BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que tem por objectivo recordar aqueles que foram figuras no passado nos palcos portugueses. Hoje recorda-se o actor Antonio Cardoso. É o Teatro no Bancada Directa

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que tem por objectivo recordar aqueles que foram figuras no passado nos palcos portugueses. Hoje recorda-se o actor Antonio Cardoso. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade” é uma rubrica de Salvador Santos que tem por objectivo recordar aqueles que foram figuras no passado nos palcos portugueses.
Hoje recorda-se o actor Antonio Cardoso.
É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

ANTÓNIO CARDOSO
Os seus detractores diziam que ele tinha mais volume do que talento, mas a verdade é que o público o adorava e aos poucos transformou-o num dos atores portugueses mais populares no período da transição do século XIX para o século XX. Para além da sua comicidade, era o seu feitio bonacheirão e a sua enorme simpatia que facilmente conquistavam amigos e admiradores.

Foi aliás esta sua bonomia, o seu trato afável e a sua camaradagem que o manteve na ribalta dos favores do povo que à época enchia as plateias dos teatros. Favores, esses, que também os colegas, os empresários e os jornalistas lhe dispensavam, apesar das rivalidades e invejas que ensombravam as relações entre as gentes das artes e das letras nesse tempo conturbado.

Filho de uma família remediada, com um bem-sucedido negócio no sector dos ferros e ferramentas, António Cardoso cedo seguiu as pisadas do pai no ofício de serralheiro. Mas as suas graçolas durante o trabalho com os colegas e clientes, que riam desbragadamente com as divertidas performances do rapaz, fizeram-no acreditar na sua vocação para os palcos.
Teatro Ginásio ali pertinho do Chiado. A foto foi obtida  após a remodelação do teatro em 1925. Antonio Cardoso trabalhou nesta casa durante vários anos. Até lhe passaram a chamar "O Cardoso do Ginásio".

E foi isso que o atraiu para a Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, que já naquela época alimentava o fogo do teatro com um grupo de amadores, onde ele se estreou em 1878, com dezoito anos, na comédia “Casamento por Anúncio”.

E de tal forma se saiu bem no seu batismo de palco que o empresário do Teatro do Rato o contratou para representar naquela sala de espetáculos a fantasia musical “Zé Povinho”, a que se seguiram as peças “Maria da Fonte” e “A Filha do Senhor Crispim”. Atento ao que se passava nos palcos da concorrência, o empresário José Joaquim Pinto não desistiu enquanto não levou António Cardoso para o Teatro Ginásio, onde o actor permaneceu durante trinta e quatro anos após a sua estreia na comédia “A Medalha da Virgem”.

Esta rara longevidade ao serviço do mesmo palco fez com que ele passasse a ser conhecido como «o Cardoso do Chiado», apesar de ter também representado esporadicamente noutros teatros, como, por exemplo, no Trindade, no qual interpretou “O Brasileiro Pancrácio”, peça de grande êxito que cumpriu mais de trezentas representações!

Para além desta sua passagem pelo Teatro da Trindade, o actor integrou ainda algumas sociedades artísticas que promoveram espectáculos nas épocas de verão nos palcos do Teatro da Rua dos Condes, do Avenida e do D. Amélia (actual São Luiz). Mas foi de facto no saudoso e popular Teatro Ginásio que António Cardoso se firmou como grande actor cómico, género a que o seu anafado físico (aliado, naturalmente, aos seus extraordinários dotes artísticos) dava particular ajuda.

Aí representou alguns dos mais conceituados autores portugueses daquela época, como Gervásio Lobato, Eduardo Schwalbach, André Brun ou Chagas Roquette, brilhando em conhecidas e deliciosas comédias como “O Comissário de Polícia”, “Os Pimentas”, “A Vizinha do Lado” ou “O Senhor Roubado”. E foi aí também, naquele velho teatro, que viveu momentos tristes e complicados de incompreensão por parte de alguns dos seus camaradas de profissão e… sofreu um dos maiores desgostos de amor da sua vida.
Uma das rarissimas fotos de Antonio Cardoso. (em baixo à esquerda)

António Cardoso foi um dos primeiros namoricos juvenis da actriz Adelina Abranches. Andava ela pelos 17 anos e ele pelos 23, quando tudo aconteceu, conforme nos relata a filha da grande Aura Abranches nas suas Memórias: «O Cardoso do Ginásio, o fenomenal Cardoso, tão baixinho e reboludo, qual bilha de água de Caneças, botou fulminante paixão por mim!...

Chegou a pedir licença a minha mãe para me namorar, licença que ela lhe concedeu logo porque entendia que o grande actor seria um esplendido partido…». Mas Adelina Abranches não gostava mesmo nada do «Cardoso do Ginásio»: «Ele era muito gordo… Além disso era feio! Aqueles olhos esbugalhados, mas muito lânguidos, como as vitelas moribundas, aquela cara sempre luzidia, todo aquele toucinho que lhe tombava do pescoço, eram para mim motivo de repugnância».

Este retrato de António Cardoso, ainda que um tudo ou nada deformado pela ironia e pelo azedume que ficou da relação com Adelina Abranches («Sob os olhos complacentes de minha mãe, deixei-o durante uns meses segredar-me o seu amor, só pelo gosto da corte… pelo prazer de ouvir palavras bonitas. E ele sabia a cartilha toda, o maroto…»), é revelador da grande corpulência do actor, alimentada pelo seu enorme gosto por bons petiscos regados com canjirões de vinho tinto. Foi, aliás, esta mistura de amor não correspondido com muita comida e vinho a rodos que apressaram o seu fim.
Foto da extraordinaria actriz Adelina Abranches. Foi o grande amor de Antonio Cardoso. Não foi correspondido por parte dela.

Sem nunca colocar em causa a sua dedicação e respeito à sua arte e ao seu público, o actor foi-se destruindo na comida e no álcool, arruinando irremediavelmente o fígado. Já minado pela maldita doença, António Cardoso, «o Cardoso do Ginásio», cumpriu os últimos anos da sua brilhante carreira de comediante entre o teatro e o cinema, onde se estreou em 1910 como protagonista da curta-metragem “Chantecler Atraiçoado”.

Valeu-lhe os extremos cuidados de sua irmã, aos braços de quem veio a falecer após uma noite de ensaio pela madrugada adentro no seu Ginásio, em 3 de agosto de 1917. Tinha 57 anos e viveu os seus derradeiros dias a combater as dores com as mais diversas drogas que a medicina ia criando e testando nos próprios pacientes.

Salvador Santos
Teatrro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Dezembro. 23

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