecimento obtido na sua cidade natal, Amarelhe decidiu partir à conquista do país aos vinte anos, fixando residência em Lisboa, sendo o primeiro artista a viver exclusivamente do retrato caricatural. A primeira vez que expôs os seus trabalhos na capital ocorreu no Grémio Literário, no âmbito da edição inaugural do Salão de Humoristas Portugueses, onde participou com vinte desenhos, impondo-se como um dos mais distintos artistas no género. 

A partir daí as suas imagens passaram a ter lugar nalgumas das principais publicações portuguesas, sobretudo no jornal O Primeiro de Janeiro, na revista Ilustração Portuguesa e no semanário humorístico Sempre Fixe. Por influência do actor Carlos Leal, de quem se tornou amigo logo após a sua primeira exposição em Lisboa, Amarelhe passou a frequentar os bastidores dos teatros. Essa familiaridade levou-o a expor nos salões do Éden Teatro e do Teatro de Variedades um conjunto impressionante de desenhos que mereceram destaque em todos os jornais da época. 

Um deles, o prestigiado República, escrevia que (…) «fugindo de moldes arcaicos e caducos, o caricaturista é de uma grande sobriedade de traços, conseguindo, no entanto, dar, com extraordinária realidade, as feições dos seus caricaturados, ou antes, tudo o que nelas existe de caricaturável», realçando a forma brilhante como eram retratados Guerra Junqueiro, Augusto Gil, António Lopes Vieira e outras grandes figuras das artes e letras. 

Rapidamente Amarelhe levou a sua obra aos mais diversos locais, de norte a sul do país, mas a sua carreira teve um maior impulso principalmente a partir de uma exposição que realizou no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, em 1928, que o qualificou então não só como caricaturista, mas também como um exímio retratista, criando a partir daí uma original panóplia de retratos caricaturais de figuras ilustres das mais distintas áreas, de que se destacam personalidades do teatro como Amélia Rey-Colaço, Palmira Bastos, Estevão Amarante, Adelina Abranches, Augusto Rosa ou Eduardo Brazão. 

Nessa altura era tão forte a sua relação com a gente do meio teatral que os teatros lisboetas mantinham sempre dois lugares livres na primeira fila: para o Amarelhe e possível acompanhante! Num artigo publicado no Diário de Notícias, o conceituado jornalista Artur Portela definiu Amarelhe como «um verdadeiro acontecimento no clima humorístico nacional», despertando a atenção dos leitores para a eloquência, visão e humor daquele caricaturista que se desenhava a si próprio com uma figura de grande corpulência, de cigarro na mão, olheiras profundas, bochechas muito rosadas e um sorriso contraditório, um misto de doçura e sarcasmo. 


"O Painel de Amarelhe". 1939. Caricaturas de Beatriz Costa

Era exactamente assim este homem que, por paixão, escolheu a árdua profissão de caricaturista sabendo de antemão que não era das mais rentáveis e que morreria pobre. A 3 de Abril de 1946, Amarelhe estava em sua casa a preparar duas exposições, uma para o Porto e outra para Lisboa, quando subitamente sofreu uma síncope cardíaca que o vitimou. 


Meses antes havia sido atropelado por um automóvel, que o debilitara, criando as últimas obras com dificuldade devido a dores físicas. No dia do seu funeral escreveu-se: «Bom camarada e excelente conversador, Amarelhe era um desses raros temperamentos que deixam atrás de si, para todo o sempre, o perfume inesquecível da mais viva saudade…». 


Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Abril. 01

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