BANCADA DIRECTA: “O Teatro no Bancada Directa”, apresentando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Nesta rubrica recordam-se as figuras de todos que engrandeceram o Teatro Português. E hoje falamos do saudoso Jorge Vasques.

sexta-feira, 6 de março de 2015

“O Teatro no Bancada Directa”, apresentando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Nesta rubrica recordam-se as figuras de todos que engrandeceram o Teatro Português. E hoje falamos do saudoso Jorge Vasques.


“O Teatro no Bancada Directa”, apresentando a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
Nesta rubrica recordam-se as figuras de todos que engrandeceram o Teatro Português. 
E hoje falamos do saudoso Jorge Vasques. 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

 JORGE VASQUES 
Por detrás do seu ar aparentemente despreocupado, do seu sorriso franco, da sua característica gargalhada e da sua alegria quase contagiante, havia um homem sensível e generoso que se preocupava com o seu semelhante e que levava muito a sério a sua profissão de actor. 

Sempre disponível para quem quer que fosse, conquistou amigos em todos os palcos por onde espalhou o seu amor pelo teatro. Já era assim quando se iniciou no CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, cidade onde nasceu em 1958, colocando sempre em cada trabalho, em cada personagem que representou, tudo o que tinha para dar. 


Deixava em cena por inteiro o seu corpo, a sua voz límpida, a sua alma pura de comediante, e por pouco não deixou por lá a sua vida. Depois de ter passado por outros grupos da Academia, como o TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, Jorge Vasques profissionalizou-se em 1979, ainda na cidade do Mondego, após a sua primeira colaboração com Ricardo Pais, encenador com quem viria a desenvolver intensa actividade, entre 1996 e 2005. 

Jorge Vasques trabalhou na peça "Figurantes". Autoria de Jacinto Lucas Pires. Teatro Nacional de São . Porto. 2004

Antes, porém, deambulou por diversos grupos de Lisboa e Porto, como O Bando, Realejo, Pé de Vento, Seiva Trupe e TEAR-Teatro Estúdio de Arte Realista, entre muitos outros. Mas foi efectivamente com o encenador Ricardo Pais, no Teatro Nacional São João (TNSJ), que teve oportunidade de trabalhar com os meios técnicos de produção e as condições de criação que lhe permitiram mostrar definitivamente o seu enorme talento. 

Considerado um dos mais talentosos, multifacetados e versáteis actores da sua geração, Jorge Vasques rubricou no palco do TNSJ algumas das suas melhores criações em teatro, com destaque para as prestações em espectáculos como “Tragicomédia de Dom Duardos” de Gil Vicente, “A Salvação de Veneza” de Thomas Otway, “Noite de Reis” de William Shakespeare, “Arranha-Céus” de Jacinto Lucas Pires e “UBUs” de Alfred Jarry, todos sob a direção de Ricardo Pais; “O Grande Teatro do Mundo” de Calderón de la Barca e “A Ilusão Cómica” de Corneille, com encenação de Nuno Carinhas; e “Os Gigantes da Montanha” de Luigi Pirandello, “Barcas” de Gil Vicente e “O Café” de Carlo Goldoni, sob a batuta do criador italiano Giorgio Barberio Corsetti. 

Jorge Vasques lê a mensagem de abertura ao FITEI 2008

A televisão e o cinema foram também territórios de criação artística por onde Jorge Vasques deixou a sua marca pessoal inconfundível, não tão frequentemente quanto seria normal e desejável, mas a verdade é que ele havia escolhido o Porto como cidade de adoção e palco para desenvolvimento da profissão que escolheu, e o norte do país tem sido deixado praticamente ao abandono pelos operadores televisivos nacionais e pelos grandes produtores privados de objetos audiovisuais. 

Sem grande espaço de manobra nos meios audiovisuais se não emigrasse para a capital, experimentou por algumas vezes o exílio lisboeta, mas cedo sempre se arrependeu e depressa voltou de novo à Invicta roído de saudades dos amigos e camaradas com quem partilhava os palcos, deixando para o futuro uma colaboração mais regular na televisão e no cinema. 


Pelo CITAC Jorge Vasques iniciou a sua carreira de actor

Na televisão, onde começou por fazer locução e dobragens para desenhos animados, em 1991, Jorge Vasques fez as séries “A Viúva do Enforcado” e “Clube Paraíso”, para além de várias participações em outras séries, telenovelas e sitcoms, como “Os Andrades” (gravada nos Estúdios da RTP do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia, no tempo em que a nossa televisão pública ainda produzia alguma ficção nacional a norte) e “Contos das Mil Uma Noites”. 

Mais recentemente participaria nas séries televisivas “Liberdade 21” e “Pai à Força”, enquanto se abalançava no cinema com alguns dos grandes mestres da realização, como Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão, Christiane Lehérissey e Cláudia Clemente, e prosseguia a sua carreira no teatro. 


Dos trabalhos teatrais mais recentes que Jorge Vasques realizou o destaque vai para um conjunto de criações inesquecíveis, ao serviço de grupos portuenses. “Onde é Que Eles Esconderam as Respostas?”, com direcção de Alexander Kelly para o Ao Cabo Teatro; “Ópera do Falhado” de Sérgio Costa e JP Simões, com encenação de João Paulo Costa para a ACE-Teatro do Bolhão; “Anfitrião” de Heinrich von Kleist, com direcção de João Grosso para o Ensemble; “António, Bispo do Porto” de Margarida Fonseca Santos, com encenação de Júlio Cardoso para a Seiva Trupe; “R.III”, uma adaptação livre de Ricardo III de Shakespeare, encenada por Paulo Calatré para o Mau Artista; e “O Cerejal” de Anton Tchékhov, dirigido por Rogério de Carvalho para o Ensemble. 

Interior do Teatro Helena Sá e Costa no Porto, onde faleceu Jorge Vasques

A Assédio-Associação de Ideias Obscuras, grupo da cidade do Porto onde Jorge Vasques prestou colaboração por inúmeras vezes, foi a sua última escala em todo o teatro que fez na curta vida que os deuses lhe permitiram saborear, antes de o levarem para toda a eternidade. Foi uma morte quase em cena a que o retirou definitivamente dos palcos e da vida. 

Na noite de 26 de Setembro de 2009, o actor, de apenas 51 anos, terminara a representação de “O Feio” de Marius von Mayenburg, com produção da Assédio, no Teatro Helena Sá e Costa, no Porto. Depois de uma ligeira indisposição no palco, ele viria a morrer subitamente após o final do espetáculo, já no camarim do teatro. Não deixou o espetáculo a meio, apenas a vida. E a saudade ainda nos dói, Jorge! 


 Salvador Santos 

Teatro Nacional São João. Porto 
Porto. 2015. Março. 06

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