BANCADA DIRECTA: O actor Samwell Diniz é a recordação desta quarta-feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa “

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O actor Samwell Diniz é a recordação desta quarta-feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa “

O actor Samwell Diniz é a recordação desta quarta-feira de Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

SAMWELL DINIZ 

Ainda hoje há quem questione quais terão sido as verdadeiras razões que o levaram para o teatro, uma vez que a sua actividade profissional esteve sempre ligada aos caminhos de ferro desde que concluiu o curso dos liceus, chegando a ocupar aí um lugar de relevo, desconhecendo-se que tenha tido qualquer anterior relação com os palcos enquanto amador. 

Uns apontam a eventual influência de familiares do lado materno – de origem inglesa –, designadamente de sua avó actriz, de nome Lady Benson, que tinha um teatro de sua propriedade em Londres onde se representava apenas Shakespeare. Mas há quem relacione o seu ingresso inesperado e tardio na vida teatral com interesses de natureza política que cedo se desvendariam, após a instalação da Primeira República. 

Logo após a sua estreia, no Teatro Ginásio, já com trinta anos de idade, na peça “Sopa no Mel” de Pierre Gavault, Samwell Diniz envolveu-se na disputa eleitoral de uma associação de actores, anterior ao Estado Novo, vindo a integrar os seus corpos sociais. 
Uma foto do actor Samwell Diniz retirada de um programa que foi exibido na RTP Memória transmitido no dia 28 de Abril de 2008 e dedicado à sua esposa a actriz Adelina Campos 

A sua passagem por aquela associação foi contudo meteórica, tendo sido exonerado em assembleia geral pouco tempo depois da tomada de posse. Mas quando, em 1936, se criou o Sindicato dos Artistas Teatrais, foi ali colocado como presidente da direção, cargo que manteve até 1970, cumulativamente com o de procurador à Câmara Corporativa, por inerência e nomeação estatal. 

E entretanto dirige a Secção de Teatro do Conservatório Nacional, onde exerce também as funções de docente, entre 1942 e 1958. Sem qualquer experiência dos palcos, Samwell Diniz confessou dever à actriz Maria Matos o muito que aprendeu nos seus primeiros anos como actor, durante o tempo em que debutou na Companhia de Comédias que esta liderava e onde representou com algum sucesso as peças “A Emboscada” de Kistemaeckers e “Egas Moniz” de Jaime Cortesão. 

Mas foi sobretudo com os ensinamentos recebidos de Lucinda Simões, que considerava «um dos maiores talentos do nosso teatro, pelas suas qualidades e pela sua cultura», que ele atingiu o patamar de qualidade que todos lhe reconheciam, sobretudo como intérprete de comédias de boulevard ou de dramas naturalistas, em voga na época. 
Samwell Diniz foi professor da Secção de Teatro do Conservatorio Nacional de 1942 a 1958

Dotado de boa presença e de sobriedade de processos, Samwell Diniz conquistou por direito próprio o lugar de societário do Teatro Nacional D. Maria II, em 1922, após ter protagonizado o espectáculo “Ninho das Águias” de Carlos Selvagem. 

No ano seguinte distingue-se no Teatro Avenida, representando o papel de Armando Duval em “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas Filho, e vai pela primeira vez ao Brasil, integrando uma embaixada artística patrocinada pelo governo de Salazar, composta por duas peças de autores portugueses que seriam representadas com grande sucesso no D. Maria no ano seguinte: “A Severa” de Júlio Dantas (onde fez de D. José) e “Amor de Perdição” de Camilo Castelo Branco (onde interpretou Simão Botelho). 

Em 1931, Samwel Diniz vive «um dos maiores momentos da sua vida de actor», quando, na presença de Pirandello, intervém na estreia mundial de “Sonho, ou Talvez Não”. Após este sucesso o actor percorre os mais diversos palcos representando autores como Somerset Maugham (“A Carta”), Clément Vautel (“O Senhor Prior”) ou Swoboda (“Tabú”), regressando de novo ao D. Maria, em 1937, no drama de Tamayo y Baus “Loucuras de Amor”, na pele do protagonista, o rei Filipe II de Espanha. 
Samwell Diniz interpretou o papel de Armando Duval na peça "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas Filho. Lisboa. Teatro Avenida. 1923

Foi um período de actividade intensa que durou até 1951, assinalado pela interpretação de uma rica galeria de personagens, como o Romeiro de “Frei Luís de Sousa” de Garrett, o João da Ega de “Os Maias” de Eça, e o Harpagão de “O Avarento” de Molière, entre outras. Ao abandonar definitivamente o elenco residente do Nacional de Lisboa, Samwell Diniz filma “A Garça e a Serpente” com o realizador Arthur Duarte, a sua segunda e última experiência no cinema depois da versão de “Amor de Perdição” de Georges Pallu, e reforça a presença nos programas de rádio-teatro da ex-Emissora Nacional. 

As saudades dos palcos e a confiança no projeto artístico do Teatro d’Arte de Lisboa, de Orlando Vitorino e Azinhal Abelho, levam-no até ao Teatro da Trindade em 1955, onde representa três espectáculos memoráveis: “A Casa dos Vivos” de Graham Green, “As Três Irmãs” de Tchekov e “Já Aqui Estive” de Priestley. Mas o avançar da idade e as responsabilidades acrescidas no Conservatório obrigam-no a nova retirada. A sua última aparição nos palcos de que há memória acontece em 1959 na peça de Pirandello “Seis Personagens à Procura do Autor”. 

Cartaz do filme "Amor de Perdição". Em 1921 concretiza-se a primeira versão fílmica do célebre clássico de Camilo Castelo Branco, «Amor de Perdição». A realização coube ao francês George Pallu.. Tadeu de Albuquerque foi interpretado por Pato Moniz, Simão Botelho por Alfredo Ruas, Mariana por Brunilde Júdice, Teresa por Irene Grave, João da Cruz por António Pinheiro, Baltazar Coutinho por Samwell Diniz, entre outros.


Nessa altura Salazar concede-lhe o grau de Cavaleiro da Ordem de Santiago, não pelo seu talento de actor, porque não era essa a lógica do regime. O importante para o ditador terá sido o papel que Samwel Diniz teve na morte da primeira Associação de Classe dos Artistas Dramáticas às mãos de um sindicato corporativo, que, para além da domesticação das relações laborais, coartava o exercício da própria atividade teatral. 
Mas não é por isso que ele é aqui hoje recordado com saudade, 74 anos após a sua morte, ocorrida a 28 de julho de 1972, mas sim pelas muitas e diversas vidas que (re)viveu para gáudio das gerações que nos precederam, através da sua belíssima voz, do seu corpo, do seu sorriso e das suas lágrimas… de actor! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Janeiro. 19

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