BANCADA DIRECTA

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015


O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos apresenta a sua rubrica “No Palco da Saudade” e hoje recorda a figura de Fernando Peixoto 

 “No Palco da Saudade” 

Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

FERNANDO PEIXOTO 

Foi autor, encenador, actor e professor de teatro, mas a sua vida nunca se resumiu apenas à sua imensa paixão pelas artes de palco. 

Os artigos de opinião partilhados por diversos jornais, a terna poesia que jorrava quase naturalmente da sua sensibilidade extrema, o intenso gosto pela produção de textos críticos sobre artes plásticas várias vezes experimentada em catálogos para exposições, o apelo pela animação e fruição cultural que promoveu e desenvolveu no movimento associativo, o envolvimento apaixonado na política autárquica da sua terra, o apego à investigação da história contemporânea, o empenho no estudo e divulgação das suas gentes e raízes, o amor pela sua mulher, filha e netas, e muitos outros doces momentos preencheram os seus dias. 


Nascido numa das mais belas e castiças ruas do miolo da Beira-Rio do Centro Histórico de Gaia, em 25 de Julho de 1947, Fernando Peixoto aprendeu as primeiras letras na Escola das Palhacinhas, situada no edifício onde viria a ser mais tarde instalada a Junta de Freguesia de Santa Marinha, autarquia a que veio a presidir entre 1997 e 2001, tendo sido pouco antes membro do seu executivo logo após a Revolução dos Cravos. 

Dessa escola primária ficaram-lhe várias gratas memórias, onde consta um louvor pelo seu desempenho escolar. Dali passou para o Curso Geral do Comércio, que concluiu quando acumulava o papel de estudante com as funções de empregado de escritório, ao mesmo tempo que ia escrevinhando os seus primeiros poemas e contos. A actividade literária de Fernando Peixoto iniciou-se formalmente em 1967 nos jornais Diário de Lisboa e República, colaboração que o levou da crónica ao ensaio, passando pela crítica e pela poesia – sempre a poesia! 

O cumprimento do serviço militar obrigatório levou-o então para Angola, em 1969, onde esteve dois anos. Foram tempos duros que o marcaram profundamente como homem de cultura e de esquerda, livre e humanista, que se viu envolvido num conflito que não aceitava e que o regime teimava em manter. 


Mas isso não o impediu de reunir ânimo para deixar os seus pensamentos críticos nos jornais Comércio de Luanda e A Província de Angola, assim como na revista Notícia, publicações de grande expansão e prestígio naquela antiga colónia. Findo o seu pesadelo da guerra colonial, em 1972, Fernando Peixoto voltou à terra natal determinado a contribuir de forma mais empenhada e efectiva para a transformação da sociedade, utilizando a cultura e a arte como principais armas de combate. 

Sede no Porto da ESAP. "Escola Superior Artistica do Porto" onde Fernando Peixoto leccionou


Reinicia a sua colaboração regular na imprensa; envolve-se no movimento associativo, como dirigente e animador cultural; funda e dirige grupos amadores de teatro; trabalha regularmente como actor, autor e encenador; colabora activamente nos mais diversos fóruns culturais; participa em inúmeros concursos literários, onde obtém os mais variados prémios em prosa e poesia, ao mesmo tempo que marca presença em vários saraus poéticos; e assume-se politicamente como militante do Partido Socialista. 

 Paralelamente à actividade política autárquica, Fernando Peixoto prossegue a sua cruzada cultural na década de 1980: dirige um espetáculo de teatro e dança, com cegos e autistas, no âmbito das comemorações do Ano Internacional do Deficiente; conquista prémios com a encenação dos espectáculos “Via Norte” de Bernardo Santareno e “História de Uma Boneca Abandonada” de sua autoria e de Alfonso Sastre; envolve-se na fundação da Associação de Escritores de Gaia; participa nas Comemorações dos 150 anos da Restauração do Município de Vila Nova de Gaia e da Elevação a Cidade; e lecciona os mais diversos cursos de animação cultural, teatro, encenação, arte de dizer e aperfeiçoamento teatral, enquanto bolseiro da Direcção Geral de Extensão Educativa. 


Sem nunca descurar a sua própria formação, Fernando Peixoto termina em 1991 a Licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e quatro anos depois torna-se Mestre em História Moderna e Contemporânea com uma dissertação sobre Minorias Religiosas e de Pensamento. 


O teatro, a literatura e os problemas da sua terra continuavam, porém, a ser algumas das suas maiores prioridades. Promoveu jornadas de divulgação sobre a história local, organizou festivais de teatro, participou em seminários e conferências, escreveu e encenou espectáculos, editou livros e realizou recitais de poesia, enquanto prosseguia a sua missão de docente em diversas instituições de ensino, a última das quais a ESAP-Escola Superior Artística do Porto. 

Pela sua dedicação às letras e às artes performativas, e pelo seu empenho em causas humanitárias, Fernando Peixoto foi agraciado pelo Teatro de Amador de Sandim com o Prémio de Mérito Cultural, foi distinguido pelos Bombeiros Voluntários de Coimbrões com a Medalha de Prata de Serviços Distintos, recebeu da Companhia Teatral de Ramalde o Prémio Talma Por Amor à Arte e foi-lhe conferido pela Associação de Colectividades de Vila Nova de Gaia o Prémio Personalidade-II FesTeatro Gaia pelo «meritório trabalho em prol do teatro de amadores» daquele concelho. 

No entanto, do município de Gaia aguarda-se ainda que chegue o merecido reconhecimento por tudo o que fez, junto da sua comunidade, este homem de causas e convicções, que a morte levou muitíssimo cedo, aos 61 anos de idade, no triste dia 3 de Outubro de 2008. 


Salvador Santos 

Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Fevereiro. 19

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