BANCADA DIRECTA: Uma questão dos nossos tempos. “Quebrar a rotina”

sábado, 14 de março de 2015

Uma questão dos nossos tempos. “Quebrar a rotina”

Uma questão dos nossos tempos. 
“Quebrar a rotina”

 Levantar. 


Mirar-se ao espelho e ver-se a envelhecer em cada dia. Tomar o pequeno almoço. Tomar banho. Escanhoar-se em cada três dias. Rumar ao metro, depois ao autocarro,somando minutos parado à espera do futuro. Chegar ao emprego. Picar o ponto. Sair para tomar a bica. Ler as gordas dos jornais. Entrar no gabinete, cumprimentar os colegas, discutir as notícias da véspera. 


Sair pontualmente ao meio dia e trinta para debicar, em balcões assépticos, ou mesas cobertas de toalhas aos quadradinhos, guarnecidas com guardanapos de papel, a ração diária. É um autómato manipulado pelo mundo da finança, da indústria, da abastança, mas julga-se livre. 


Sai às 5 para ir buscar o filho que começou a ser programado aos cinco anos numa escola fast food. Para mandar ou obedecer, será o futuro a determinar a escolha. Passar pela tabacaria para fazer o totoloto, ou o Euromilhões. Voltar a casa, fazendo planos sobre o que faria se lhe saísse o primeiro prémio. 

Ler o jornal esparramado no sofá, enquanto a mulher prepara o jantar e o puto se refugia no quarto para fazer os trabalhos de casa, entremeados com conversas no Facebook.Ver as cartas no correio que anunciam as datas precisas em que deve pagar a água, a luz, o telefone, o gás, a tv cabo,o seguro do automóvel, a prestação da casa,a mensalidade do colégio, as dívidas do cartão de crédito, o seguro da casa. Ligar a Sport TV para assistir ao jogo do dia. 

Vibrar com vitórias e amolecer os desgostos das derrotas com doses reforçadas de cerveja.Discutir com a mulher, que quer ver a telenovela da TVI. Rumar à Internet para evitar discussões. Tomar a decisão de comprar mais um televisor a crédito para evitar conflitos conjugais. Falar de férias. De ilusões. De prestações vencidas. 


Adormecer fazendo contas à vida e esperar pela noite de sábado para fazer amor com a mulher que durante a semana não tem disposição para essas coisas. Acordar ao toque do despertador, para começar mais um dia de direito à vida. Chegar ao emprego e ouvir o patrão dizer “vou fechar no fim do mês, estão todos despedidos, não consigo enfrentar a crise.

" Voltar a casa e antes de adormecer dizer à mulher “ Estou com insónias. Vou ali fumar um cigarro". Ela já não o ouviu, porque adormeceu exausta, acumulando o cansaço do trabalho com as lidas da casa. Vai à cozinha. Pega numa faca. Golpeia os pulsos e sente o cérebro fundir-se num momento de alegria. 

 A mulher acorda a meio da noite, sente a falta do aconchego, levanta-se e encontra-o estendido no chão da cozinha. Junto ao corpo inerte está um papel com umas garatujas: “Puta que pariu esta democracia!” Chama o 112. Quando entra na ambulância, percebe-lhe nos lábios a palavra que há anos não lhe ouvia: "Amo-te" Retribui com uma lágrima escondida num sorriso esforçado. 


Uma semana depois deixa o filho entregue aos cuidados de uma prima e vai à Igreja para assistir à missa do 7º dia. O celebrante diz que era um homem bom e generoso. Ela regressa a casa reconfortada, mas não convencida. 


Agradecimento ao Dr Carlos Barbosa de Oliveira, autor deste texto

2 comentários:

luis pessoa disse...

Bom e real.
Para estes governantes isto era apenas mais um que vivia acima das suas possibilidades, nada mais. Se ele vivesse numa caverna sem renda, sem água nem luz, etc. não lhe tinha feito tanta diferença ser despedido. O "mal" é que há pessoas que se habituam ao que não devem e depois acham que têm direitos. Ora isso é só para a banca.
Cumprimento o autor.

Adriano Ribeiro disse...

Caro Luis
É isso mesmo
Abraço
Adriano Rui Ribeiro

Obrigado Pela Sua Visita !