BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se o actor Silvestre Alegrim

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se o actor Silvestre Alegrim

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
Hoje recorda-se o actor Silvestre Alegrim

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

SILVESTRE ALEGRIM
O seu nome figurou no elenco de alguns dos espectáculos mais marcantes do teatro português das primeiras quatro décadas do século XX, tendo nascido para a arte de representar ainda no século anterior, quando tinha pouco mais de dez anos de idade. Foi em Setúbal, a sua cidade natal, que ele se estreou na Companhia Teatral do Actor Chaves, na peça infantil “Intrigas do Bairro”.

O seu desempenho nesta sua estreia, onde revelou um certo e inesperado instinto natural para a comédia, justificou o convite para outras produções daquela companhia itinerante que percorria semanalmente quase todas as cidades da região setubalense. O seu destino parecia estar traçado, tal era o imenso jeito do petiz para o teatro. Mas a necessidade de ajudar a família, obrigá-lo-ia a empregar-se dois anos depois como tipógrafo, deixando para trás a paixão pelos palcos.

Silvestre Alegrim fez parte do filme "A Severa" e no qual cantou com brilhantismo "O Fado Timpanas Bolieiro"

Enquanto ia trabalhando nas oficinas onde se imprimiam os jornais Correio da Noite e O Século, e depois o matutino Diário de Notícias, Silvestre Alegrim ia alimentando o sonho de voltar aos palcos. Nos seus planos estava a frequência do curso de Arte de Representar do Conservatório, o que só conseguiu iniciar aos vinte anos, acabando por concluí-lo com mérito e distinção, arrebatando inclusive um prémio no «género comédia».

A notícia da sua prestação no exame final do curso chegou aos ouvidos do Actor Vale, que logo o convidou para a Companhia que dirigia no Teatro Ginásio, pondo-o à prova com o monólogo “O Dorminhoco” de D. João da Câmara, que, de acordo com os relatos da imprensa da época, «interpretou com grande mestria». Após esta sua estreia nos palcos profissionais, Silvestre Alegrim não mais teve interregnos no seu percurso como actor.
Foi o primeiro filme português sonoro: "A Canção de Lisboa" (1933). Silvestre Alegrim fez parte do elenco com o papel do criado surdo do salão de fados. Celebre ficou a sua frase: "Há vinte anos que sou surdo e nunca ouvi um exame assim!"

Os seus primeiros vinte anos como profissional foram vividos em exclusivo na Companhia dirigida por Actor Vale, onde representou com enormíssimo sucesso “O Pai da Pátria” de Ernesto Rodrigues e Bento Faria (em 1906) e “O Pinto Calçudo” de André Brun e Ernesto Rodrigues (em 1907), dois dos espectáculos que compunham o programa desenhado pelo Actor Vale naquela que viria a ser a sua última digressão ao Brasil.

Nesse repertório estava igualmente a comédia de costumes “O Comissário de Polícia”, uma obra-prima de Gervásio Lobato escrita em 1890, que fora uma das maiores coroas de glória do mestre Actor Vale e na qual o seu discípulo Silvestre Alegrim viria a substitui-lo no papel por si criado, após a sua morte.

Foram, aliás, inúmeras as personagens criadas por Actor Vale que o seu discípulo setubalense havia de recriar no Teatro do Ginásio. Para além dessas recriações, é convocado para dar vida a alguns papéis de pouco relevo em comédias como “A Conspiradora” de Vasco Mendonça Alves ou “A Vizinha do Lado” de André Brun, ambas protagonizadas por Lucinda Simões, sem nunca se queixar. Nessa altura, terá dito uma máxima que ainda hoje se houve nos bastidores do teatro: «Não há maus papéis; há maus e bons actores».
Silvestre Alegrim ao lado de Domingos Vital no filme "Os Fidalgos da Casa Mourisca"

E ele era realmente bom. E foi tão bom na comédia como na opereta, na revista ou na farsa, géneros onde era exemplar. Se bem que não tenha dado má conta de si no drama, como aconteceu, por exemplo, quase no final da carreira, em “Israel” de Henri Bernstein, ao lado de Alves da Cunha e Palmira Bastos.

Mas foi de facto a fazer rir que Silvestre Alegrim mais brilhou. São disso exemplo a opereta “O Chico das Pegas” de Eduardo Schwalbach, no Teatro Apolo, ou as revistas “Ao Deus Dará” e “Tiro ao Alvo” daquele mesmo autor, no Teatro da Trindade, que o confirmaram como um dos melhores actores do seu tempo no teatro musicado. As suas prestações nas revistas e operetas que se seguiram foram a verdadeira prova dos nove do seu inegável talento, absolutamente superada, nos mais diversos palcos de Lisboa.
Silvestre Alegrim e Vasco Santana. Filme "A Canção de Lisboa"

O que aconteceu sobretudo em “Arca de Noé” e “O Hotel da Barafunda, no Maria Vitória; “Retalhos e Recortes”, no Coliseu; “A Lenda dos Sete Cravos”, no Trindade; “Miss Lisboa”, no Apolo; e “De Capa e Batina”, no Politeama. Mas é o cinema que acabará por imortalizar o actor Silvestre Alegrim, com a sua criação de Timpanas, no nosso primeiro filme sonoro “A Severa”, cujo êxito levou Félix Bermudes a escrever uma opereta a que o nome daquela personagem.

Do seu trabalho no cinema, recordamos ainda os seus papéis em “Varanda dos Rouxinóis”, “A Menina da Rádio”, “A Vizinha do Lado” ou “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, assim como o seu Criado de “A Canção de Lisboa”, o Mordomo de “A Rosa do Adro” ou o Meirinho de “Amor de Perdição”, que levaram os espectadores a gritar «Olh’ó Alegrim!», no escuro da sala, sempre que o actor aparecia na tela, de tal maneira ele era popular e querido.

Cartaz do filme "A Severa" com o elenco descriminado

Na parte final da sua carreira, Silvestre Alegrim integrou o elenco da Companhia Os Comediantes de Lisboa, no Teatro da Trindade, onde interpretou as peças “Não o Levarás Contigo” de Moss Hart e Kaufmann e “O Jogo das Escondidas” de Rui Correia Leite.

Entretanto, em 1945, faz uma derradeira visita à sua velha casa de origem – o Teatro Ginásio – em “A Ditadora” de Xavier de Magalhães e Fernando Ávila, com a Companhia de Maria Matos. É, aliás, sob a batuta desta grande Senhora da Comédia que pisa o palco pela última vez, em “A Madrinha de Charley” de Brandon Thomas.

Um ano depois, a 16 de outubro de 1946, o actor morre, em Lisboa, com apenas 55 anos.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Dezembro. 17

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