BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”. Rubrica de Salvador Santos. Hoje recorda-se André Brun. É o Teatro no Bancada Directa

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“No Palco da Saudade”. Rubrica de Salvador Santos. Hoje recorda-se André Brun. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”. 
Rubrica de Salvador Santos. 
Hoje recorda-se André Brun. É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 
ANDRÉ BRUN 

Filho de um imigrante francês que combatera na guerra franco-prussiana de 1870, também ele viria a lutar contra os alemães na I Guerra Mundial quando já era um dos mais importantes homens das letras portuguesas, reconhecido fundamentalmente pela colaboração nos jornais Novidades e O Século e pelos seus textos humorísticos, de que se destacam as obras reunidas no seu primeiro livro “Dez Contos Em Papel” e as peças teatrais “A Vizinha do Lado” e “A Maluquinha de Arroios”. 

Demonstrando que também da adversidade se pode rir, desde que esse riso humanize, liberte e não impeça a solidariedade com quem sofre, André Brun soube sempre olhar com humor para todas as situações da vida, mesmo quando elas são profundamente dramáticas e traumáticas. 
Foi com esse olhar, que nunca o deixou resvalar para a lamechice ou para o tom melodramático, que André Brun nos relatou as suas memórias da I Grande Guerra Mundial, construindo uma anti epopeia na qual há, naturalmente, lugar para a morte e para o sofrimento, mas também para o burlesco. 

E ele sabia, como ninguém, preservar e aprofundar esse registo que o tornou famoso na sua época, desenvolvendo uma narrativa ímpar sobre a tragédia daquele conflito bélico no livro “A Malta das Trincheiras”, uma obra que importa descobrir (ou vale pena redescobrir), até porque o momento que atravessamos é de revisitação daquele evento centenário e porque a situação instável do mundo em que vivemos nos dá tudo menos segurança em relação a um futuro de paz. 
Portugal entrou na I Grande Guerra em 1916, estando já desde o ano passado a ser assinalado os cem anos daquele conflito, pelo que faz sentido que recordemos os portugueses que ali combateram, que perderam a vida ou foram heróis, podendo a evocação ir do Soldado Milhões a… André Brun. 
No caso deste nosso grande cronista e humorista, que integrou o corpo expedicionário português na Flandres como capitão, de onde regressou major, com inúmeros louvores e distinções, como a Cruz de Guerra, condecoração que poucos alcançaram, impõe-se sublinhar que ele nunca esqueceu que, mesmo no vórtice do desespero e da privação de quase tudo, existe sempre lugar para a esperança que cabe numa gargalhada, num sorriso… mesmo no inferno das trincheiras! 

André Brun herdara o nome, a alegria e o humor de seu avô materno, um homem de espírito aventureiro que fora curtidor de peles em França, negociante de carnes na América do Sul, diretor de museus de figuras de cera, aeronauta e inventor no Brasil e em Portugal, e que terminou os seus dias em Lisboa como professor de francês, muito querido e estimado pelos seus alunos. 

Foi ele também que incutiu o gosto pela leitura no neto, que aos seis anos já sabia ler; aos oito fez o exame do ensino básico com distinção; e aos dez ingressou no curso dos liceus. 
Se bem que o rapaz já tinha o futuro traçado pelo pai: seria, como ele, luveiro, um excelente ofício na época, mas demasiado exigente do ponto de vista físico para ele, que era uma fraca figura quando muito jovem. Enquanto ele não ganhava corpo, o pai achou que o filho devia prosseguir os estudos. 
E quando o rapaz se encontrava às portas de entrar para a Escola Politécnica, colocou-se a questão: ele era francês e os estudos realizados em Portugal não tinham qualquer validade em França. Foi o próprio André Brun quem resolveu o dilema. 

Como sentia vocação para a Marinha, pediu ao pai autorização para optar pela nacionalidade portuguesa e concorrer à Escola Naval. 

A família levantou grande objeção, mas a vontade do jovem acabou por prevalecer: mudou de nacionalidade e concorreu à Escola Naval, mas acabaria rejeitado por problemas de vista. Pela mesma razão, não conseguiu emprego na Alfândega. E foi mesmo quase à força que ingressou na Escola do Exército. 
Devido ao furor da leitura que o acompanhava desde os seis anos de idade, André Brun lia tudo o que lhe vinha parar à mão. 
Com vários camaradas fundou então o Cenáculo Artístico Águia, que acabou por reunir inúmeros escritores, pintores, músicos e caricaturistas. 

Foi aí que ele declamou os seus primeiros versos e leu os seus primeiros ensaios de prosa. E foi a partir daquele fórum que ele publicou os seus primeiros livros, sempre muito bem recebidos pelo público. 

A sua obra humorística, de que se destacam os livros e as peças teatrais já referidas, inúmeras rábulas de teatro de revista e as novelas “Sem Pés Nem Cabeça”, “Cada Vez Pior”, “Sem Cura Possível” e “Filosofia de Feliz Pevide”, é de vital importância para o conhecimento da realidade social da época. 

De um modo caloroso e humano, André Brun legou-nos um retrato implacável do quotidiano dos portugueses no tempo da I República, sendo muitas as referências sobre a falta que o seu humor fez na resistência ao salazarismo… como agora faz nos momentos delicados que vivemos. 

E numa altura em que se assinala o centenário da I Guerra Mundial e passaram 88 anos sobre a sua prematura morte, ocorrida a 22 de Dezembro de 1926 na Lisboa que o vira nascer cerca de 46 anos antes, cortando-se assim a meio uma grande carreira como escritor e dramaturgo, merece bem que hoje o recordemos, como português ilustre e alegre, que muito estimava os seus concidadãos. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2015. Janeiro. 07

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