BANCADA DIRECTA: Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) apresenta a sua rubrica ”No Palco da Saudade” e onde hoje recorda um grande nome do nosso teatro: José Guimarães. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) apresenta a sua rubrica ”No Palco da Saudade” e onde hoje recorda um grande nome do nosso teatro: José Guimarães. É o Teatro no Bancada Directa


Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) apresenta a sua rubrica ”No Palco da Saudade” e onde hoje recorda um grande nome do nosso teatro: José Guimarães. 
É o Teatro no Bancada Directa 

No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 JOSÉ GUIMARÃES 
A primeira vez que o autor destas singelas evocações tomou contacto com o nome desta importante figura do nosso teatro musicado e da música ligeira portuguesa, nascido no Porto mas gaiense por adopção, foi num importante fórum sobre o declínio da revista à portuguesa, ocorrido em 1983 na cidade de Lisboa. 

Em determinado momento da discussão, quando se estabeleceu o consenso de que o definhamento daquele género teatral, tão popular até ali, se devia à não renovação das parcerias autorais e ao facto dos seus textos se apresentarem velhos e demasiado engajados do ponto de vista político, alguém perguntou: «mas onde estão os novos autores, quem sabe onde os encontrar?». Foi então que um actor, já com alguma experiência na produção de textos para revista, afirmou: «Olha, vai ao Porto. Tens lá um grande potencial. Chama-se José Guimarães». 

Nessa altura ele já não era muito novo assim, embora tivesse uma cabeça bem jovem, tão ou mais jovem do que todos os jovens com quem emparceirou, mais uma vez, no ano de 2005, nos corpos sociais da sua Tuna Musical de Santa Marinha (Gaia), quando o autor destas linhas finalmente o conheceu pessoalmente. Até aqui soubera muitíssimo pouco deste homem que, para além de ter assinado uma impressionante quantidade de excelentes números de revista, deixou o seu nome ligado a mais de duas mil (!!!) canções, como autor da letra e também como compositor da música. 

Ele, imaginem!, que não sabia sequer uma nota de música e que chegou a ser director musical do Conjunto Maria Albertina, muito popular nos anos 1960/70, que conquistou diversos discos de ouro, um dos quais graças ao tema “O Emigrante” de… José Guimarães. Ainda não tinha completado vinte anos de idade quando se inscreveu como autor na SPA-Sociedade Portuguesa de Autores, apresentando nessa altura já um espólio de textos bastante considerável. 

Aos 12 anos já ele inventava rábulas de revista, que o próprio interpretava com outras crianças da rua onde morava, e aos 18, depois de concluído o curso dos liceus, juntava a esses e outros textos de sua autoria o desafio da encenação de espectáculos musicados, levados a cena por diversos grupos amadores que proliferavam pelo Grande Porto. Verdadeiro «autodidata das actividades culturais», como lhe chamaram, José Guimarães passou depressa dos palcos de amadores para os tablados profissionais, arrastado por outros dos mais activos autores de revista da Invicta. 

Das revistas que José Guimarães escreveu para os grupos de teatro amador, seria imperdoável não destacar “Alma das Romarias”, “O Porto em Festa”, “Enfia o Barrete”, “Aqui vai São Gonçalo” ou “Balões da Minha Rua”, espectáculos que o público desse tempo e os actores que os interpretaram ainda guardam na sua memória. Memoráveis são também alguns dos números que escreveu para as revistas em que colaborou no teatro profissional, nomeadamente para “Com Eles no Sítio” (que na capital subiu a cena com o título “Alô Lisboa, Daqui Porto”) ou “Catraias e Vinho Verde” (que se apresentou no Parque Mayer, em Lisboa, como “Aguenta-te à Bronca”), verdadeiros hinos ao humor. Nestes espectáculos de revista, e em muitos outros, José Guimarães não se limitou à produção dos textos, tendo sido também autor das músicas de muitas das suas canções. 


José Guimarães, poeta popular, letrista, músico, escritor autor e encenador de enorme relevo no panorama artístico português foi alvo de uma homenagem, a título póstumo, pela Junta de Freguesia de Santa Marinha. Com origens na cidade do Porto, foi em Vila Nova de Gaia que optou por residir grande parte da sua vida, tendo dedicado a sua obra à Tuna Musical de Santa Marinha.

Neste particular teve quase sempre a preciosa ajuda do maestro Resende Dias, que passava para o piano as melodias que ele tinha na cabeça e lhe trauteava com as letras já quase concluídas. Como curiosidade, refira-se que ele só escrevia e compunha às mesas dos cafés, no meio do reboliço normal daqueles estabelecimentos e entre vários cimbalinos meio esquecidos nas chávenas, enquanto procurava uma rima com as sílabas precisas ou o final de um refrão mais orelhudo.

 E foi assim, neste meio ambiente, que ele criou canções para alguns dos maiores nomes da nossa canção ligeira. Ada de Castro, Anita Guerreiro, Maria da Fé, Rui de Mascarenhas, Florência e Lenita Gentil foram alguns dos artistas que gravaram temas de José Guimarães, sendo alguns deles ainda sucesso actualmente, agora também nas vozes dos nossos mais jovens intérpretes, como a popular Mariza. “Rosas Brancas”, “A Moda da Amora Negra”, “Silêncio, Não Digas Nada”, “Saudades da Mouraria” e “São João de Toda a Gente” são algumas dos suas criações mais conhecidas, para além das muitas marchas populares que ele compôs e que ainda hoje andam na boca do povo. 



Era, aliás, entre o povo que se sentia feliz, razão pela qual se empenhava militantemente no movimento associativo, o que viria a ser reconhecido pela Câmara e pela Associação das Colectividades de Gaia. As autarquias de Gaia (Câmara e Junta de Santa Marinha) souberam também homenageá-lo em vida. José Guimarães foi condecorado com a Medalha de Ouro da Cidade por mérito cultural, viu o palco de um equipamento da freguesia receber o seu nome e teve a felicidade de ver sair do prelo o seu livro de poesia (“Pedaços de Mim”) com que sonhou. Mas ele merece muito mais. 

Se quisermos honrar a memória deste homem com a dignidade justa e merecida, do tamanho da dimensão do seu contributo à cultura das gentes da terra que escolheu como sua, nada melhor do que dar o seu nome a uma das ruas da beira-rio do Centro Histórico de Gaia. A 20 de agosto deste ano, José Guimarães completaria 85 anos de vida. Uma data excelente para tão justa homenagem! 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2015. Fevereiro. 04

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