BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Apresentamos a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recordamos a figura de Tomás Alcaide.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Apresentamos a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recordamos a figura de Tomás Alcaide.

O Teatro no Bancada Directa.
Apresentamos a rubrica semanal de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
Hoje recordamos a figura de Tomás Alcaide.

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos Teatro Nacional de São. Porto

TOMÁS ALCAIDE
Teve educação militar, sonhou ser médico e acabou por ser uma das figuras máximas do canto lírico português. Nascido no Alentejo, na cidade de Estremoz, onde viveu toda a infância e iniciou os estudos, foi viver para Lisboa aos onze anos, para frequentar o Colégio Militar, onde recebeu educação completa nas mais diversas armas até ingressar no Regimento de Lanceiros 2.

Aí decide não enveredar pela carreira militar profissional e realiza as cadeiras preparatórias para o curso de medicina da Escola Politécnica, o qual viria a frequentar apenas durante um ano. O tio com quem vivia, que era um grande melómano e frequentador habitual do nosso teatro lírico, incentivou-o a estudar música, tendo descoberto então a sua verdadeira vocação, se bem que ainda tivesse rumado à Universidade de Coimbra para adquirir conhecimentos de química.
As lições de canto que havia tomado com o professor italiano Alberto Sarti acabariam por ser-lhe muito úteis durante a sua permanência na cidade do Mondego, não como aluno da Faculdade mas como cantor nas inúmeras serenatas noturnas em que participou e que lhe deram uma enorme popularidade. Incentivado por amigos e críticos, Tomás Alcaide decide-se definitivamente por uma carreira no canto lírico.

Aconselha-se com o barítono Francisco de Sousa Coutinho e prossegue os estudos vocais com a célebre meio-soprano italiana Eugenia Mantelli que lhe proporciona não só uma sólida preparação musical como também o inicia em alguns dos papéis mais apropriados para a sua voz, acompanhando-o na sua primeira apresentação pública como tenor no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz, interpretando a ópera “Fausto” de Charles Gounod.
Agosto de 1933. Tomás Alcaide publicitava o Ovochocolate Mitzi

Começava aqui a fulgurante carreira de Tomás Alcaide, que passou de seguida por diversas salas de espetáculo portuguesas, como o Coliseu de Lisboa, o Teatro Nacional de São Carlos, o Club Estefânia, o Casino Peninsular da Figueira da Foz ou o Teatro Municipal do Funchal, interpretando, entre outras óperas, “La Bohéme” de Giacomo Puccini e “Rigoletto” de Giuseppe Verdi.

As portas da internacionalização não tardaram a abrir-se para o tenor português. Madrid recebe-o no Teatro Espanhol com a “Tosca” de Puccini e Milão adota-o como seu. Primeiro no Teatro Carcano, no papel de Wilhelm Meister da ópera “Mignon” de Ambroise Thomas, e depois no Scala, onde é escutado com grande êxito nas óperas “As Preciosas Ridículas” de Felice Lattuada, “Il Gobbo del Califfo” de Franco Casavola e “Madonna Imperia” de Franco Alfano.
Depois do Scala de Milão, seguem-se atuações em vários teatros italianos, sempre com enorme sucesso, o que acabou por levar o nome de Tomás Alcaide a toda a Europa e à América. Em 1927, canta na Ópera de Boston, a que se seguiu uma grande digressão pelos Estados Unidos.

Em resultado dessa projeção internacional, os mundos da zarzuela e da ópera vienense concedem-lhe honras de primeira vedeta. Entretanto, já na década de 1930 parte para Montecarlo onde interpreta “Doña Francisquita” de Amadeo Vives, seguindo depois para Bolonha, Bruxelas e Paris com a opereta “O País dos Sorrisos” de Franz Lehár, com a qual obtém um sucesso estrondoso.

Em 1931 participa pela primeira vez no Festival de Salzburgo e no ano seguinte regressa a Lisboa para interpretar as óperas “Tosca” e “Rigoletto”, sendo na altura condecorado com as comendas de Cavaleiro da Ordem Cristo e de Oficial da Ordem de Santiago da Espada.

Em 1935, depois de uma incursão por Monte Carlo, Praga e Bruxelas, Tomás Alcaide ao regressar a Itália é informado de que, para cantar naquele país, terá de naturalizar-se italiano. Recusa-se a renegar a identidade portuguesa e transfere-se para França, onde prossegue uma carreira invejável. Entretanto, deflagra a II Grande Guerra Mundial e vê interrompida a sua carreira.
Embarca então para o Brasil, onde conhece a bailarina Asta Rose, que viria a ser a sua companheira até ao fim da vida. Em 1942 volta a Portugal e mantém-se inativo até 1947, ano em que efetua mais uma digressão por França, Bélgica e Brasil. Entretanto, adoece e regressa para sempre a Lisboa.

Cerca de dois anos após o seu regresso a Portugal, em 1949, Tomás Alcaide ingressa nos quadros da ex-Emissora Nacional, como assistente de programação, e em 1951, aquando da inauguração do Teatro Monumental, é convidado a integrar o elenco da opereta “As 3 Valsas” de Óscar Strauss, ao lado de Laura Alves, João Villaret e Eugénio Salvador, entre muitos outros.

No ano seguinte é intérprete da opereta “Justiça de Sua Majestade” com música de Raul Ferrão, António Melo e Frederico Valério, e em 1953 estreia-se no teatro declamado na peça “As Mulheres de Quem se Fala” de Vítor Ruiz Iriarte.

Em 1955 entrará ainda na peça “Sua Alteza Real” de Ramada Curto. Na década de 1960, Tomás Alcaide realizou diversas conferências, publicou a sua autobiografia, intitulada “Um Cantor no Palco e na Vida”, colaborou em programas de rádio e dirigiu a Escola de Canto do Teatro da Trindade, acumulando aqui os cargos de mestre de canto e de encenador da Companhia Portuguesa de Ópera.

Foi com a ópera “La Bohéme” de Puccini que se estreou na encenação, a que se seguiram muitas outras, como “Rigoletto” e “La Traviata” de Verdi ou “O Amigo Fritz” de Mascagni. Preparava a ópera “Manon” de Massenet, quando a morte o surpreendeu a 9 de novembro de 1967.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Novembro. 10

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