BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”.É uma rubrica semanal de Salvador Santos que se destina a recordar as grandes figuras já desaparecidas do nosso meio teatral. Hoje recorda-se Pinto de Campos

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

“No Palco da Saudade”.É uma rubrica semanal de Salvador Santos que se destina a recordar as grandes figuras já desaparecidas do nosso meio teatral. Hoje recorda-se Pinto de Campos

“No Palco da Saudade”.
É uma rubrica semanal de Salvador Santos que se destina a recordar as grandes figuras já desaparecidas do nosso meio teatral.
Hoje recorda-se Pinto de Campos

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

PINTO DE CAMPOS
Ele foi uma das figuras emblemáticas do Parque Mayer, reconhecido como um dos mais importantes cenógrafos e figurinistas do teatro de revista mas também pela sua personalidade, ao mesmo tempo genial e controversa, para quem tudo começava por ser óptimo… ou péssimo.

O seu mau génio passava facilmente da apreciação crítica negativa para o estado de adoração e apreço. Para ele não havia meias tintas, tudo era claro ou escuro! Exigente, cáustico e mordaz, embora se tenha destacado principalmente na revista, com um trabalho rigoroso e inventivo, inspirado nos musicais da Broadway e no Cabaret parisiense, pautado por um modernismo discreto, ele não se limitou a este género teatral, tendo também criado roupa e cenários para a opereta, para a comédia, para os clássicos, para o cinema e até para o teatro mais experimental e vanguardista.
Para Pinto de Campos tudo começou de facto na revista e no «teatro vedeta» do Parque Mayer (o Maria Vitória!), logo após se ter formado como contabilista, profissão que nunca chegou a exercer. Por insistência dos autores teatrais Aníbal Nazaré e Raul Ferrão, concebeu duas cortinas e um figurino para o espectáculo “O Estaladinho”, estreado nos inícios de 1931, e a partir daí nunca mais parou. Seguiu-se de imediato a revista “Viva o Jazz” e mais meia dezena delas, sempre no mesmo palco, até que surgiu o ex-bailarino italiano Piero Bernardon investido na pele de empresário teatral, com quem formou uma parceria que se pensou ser completamente imbatível.

E a eles se ficaram a dever alguns espetáculos memoráveis como “Olaré Quem Brinca”, “Cantiga da Rua” e “Há Festa no Coliseu”, três das mais imponentes montagens da época. Mas aquelas luxuosas produções não só elevaram a qualidade do teatro de revista ao nível dos grandes espetáculos parisienses, como acabaram também por levar o empresário Piero Bernardon à falência em pouco mais de quinze anos, pese embora o grande sucesso popular de todas elas.
Pinto de Campos veste Amália Rodrigues
 
Contudo, apesar do processo de falência, a parceria não cessou e Pinto de Campos deu, assim, inicio a um frutuoso período de actividade no estrangeiro. Depois de algum tempo em Espanha e França, fixou-se durante cinco anos no Cairo, onde montou inúmeros e diversificados espectáculos em Casinos e Clubes Noturnos, deixando entre nós um vazio significativo na actividade teatral que, anos antes, tinha ajudado a revitalizar com o seu talento, imaginação e muito bom gosto.

Este vazio foi também sentido pelo então jovem empresário Vasco Morgado, que, no início de 1953, pediu a colaboração de Pinto de Campos – que se encontrava ainda no Cairo – para a montagem da revista “Viva o Luxo”. A resposta foi positiva e algumas semanas depois chegavam por correio os desenhos de figurinos e maquetas de cenário solicitados.
Guitarra Portuguesa. Figurino da revista "Pernas à Vela". Desenho/pintura sobre cartolina. Pinto de Campos. Teatro Variedades. 1958. (Museu Nacional do Teatro)

Foi o início de uma fortíssima relação que se estenderia por mais de vinte e dois anos, consolidada com o deslumbrante trabalho realizado para a opereta “Maria da Fonte”, a que se seguiu quase de imediato um conjunto de novas criações para os diversos teatros de Lisboa e Porto geridos na altura por aquele empresário teatral, o que trouxe o cenógrafo e figurinista definitivamente de volta para Portugal.

Apesar de assegurar, em exclusividade, a direcção plástica de quase todos os espetáculos de teatro ligeiro produzidos por Vasco Morgado, Pinto de Campos teve ainda oportunidade de colaborar com outras empresas, nomeadamente com uma companhia criada pelo actor Eugénio Salvador, para a qual concebeu os cenários, figurinos e adereços de revistas como “Cidade Maravilhosa” e “Fonte Luminosa”, ambas apresentadas no Coliseu dos Recreios, de Lisboa, para além de outras produções levadas a cena no Teatro Maria Vitória, em cujo acanhado palco conseguiu verdadeiros milagres de concepção e construção cenográfica que ninguém antes julgaria possível.
Maquete da revista "Fonte Luminosa". 1956

Mas a colaboração criativa de Pinto de Campos não se limitou ao teatro ligeiro, género em que se expressava mais facilmente, tendo dado igualmente o seu contributo artístico em espetáculos do chamado teatro declamado, dos quais se destacam “A Severa” de Júlio Dantas, “João Gabriel Borkman” de Ibsen, “O Mercador de Veneza” de Shakespeare e “Gata em Telhado de Zinco Quente” de Tennessee Williams.

Mas a revista era de facto o seu mundo, onde trabalhou literalmente até morrer. Tombou, vítima de uma trombose, a 6 de junho de 1975, no palco do Teatro Monumental, quando montava a revista “Lisboa Acordou!”, que acabou por estrear no dia 25 do mês seguinte.

Sobre a figura já quase lendária de Pinto de Campos, o testemunho mais curioso é o do jornalista Albano Zink Negrão, que no-lo apresenta como o enfant terrible do Parque Mayer, «[…] com o seu bigode farto, mal penteado, as camisolas só possíveis nele, exótico no vestir, culto na palavra» e, como outros acrescentaram, de «[…] mau génio explosivo». Enfim, ele era uma personalidade complexa e de um indiscutível talento.
Figurino de Pinto de Campos para a revista "Taco a Taco". Teatro Maria Vitoria. Companhia de Teatro de Eugenio Salvador. 1960

Todos os que o conhecemos recordamos, com grande ternura e um sorriso de saudade, episódios cheios de graça e oportunidade por ele protagonizados, um dos quais não resistimos a contar: Uma vez, descia ele a avenida da Liberdade e uma mulher que por ali fazia o trottoir, numa provocação profissional, fez-lhe um convite amoroso. O Pinto, meio ofendido e espantado, comentou alto e bom som: «Ah, é puta e cega!».

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Novembro. 05

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