BANCADA DIRECTA: Luís Piçarra é a lembrança de hoje do Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Luís Piçarra é a lembrança de hoje do Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

Luís Piçarra é a lembrança de hoje do Salvador Santos na sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”.
É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

LUÍS PIÇARRA
Foi um dos mais populares e cosmopolitas cantores portugueses de sempre, atingindo uma carreira internacional invulgar, graças a um repertório eclético que cruzava composições eruditas com algumas das mais belas canções de música ligeira do seu tempo.

Possuidor de uma voz ímpar, que viria a perder numa emboscada de guerra no norte de Angola, partilhou os palcos de quase todo o mundo com as maiores vedetas da canção. Fez furor nos Estados Unidos, Argentina, Egito, França, Itália e Brasil, criou êxitos mundiais, brilhou na ópera e na opereta, cantou ao lado Edith Piaf e ombreou com as vozes de Maurice Chevalier, Domenico Modugno, Tino Rossi e Luís Mariano.

Antes de se transformar no “Trovador Romântico da Europa”, Luís Piçarra, alentejano de Moura, esteve para ser advogado e depois arquiteto. O pai, um rico proprietário com ascendência aristocrática, começou por mandá-lo para um colégio suíço, em Lausanne. Depois de concluir o curso dos liceus, já em Lisboa, seguiu-se a matrícula na faculdade de Direito em Coimbra, que abandonou a meio.
E eis que surge então as belas-artes, primeiro na faculdade de Arquitetura em Lisboa e depois na École des Beuax Arts, sem ter completado o curso. Já então o rapaz se engajara no estudo de canto e música, decisão que terá contribuído decisivamente para o seu insucesso escolar. Durante os tempos do Liceu, Luís Piçarra havia atuado nos Coros da Ópera Nacional, tendo sido na altura aconselhado pelo maestro italiano Alfredo Podovani a aprofundar os seus estudos na área do canto, conselho idêntico que lhe fez pouco tempo depois o maestro napolitano Francesco Codivila que dirigia os coros do Coliseu dos Recreios.

E foi assim que ele chegou aos professores de canto Fernando de Almeida e Hermínia de Alargim, que foram o trampolim para a sua estreia na ópera “O Barbeiro de Sevilha” de Gioachino Rossini, levada a cena na Academia dos Amadores de Música de Lisboa, onde o cantor foi recebido com os maiores louvores da crítica especializada.

Para ganhar experiência e conquistar popularidade, Luís Piçarra decide enveredar pela opereta, género muito em voga na década de 1930, tendo participado no elenco de “A Lenda dos Sete Cravos”, “Zé do Telhado”, “João Tatão” e “Maria da Fonte”, espetáculos que o catapultaram para o cinema. “Aqui Portugal”, “Algarve Encantado” e “Pão Nosso” foram os filmes que ele protagonizou, ao mesmo tempo que integrava o elenco de tenores residentes da ex-Emissora Nacional, enquanto sonhava com uma carreira internacional. E esse sonho começou a ganhar forma quando foi convidado pelo tenor Tito Schipa a cantar com ele num concerto no Coliseu de Lisboa.
Com o fim da II Grande Guerra Mundial, Luís Piçarra partiu à conquista do mundo. Começou pelo Brasil, onde se estreou, em 1945, no Casino Copacabana, um dos espaços mais luxuosos do Rio de Janeiro. Na cidade carioca triunfa depois ao lado de Amália Rodrigues na opereta “Rosa Cantadeira”, percorrendo de seguida quase toda a América Latina. Na Argentina, interpreta a ópera "Manon", sucesso que o leva até ao Oriente.

No Cairo, o Rei Faruk convida-o a ficar como cantor da Corte e concede-lhe o título de Bey (equivalente a Conde). Nessa altura, Raul Ferrão envia-lhe uma cantiga a que chamou “Coimbra” e que ele transformou no sucesso mundial “Avril au Portugal”.
Outro dos grandes sucessos de Luís Piçarra, mas à escala nacional, foi o hino do Sport Lisboa e Benfica, clube que amava e nunca esqueceu, acompanhando a equipa em quase todas as deslocações à Europa, continente onde se fixou no final da década de 1950, após uma longa estada nos Estados Unidos para gravar 26 programas para a cadeia norte-americana NBC.

Em Paris, faz parceria com Edith Piaf no espetáculo “This is Europe” e em 26 programas televisivos, acompanhados pela famosa Orquestra de Paul Durand, e é o primeiro artista estrangeiro a pisar o palco do famoso Théâtre de la Gaîté-Lyrique, com as operetas "Un Portugais en Paris", "Colorado", "La Vie en Rose".
TV Excelsior. Brasil 1947. Na foto do grupo vê-se Luis Piçarra e Amália Rodrigues

Em França, de onde partia com alguma regularidade para outros países do velho continente, Luís Piçarra foi distinguido com a Comenda da Legião de Honra quando anunciou a sua vontade de se fixar na África do Sul. Já no continente africano, viaja de Joanesburgo para Luanda e convidam-no a acompanhar uma coluna militar para atuar noutras cidades daquela nossa antiga colónia.

A coluna cai numa emboscada e o cantor passa longas horas num pântano, mergulhado no lodo, circunstância que lhe danifica irremediavelmente a voz. Quando consegue sair para um lugar mais seguro, percebe que está rouco, mas não tem consciência da gravidade do seu estado. E... volta às cantigas.

O seu estado de saúde agrava-se e Luís Piçarra fixa residência em Luanda, onde consegue colocação na Emissora Oficial de Angola. Após a independência daquele país de língua portuguesa, regressa a Lisboa, com a mulher e os três filhos. Nessa altura tinha como rendimento único uma mísera pensão de reforma.
Capa da Revista Plateia nº 271. Referencia à fotonovela "O Autor" com Luís Piçarra e Ligia Telles. 1966

Empenha-se na produção musical, função que se obriga a abandonar quando lhe é diagnosticado um cancro nas cordas vocais, em 1998. O Presidente Ramalho Eanes concede-lhe a comenda da Ordem do Infante D. Henrique e o Governo atribui-lhe uma reforma por Mérito Cultural. Muito debilitado, foi viver com a mulher para a Casa dos Artistas, falecendo no ano seguinte.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Novembro. 17

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