BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se a figura de Manuel Santos Carvalho.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se a figura de Manuel Santos Carvalho.

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
Hoje recorda-se a figura de Manuel Santos Carvalho.

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

MANUEL SANTOS CARVALHO
Nasceu em Lisboa mas foi no Porto que se fez actor, na revista “O Ovo de Colombo”, tendo o Teatro Sá da Bandeira como seu berço cénico, quando decorria o ano de 1916. Para trás ficava um percurso académico essencialmente voltado para as artes e letras, que culminara com sucesso e distinção no curso de Arte de Representar do Conservatório Nacional.

O seu ar pesado, o rosto grande e redondo, a voz roufenha, o seu porte físico e o farto bigode, que nunca o deixaram ser jovem e muito menos galã, condicionaram a sua carreira quase sempre a registos de comédia, mesmo quando as personagens que lhe coube interpretar continham mais dimensão do que simplesmente fazer rir.
Manuel dos Santos Carvalho fez o papel de Ti Jacinto  contracenou com Elvira Velez no filme "Aldeia da Roupa Branca" (1939).

E ele, inteligente e culto como era, tinha perfeita consciência dessa limitação. As suas características físicas tiveram um peso determinante na opção de Manuel Santos Carvalho pelo teatro ligeiro, nomeadamente revista, farsa, opereta e comédia de costumes.

No teatro de revista, a sua colaboração cedo se estendeu também à autoria de textos, assinando muitos deles com pseudónimos como Carlos Mota ou Carlos do Vale. “A Ramboia”, “Chá de Parreira”, “A Bola” “Vista Alegre”, “Boa Nova” e “Peixe-Espada” foram algumas das revistas que escreveu em parceria com autores consagrados como Amadeu do Vale, Fernando Ávila, Raul Portela e Aníbal Nazaré, entre outros.
Outra cena do filme "Aldeia da Roupa Branca". Manuel Santos Carvalho contracena com Beatriz Costa e José Amaro

Mas a sua relação com o texto não se ficou pelo teatro musicado, tendo escrito uma das comédias mais populares dos anos 1950, “Um Marido Solteiro”. Ao mesmo tempo que se dedicava quase exclusivamente ao teatro, como autor, tradutor, encenador e actor, Manuel Santos Carvalho abraçou outros projetos artísticos que o levariam também à rádio e ao cinema, experimentando depois a televisão nos seus primórdios.

No cinema, esteve ligado como actor ao primeiro filme sonoro inteiramente produzido em Portugal (“A Canção de Lisboa”), interpretando o castiço dono de um Retiro de Fado.

O papel de comerciante de bairro assentou-lhe na perfeição também em “Madragoa”, onde representou o talhante Santana das Carnes, vestindo depois a pele do merceeiro Guimarães em “Sonhar é Fácil”. Mas a sua coroa de glória no cinema remonta a 1938, quando fez o pitoresco Ti’ Jacinto em “Aldeia da Roupa Branca”.
Cena do filme "Cantiga da Rua"

Com a imensa tarimba que os palcos lhe deram, Manuel Santos Carvalho esteve sempre à vontade também na rádio, onde deixou impressa a sua extraordinária força interpretativa em inúmeros folhetins e peças de teatro, bem como na televisão, onde foi presença constante nos primeiros anos de emissão da RTP.

Através do pequeno ecrã, o público telespectador teve oportunidade de apreciar algumas das mais brilhantes criações do actor, sendo de destacar o seu contributo para o sucesso da série cómica “Aventuras de Eva” (1961) ou da versão para televisão da peça teatral “O Senhor do Destino” (1963) de Bernard Shaw. Nesta altura, já ele tinha investido a força criativa numa função que acabaria por privilegiar na parte final da sua carreira: a de encenador.
Manuel dos Santos Carvalho contracenou com Antonio Silva na pelicula "Sonhar é Fácil" (1951)

Após diversas experiências pontais como encenador no início do seu percurso profissional, Manuel Santos Carvalho viria a acumular, a partir da década de 1950, o seu trabalho de actor com as funções de encenador, nomeadamente em espectáculos de grande produção protagonizados por Laura Alves no saudoso Teatro Monumental. “O Comprador de Horas”, “Ela Não Gostava do Patrão”, “A Mulher do Roupão”, “Quando Ela se Despiu” e “A Flor do Cacto” são apenas algumas dessas peças que arrastaram multidões.

Para trás ficavam outras encenações que fizeram também grande sucesso junto do público, como a comédia “Vamos Contar Mentiras” (com Raul Solnado e Armando Cortez), a revista “Abril em Portugal” ou a opereta “As Três Valsas”.
Cartaz do filme "Madragoa" onde Manuel Santos Carvalho fez o papel do talhante "Santana das Carnes"

Se nos palcos ficou conhecido do grande público pelas suas recriações de figuras de traço rústico e popular, de efeito cómico seguro, nos bastidores Manuel Santos Carvalho ficou reconhecido, entre todos os que com ele tiveram o ensejo de trabalhar, como um homem de trato fácil, educado, de grande inteligência e cultura, capaz de gerar consensos e de mobilizar esforços no sentido de criar verdadeiros corpos de equipa em todas as etapas dos processos de criação.

Nós tivemos oportunidade de o acompanhar no levantamento de alguns dos espectáculos que ele dirigiu na década de 1960, como “A Rapariga do Apartamento”, e pudemos testemunhar a sua extraordinária sensibilidade para as relações interpessoais e a sua incrível capacidade de liderança.
Uma cena do filme "Saltibancos"

A última vez que Manuel Santos Carvalho subiu ao palco como actor foi em 1956, com a revista “Daqui Fala o Zé”, continuando, porém, a dar o seu contributo na interpretação em filmes como “O Passarinho da Ribeira” de Augusto Fraga, “O Primo Basílio” de António Lopes Ribeiro, “O Cantor e a Bailarina” de Armando Miranda, “Encontro com a Vida” de Arthur Duarte e “Pão, Amor e Totobola” de Henrique Campos, fechando assim um brilhante percurso no cinema, encarnando sempre figuras secundárias mas nem por isso menos importantes.

Deixou-nos em 28 de Março de 1974, com oitenta e três anos de idade, quando se encontrava na cidade que o viu nascer para os palcos: o Porto do Mercado Bolhão, do velho Sá da Bandeira, da imponente Avenida dos Aliados e das deliciosas francesinhas, que ele adorava verdadeiramente de paixão.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João Porto
Porto. 2014. Dexembro. 10

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