BANCADA DIRECTA: Gervasio Lobato foi uma grande figura do nosso meio teatral e é hoje recordado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Gervasio Lobato foi uma grande figura do nosso meio teatral e é hoje recordado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa.

Gervasio Lobato foi uma grande figura do nosso meio teatral e é hoje recordado por Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
É o Teatro no Bancada Directa. 
 “No palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 


GERVÁSIO LOBATO 
Figura muito popular do meio teatral e literário lisboeta da segunda metade do século XIX, Gervásio Lobato foi autor de uma obra extensa e variada num curto espaço de tempo. Para além do teatro e dos livros, o jornalismo foi o seu porto de abrigo. 

A vocação para a escrita já vinha da juventude, tendo fundado aos 15 anos, com alguns dos seus condiscípulos, o jornal literário “A Voz Académica”. 

Nessa altura, tinha como sonho uma carreira diplomática, tirando por isso o Curso Superior de Letras e a Cadeira de Direito Internacional da Escola Naval. Mas acabaria por fazer carreira no campo das artes e das letras ao mesmo tempo que exercia a função de segundo oficial da Secretaria do Reino e lecionava Declamação na Escola Dramática do Conservatório Nacional. 
Mas o que ficou realmente para a posteridade foi a sua colaboração nos mais diversos jornais de Lisboa, que vão desde os matutinos Diário de Notícias e O Século aos vespertinos Diário Popular e Correio da Noite, entre muitos outros, e a sua dedicação à escrita dramática. “O Rapto de um Noivo”, a comédia com que se iniciou em teatro, teve honras de estreia no Teatro Nacional D. Maria II, a que se seguiram quase de imediato duas outras comédias escritas para o Teatro Ginásio – “No Campo” e “Debaixo da Máscara”. 

Começava assim a carreira fulgurante de Gervásio Lobato como dramaturgo, composta por 25 textos cómicos originais, para além de 115 traduzidos e 65 adaptados, que tiveram grande sucesso em quase todos os teatros portugueses, de que são exemplos mais felizes as peças “Sua Excelência” e “O Comissário de Polícia”. 

Nestas suas duas peças, Gervásio Lobato faz um retrato crítico da sociedade portuguesa do final do século XIX, adaptando para o seu contexto alguns recursos bastante característicos do teatro de vaudeville de Eugène Labiche, com um humor leve e inteligente. 
E por esse caminho foi deixando as suas contundentes críticas à burguesia e à política, que estendeu a toda a sua obra, bem patentes sobretudo nas comédias “As Noivas do Eneias” e “Medicina de Balzac”, na farsa “O Festim de Baltazar”, nos romances “A Primeira Confessada” e “O Grande Circo”, e nas novelas “Os Mistérios do Porto” e “Lisboa em Camisa”, onde desferiu ataques humorados aos ridículos tiques e manias da média burguesia e à sua mesquinhez de ambições políticas e mundanas. 

Na novela “Lisboa em Camisa”, que o realizar Herlander Peyroteo em boa hora transpôs para o ecrã na década de 1960, Gervásio Lobato descreve uma certa classe burguesa que aspira a voos muito mais altos e que fica invariavelmente pelos negócios comezinhos, já que lhe falta a fibra autêntica dos homens dinâmicos. 

Seguindo a escola realista de Eça de Queirós, esta novela (a mais célebre de toda a sua obra literária) está povoada de elementos singulares e caricatos do quotidiano. Mas o que lhe dá graça são as inúmeras peripécias vividas pelos protagonistas, que aparecem em catadupa ao longo da narrativa, proporcionando-nos umas belas e saudáveis gargalhadas, ao ponto de nos questionarmos a nós próprios: «Mas que mais é que pode acontecer a esta gente?». 

 Esta obra de Gervásio Lobato, como quase todas as novelas e romances, começou por ser publicada em folhetins nos vários jornais em que colaborou, onde deu também um valioso contributo como cronista. A primeira obra a sair do prelo foi um conjunto de folhetins literários que deram origem ao romance “A Comédia de Lisboa”, publicada nas páginas do Diário da Manhã, jornal no qual se iniciou a convite de Pinheiro Chagas, num suplemento com o título “Vida de Lisboa”. 
A familia Piranga. Personagems de Gervasio Lobato em "Lisboa em Camisa"

Curioso é que, sendo esta a sua primeira incursão literária, por vergonha ou por imitação de alguns autores europeus, assinou esse trabalho com um pseudónimo (Gilberto). E a verdade é que «os folhetins surgidos no Diário da Manhã foram um acontecimento literário em Lisboa». Mas foi sobretudo no teatro que Gervásio Lobato atingiu o seu apogeu como autor literário. 

Comentando a sua peça de estreia, Luciano Cordeiro, que a classificou «das mais notáveis, das mais felizes, das mais prometedoras até, de todas as que temos visto nestes últimos tempos neste nosso pobre teatro nacional», sublinhou o «corajoso realismo» com que nela se denunciavam a «ausência de virilidade moral», a hipocrisia do «chamado grande mundo», «a vida íntima de uma aristocracia de sacristia». 
Embora não tivesse aprofundado algumas destas qualidades nas suas obras posteriores, nem por isso o autor deixou de marcar indelevelmente o teatro português para sempre, uma vez que trouxe de novo a lume um género sobre o qual Gil Vicente foi prolixo: a farsa! 

Escrevendo fundamentalmente para o Teatro Ginásio, de que era primeira figura o grande Actor Vale, as peças de Gervásio Lobato foram representadas naquele palco sempre com assinalável agrado, o que levou um dos cronistas da época a escrever que o teatro cómico teve ali então «o seu trono, a sua corte e o seu rei». Mas a eficácia teatral da sua escrita não resulta apenas do bom desempenho dos actores. 

 As suas comédias conservam ainda hoje parte da sua frescura originária, graças ao seu humor certeiro e ao ritmo dos diálogos, características que são matéria crucial na representação das personagens, trabalho que ele deixou de poder continuar a desenvolver muito cedo em virtude da sua morte prematura em 26 de Maio de 1895, quando tinha apenas 45 anos. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Dezembro. 29

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