BANCADA DIRECTA

sexta-feira, 24 de abril de 2015

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que se destina a recordar os nomes e figuras que engrandeceram o Teatro português e que já deixaram o nosso convívio. 
Hoje recorda-se o grande e versátil actor Antonio Montez. 
É o Teatro no Bancada Directa 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 ANTÓNIO MONTEZ 

Podia ter sido médico como o seu avô, Júlio Montez – figura muito querida no Cartaxo, que ficou para a posteridade como «o pai dos pobres». Influenciado pela história de vida daquele seu parente, do qual se lembrava apenas do seu longo bigode branco que acariciava quando tinha apenas dois anos de idade, pouco tempo antes de ele falecer, ainda estudou medicina. Fê-lo primeiro na Universidade de Lisboa, de onde acabaria por ser expulso ao fim de um ano devido ao seu envolvimento nos movimentos estudantis da época. 

Passou depois pela Universidade de Coimbra, mas aí foi o teatro, no CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, que o impediu de concluir o curso, tal foi arrebatadora a paixão que o fez decidir-se pela carreira de ator. António Montez tinha vinte e três anos quando, em 1964, se estreou como actor profissional no Teatro Experimental do Porto (TEP), na peça de Molière “Georges Dandin”, a que seguiu uma série de outras peças de grande sucesso, entre as quais o vicentino “Auto da Barca do Inferno”. 


Serie "Senhores Doutores" realizada por Jorge Marecos Duarte. SIC 1997. Na foto: António Montez ao lado dos interpretes da serie. Cristina Carvalhal, João Reis, Adriano Luz e Rui Paulo
No final da década, decide partir para Lisboa, a convite do empresário Vasco Morgado, para substituir o ator Nicolau Breyner no Teatro Monumental na peça “O Comprador de Horas”, ao lado dos saudosos Laura Alves e Paulo Renato. Paralelamente inicia uma colaboração regular na rádio e na televisão, ficando associado a duas das mais interessantes experiências de teatro televisivo desse tempo, ao interpretar com assinalável rigor “A Trilogia das Barcas” e o “Auto da Natural Invenção”, com adaptação de Luiz Francisco Rebelo e direção de Artur Ramos. 


No início da década de 1970, António Montez obtém os Prémios da Imprensa e do SNI-Serviço Nacional de Informação para o Melhor Ator, graças à sua criação na peça “A Capital”, a partir da obra de Eça de Queirós, no Teatro Villaret, em Lisboa, a que se segue o seu histórico trabalho em “Os Emigrantes” de Slawomir Mrozek, com o consagrado ator João Perry, no Teatro de Bolso do TEP. 


Antes, porém, havia passado pelo Teatro Estúdio de Lisboa de Luzia Maria Martins, um dos símbolos da oposição cultural à ditadura, onde fez o premiadíssimo “Lar” de David Storey e alguns dos mais representativos textos de Girardoux, Duras e Strindberg, voltando depois ao velho Teatro Vasco Santana ainda antes da Revolução de Abril para fazer Tchekov e Voltaire. 


Foi também naquele velho teatro da antiga Feira Popular de Lisboa que António Montez se estreou na encenação, com “O Pecado do Senhor Saiote” de Luzia Maria Martins. Esta sua primeira experiência como encenador encorajou-o a repetir a função mais tarde, na televisão e nos palcos, sendo de destacar a sua versão de “A Morte de Um Caixeiro Viajante” de Arthur Miller, estreada com sucesso no Teatro Maria Matos e transposta pouco tempo depois para o pequeno ecrã. 

A televisão foi, aliás, um dos meios que mais contribuíram para a sua notoriedade, sendo de destacar a sua regular e frutuosa colaboração com o realizador Artur Ramos nas célebres Noites de Teatro da RTP, onde se sobressaiu muito particularmente em “O Luto de Electra” e “O Fidalgo Aprendiz”. O facto de António Montez ter participado na primeira telenovela portuguesa, “Vila Faia”, em 1982, que inaugurou este género de produção televisiva entre nós, viria a marcar o seu percurso artístico como actor. 


Seguiram-se então “Origens”, “Chuva na Areia”, “Cinzas”, e, mais recentemente, “Olhos nos Olhos”, “Vingança” e “O Olhar da Serpente”, para além de inúmeras séries, ao mesmo tempo que se destacava na dobragem para português de projectos infanto-juvenis. Possuidor de uma voz inconfundível, participou em algumas séries e filmes de animação que acompanharam as últimas gerações de pais e filhos. “Monstros e Companhia” e “Os Incríveis”, da Pixar Amimation Studios em parceria com a Walt Disney, foram dois dos casos mais felizes. 
No cinema, António Montez revelou-se igualmente um actor de inegáveis recursos como protagonista de “Pedro Só” de Alfredo Tropa, sendo ainda de destacar a sua excelente participação noutros filmes, como “Animal” de Roselyne Bosch, “Ruy Blas” de Jacques Weber, ao lado de Gérard Depardieu, ou “Dina e Django” da realizadora Solveig Nordlund. 

Mas era nos palcos que ele se sentia verdadeiramente realizado, percorrendo todos os géneros teatrais com o mesmo à-vontade e a mesma mestria, de que são exemplos perfeitos as suas prestações na comédia “A Preguiça” que fez com Raul Solnado no Teatro Villaret e na revista “P’ró Menino e P’rá Menina”, no Teatro ABC, onde brilhava ao lado doutra saudosa figura do teatro musicado: Anabela. 


A sua atracção pela revista e a luta por um teatro independente de todos os poderes levou-o a integrar o núcleo fundador do Teatro Adoque, onde acrescentou mais um conjunto de títulos ao longo historial de espectáculos da sua carreira, como “Chiça! Este é o Bom Governo de Portugal”, “Paga as Favas”, “Tá Entregue à Bicharada”, “Pides na Grelha” ou “A Cia do Cardeais”. 
Sempre na primeira linha de todos os combates pela valorização da sua profissão, a partir de 2002 António Montez obrigou-se a abrandar o ritmo da actividade em virtude de uma insuficiência cardíaca que o levou ao bloco operatório de um hospital público de Lisboa. Doze anos depois, a 23 de Dezembro de 2014, não resistiu a uma falência renal. Tinha completado 73 anos sete meses antes. 

Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Abril. .23

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