BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica coordenada pelo nosso homem do Teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras daqueles que engrandeceram o Teatro Português. Hoje é recordado Felix Bermudes. É o Teatro no Bancada Directa

quinta-feira, 26 de março de 2015

“No Palco da Saudade” é uma rubrica coordenada pelo nosso homem do Teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras daqueles que engrandeceram o Teatro Português. Hoje é recordado Felix Bermudes. É o Teatro no Bancada Directa


“No Palco da Saudade” é uma rubrica coordenada pelo nosso homem do Teatro Salvador Santos que se destina a recordar as figuras daqueles que engrandeceram o Teatro Português. 
Hoje é recordado Felix Bermudes 
È o Teatro no Bancada Directa

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

 FÉLIX BERMUDES 

Homem de Letras, presidente e fundador da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses (actual Sociedade Portuguesa de Autores), ensaísta, dramaturgo e tradutor, célebre autor de teatro de revista, este férreo opositor à ditadura salazarista foi também um grande desportista. Ganhou campeonatos nacionais de atletismo, tiro, esgrima e futebol, participou com êxito nos Jogos Olímpicos de Antuérpia (1920) e Paris (1924) nas provas de «mestres atiradores internacionais à pistola a 50 metros» e atingiu igualmente papel de relevo como praticante das modalidades de hipismo, ginástica, remo, ciclismo e ténis. 

Mas foi nas artes de palco que este antigo presidente do S.L. Benfica e vice-presidente da Federação Internacional das Sociedades de Autores e Homens de Letras conquistou maior notoriedade pública. No teatro, como no desporto, Félix Bermudes foi um verdadeiro campeão, não se fixando apenas num género. Para além do seu notável percurso no teatro de revista, onde foi um dos mais geniais autores, escreveu farsas, operetas e comédias, tendo traduzido muitas outras, deixando o seu nome ligado a mais de 150 peças teatrais. A sua obra de escritor não se resumiu, porém, ao teatro. 

A ele se devem também alguns ensaios sobre filosofia política e espiritual que marcaram a sua época, pelo desassombro e pela serenidade austera, sendo de destacar nestes domínios os seus empolgantes livros “O Homem Condenado a Ser Deus” e “Versos Doirados dos Pitagóricos”, em que disserta sobre a longa jornada da evolução de cada ser humano, procurando demonstrar que é através de inúmeras quedas e de incontáveis erros que o Homem cresce e melhora. Deve dizer-se, por curiosidade e ironia, que nasceu na cidade do Porto (a 4 de Julho de 1874) um dos símbolos maiores do S.L. Benfica e um dos seus melhores presidentes de sempre. 

Sobre esta faceta Félix Bermudes muito haveria a dizer, nomeadamente que a ele se deve a escolha do actual nome daquele clube da capital, que então se chamava Grupo Sport Lisboa antes da fusão com o Desportos de Benfica, bem como um esforço exemplar de financiamento pessoal que permitiu ao emblema da águia resistir aos vários momentos de crise que atravessou desde a sua fundação até aos finais da década de 1950. Mas o que importa hoje aqui realçar é o seu grande contributo para o desenvolvimento do teatro em Portugal, sobretudo no que à revista e à opereta respeita, géneros onde fez enorme sucesso em parceria com João Bastos e Ernesto Rodrigues. 

O notável trabalho realizado em conjunto por aquele trio de autores, que durou mais de catorze anos e que a imprensa passou quase imediatamente a identificar como «textos de A Parceria», foi a razão principal da revolução operada no nosso teatro ligeiro durante a I República, graças à montagem de comédias delirantes como “O Conde Barão”, “O Amigo de Peniche”, “Arroz Doce”, “O Leão da Estrela” ou “O Quadro das Lendas”, a que se juntam as legendárias revistas “Salada Russa”, “Capote e Lenço”, “Novo Mundo”, “Torre de Babel” ou “Lua Nova”, assim como as modelares operetas “O João Ratão” e “Pérola Negra”. Duas destas obras foram transpostas para cinema depois do seu sucesso nos palcos, alcançando aí igual êxito: “O João Ratão” e “O Leão da Estrela”, que figuram entre os melhores filmes portugueses de sempre. 

 Foram inúmeras as parcerias de autores do nosso teatro ligeiro que se constituíram ao longo dos anos até aos dias de hoje, mas a mais duradoura, eficaz e popular foi, sem dúvida, a que reuniu Félix Bermudes a Ernesto Rodrigues e João Bastos. Não por acaso o caricaturista Amarelhe, num desenho célebre, retratou A Parceria como um corpo único de que saíam três cabeças, simbolizando assim a unidade e o espírito de equipa que se reflectia em todos os seus trabalhos e no modo como se relacionavam entre si, com o teatro e o seu tempo. 

«A alegria, a mocidade espiritual, apreço mútuo e respeito pela profissão eram características de todos os parceiros», escreveu, em 1958, Félix Bermudes, que era então o único ainda vivo dos três autores. Para além do trabalho produzido no âmbito d’ A Parceria, Félix Bermudes escreveu a solo inúmeras peças que foram sucesso absoluto, havendo até quem dissesse que, em regra, ele não escrevia peças de teatro – escrevia êxitos! 

Entre as suas maiores glórias está a opereta “O Timpanas”, com música de Frederico de Freitas, que conheceu uma carreira invulgar para a época, arrastando multidões durante largos meses. Antes, porém, o seu nome havia ficado associado a outros grandes sucessos, como foi o caso da revista “Cocorocócó”, que escreveu com Ernesto Rodrigues e André Brun alguns meses antes de se formar a famosa Parceria e após três auspiciosas experiências como autor dos espectáculos “Zig-Zag”, “Sol e Sombra” e “Agulha em Palheiro” – considerada a nossa primeira revista verdadeiramente republicana, pelo seu espírito revolucionário! 


Já depois de há muito ter abandonado o desporto e teatro, Félix Bermudes era presença habitual no Parque Mayer e no estádio do seu SLB, «santuários» que só deixou quando a morte o levou, à beira de completar 86 anos, no dia 5 de Janeiro de 1960. 

 Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João Porto 
Porto 2015 Março 26

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