BANCADA DIRECTA: “O Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje o nosso homem do Teatro recorda-nos a figura de Orlando Neves.

segunda-feira, 16 de março de 2015

“O Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje o nosso homem do Teatro recorda-nos a figura de Orlando Neves.

“O Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
Hoje o nosso homem do Teatro recorda-nos a figura de Orlando Neves. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 ORLANDO NEVES 
Licenciou-se em Direito, mas o seu universo preferido começou por ser a escrita, meio onde melhor se expressava, deixando a sua marca criativa em obras de diversos géneros literários, desde a poesia ao romance, passando pelo teatro e pela literatura infanto-juvenil. 

A crónica, o ensaio e a crítica foram também géneros que desenvolveu com mestria durante os tempos em que passou pelo jornalismo – na rádio, na televisão e nos jornais – e que acarinhou quando abraçou as funções de editor. Foi ainda tradutor para português de largas dezenas de obras, relações públicas, publicista e produtor radiofónico, mas a sua grande paixão foi o teatro, que serviu em diversos grupos académicos e estruturas amadoras e profissionais, como animador, autor e encenador. 


Nascido em Portalegre, Orlando Neves fez os estudos primários em Lisboa e nas Caldas da Rainha, tendo voltado à capital para frequentar o ensino secundário, que prosseguiu em Guimarães e concluiu no Porto. Dispensando o exame de admissão ao ensino superior, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, onde concluiu a Licenciatura em 1958, com 22 anos. Enquanto estudante, foi director cultural da Associação Académica, a que veio depois a presidir, tendo colaborado na criação do Grupo Cénico da Faculdade. 


Como elemento da Comissão Inter-Associações Académicas, interveio nas contestações ao célebre decreto 40.900, que se tornou no rastilho das revoltas estudantis que se seguiram, e foi fundador da revista Quadrante. Durante o seu processo de candidatura à advocacia, Orlando Neves reconheceu que não era essa a sua vocação e enveredou por outros caminhos. 

Regressou ao Porto e conseguiu ingressar nos quadros dos Emissores do Norte Reunidos, como locutor, produtor e autor de programas informativos generalistas e culturais. 

Paralelamente, colaborou com assiduidade na delegação norte do Rádio Clube Português, onde travou conhecimento com um quadro superior de uma importante empresa de equipamentos eléctricos, onde veio a assegurar a direcção dos serviços de publicidade e relações públicas. Nestas suas novas funções não esqueceu as suas preocupações culturais e acolheu nas instalações da empresa duas peças do TEP com textos de Almeida Garrett. 

Pouco tempo depois, Orlando Neves assume funções de dirigente do Teatro Experimental do Porto, após uma breve passagem pelo Grupo de Teatro Moderno dos Fenianos. Logo de seguida, consegue colocação no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa, como documentalista e director de publicações. Recusa-se, porém, a assinar uma declaração de obediência à política do Estado Novo e não fica por lá mais do que dois meses.

 Entra, de seguida, no jornal República, especializando-se em temas culturais, sendo durante vários anos crítico de teatro e televisão. Entretanto, colabora na revista Vida Mundial, faz dezenas de traduções, em especial peças de teatro, e cria a Opinião, mais tarde Opinião SARL, uma livraria que fez furor na época pelo lançamento de vários livros que causaram problemas com a polícia política de Salazar. 

Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Edifício construído em 1957 e onde no ano seguinte Orlando Neves se licenciou em Direito

Palácio Valmor sito no Campo dos Mártires da Pátria em Lisboa. Aqui funcionava a Faculdade Direito até 1957. É de crer que Orlando Neves frequentou aulas neste edifício.

Em 1971, Orlando Neves é convidado pelo recém-criado Círculo de Leitores, para dirigir a sua revista, passando depois a orientar também a programação de livros e discos. Mas, após a Revolução de Abril, assume a presidência da Assembleia Geral dos Trabalhadores da empresa e a administração despede-o. Mas o desemprego dura pouco tempo. 

Portugália convida-o a assumir a direcção literária e de produção da editora, proporcionando-lhe a criação de colecções mais ajustadas com o tempo democrático, que fazem sucesso e conquistam imensos leitores. Os proprietários decidem, porém, fazer uma viragem vincadamente à direita na orientação editorial, e bate com a porta, levando consigo o escritor José Gomes Ferreira para uma nova editora: a Cooperativa Diabril. 

Sem nunca perder de vista o jornalismo e o que se passava nos palcos e nos bastidores do teatro, Orlando Neves chega depois ao Teatro São Luiz, a convite de Carlos Wallenstein, como relações públicas e assessor de imprensa, e colabora regularmente como free-lancer nos jornais A Luta e Expresso, onde faz crítica de televisão, de teatro e de livros
Clube Fenianos Portuenses. Sala de representações do seu Grupo de Teatro Moderno. Neste Grupo Orlando Neves teve uma breve passagem passando depois para  o Teatro Experimental do Porto

Em 1980 deixa estes jornais para ingressar no Diário de Notícias, onde publica diariamente crónicas e críticas sobre a programação de rádio e televisão, bem como de peças de teatro. Paralelamente é autor e apresentador do programa semanal “Manta de Retalhos”, da RTP-1, considerado, unanimemente, pela crítica da época como o melhor programa televisivo de âmbito cultural feito até então. 

 A sua actividade na década de 1980 foi também muito preenchida, com o teatro sempre no seu horizonte. Encena no Teatro Nacional D. Maria II a peça de Vicente Sanches “A Birra do Morto”, com a qual obteve o Prémio Revelação em Encenação da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. De seguida, encena na Fundação Gulbenkian, no ciclo Retorno à Tragédia, as peças “À Procura da Tragédia” e “O Indesejado” de Jorge de Sena. 


Entretanto, sucede uma grande remodelação no jornal Diário de Notícias e Orlando Neves abandona tudo para se dedicar exclusivamente à tarefa de escritor, acrescentado um notável rol de títulos à sua já vasta obra. Pouco tempo depois refugia-se em Matosinhos, onde veio a falecer a 24 de Janeiro de 2005. 


Salvador Santos

Teatro Nacional São João. Porto
Porto. 2015. Março. 16

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