BANCADA DIRECTA: “Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho de Nove/Verbatim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

“Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho de Nove/Verbatim.

“Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho de Nove/Verbatim.

Histórias do Noninoni
2.º Episódio
Onde está a verdade?
[“É verdade, é verdade o General hoje já cá veio… aposto meio pacote d’enrolar como ainda vamos ser nós a descobrir est’imbróglio… ]

E se bem o disseram, melhor o fizeram, isto é, melhor assumiram a soleníssima intenção de discernir aquela embrulhada. Segundo constava, estes dois amigos eram mais dados à conversa do que ao trabalho. Mas não devemos dar crédito a rumores. Vejamos primeiro os resultados da sua actuação e pronunciemo-nos depois, se quisermos ser minimamente justos. A polícia anotou a queixa da menina Arlete e guardou o papel onde estava redigido o pedido de resgate.
Aqui aparecem os dois amigos Cucas e Toino. Contra o que é habitual estão bem vestidos porque iam nesse dia às Finanças pedir esclarecimentos sobre o que era a salganhada da clausula de  salvaguarda do IRS

O Tóino e o Cucas, assim se chamavam os dois amigos, não conseguiram ver o documento, mau grado todos os esforços despendidos. “Temos de falar com a Arlete”, cochichou o mais velho. O outro retorquiu baixinho e com a mão na boca – não fosse alguma câmara estar a filmá-los – “Não sei se ela te atende, ó Tóino… é melhor ser eu a falar-lhe em primeiro lugar”. A resposta veio logo: “Não estás a ver o filme, ó meu, temos de agir como uma equipa de inspectores, de modo a ganhar a confiança da miúda, não vá ela pensar que queremos aproveitar a ausência do Lobão do Mar para a deitarmos na cama.

Isto vai ser ‘high investigation’, que exige cabeça fria, muito tacto e um elevado sentido do dever”. “Qual dever?”, perguntou o Cucas. “O dever de procurar a verdade e só a verdade, embora nenhum filósofo, digno desse nome, tivesse conseguido dizer onde ela está”. “Ó Tóino, deixa-te de conversas! A verdade, por exemplo, é que o árbitro roubou ao Benfica aquele penalti sobre o Sálvio no jogo do último sábado. O resto são cantigas”. “Santa ignorância!… Chiu, que a polícia já se vai embora”.

Os dois estugaram o passo e aproximaram-se da menina Arlete antes que outros mirones o fizessem. “Boa noite Arlete, queríamos dar-lhe uma palavrinha de auxílio e conforto, como bons vizinhos”. “Bem preciso de ajuda”, lamentou-se ela. “Mas não fiquem aí, subam para o meu quarto, agora aqui na casa da mãe do Zé Cego”.
Leitor assíduo do Bancada Directa não fez qualquer "comment", mas lembrou-se de nos enviar uma foto da menina Arlete com o seu Lobão do Mar. Como neste blogue não censuramos ninguém aqui está a foto publicada

O Cucas, que nunca chegara a despregar os olhos do belo corpinho da moça, sentiu o estremeção do verdadeiro dever de mandar o Tóino dar uma volta e de começar a investigação de uma maneira íntima, eminentemente prática e gratificante. Mas o outro dever, o de procurar a outra verdade (Quantas haverá? Ocorre perguntar), acabou por triunfar depois de ouvir a sedutora Arlete dizer: “Não se atrapalhem se lá virem o Zé Cego, é muito meu amigo, como se fosse um irmão…”.

Os dois agentes da ‘high investigation’, meio abananados com tal revelação, perguntaram sem esconder um enorme espanto: “Mas o Zé Cego não foi na ambulância para o hospital ou, se calhar, para a morgue?”. “Ó meus trouxas, o que o Quim Coxo levava ao colo era uma figura para o Carnaval, que estava a acabar de montar, baseada no Zé Cego. Os tipos do INEM devem estar agora a disfarçar a gafe de terem recolhido um boneco afogado e o Quim Coxo está inconsolável porque perdeu uma obra digna de elogios”. Os dois amigos jurariam que sentiram o ruído dos seus queixos a cair no lajedo. “Então, o que o coxo transportava não passava de um boneco!
Como é que não vimos que era impossível o Quim Coxo caminhar, e até correr, com o Zé Cego ao colo?!”, exclamou o Tóino a refazer-se do choque que sofrera. “Cucas, não podemos acreditar no que os nossos olhos vêm. E dizes tu que aquilo no sábado passado foi penalti… Sabes lá! A verdade ou a realidade escapa-nos sempre!”. Entretanto, Arlete sorria como uma gaiata. E lá subiram os três para dar com o Zé Cego a ler o jornal. Pumba, outra cacetada! “Ó Zé, afinal você vê tão bem como eu!”, disparou o Cucas depois de respirar fundo. “Isso é o que você julga, eu sou amblíope, poucochinho, mas sou, carago”.

Nesta altura o Tóino percebeu que amblíope não era uma marca de vinho verde e notou, com desgosto, que o seu parceiro dera conta da grosseira confusão que horas antes fizera. Todavia, esclarecido este aspecto, subsistia uma pergunta no íntimo de cada um dos ‘high inspectors’: “Mas, não sendo vinho verde, que raio seria um amblíope?”. Os dois amigos sentiam o chão a fugir-lhes. Havia que recobrar a calma. Assim, depois de engolida alguma saliva, o Tóino lá conseguiu pôr a questão que ambos tinham em mente desde o princípio: “Ó menina Arlete, o que é que dizia o papel do pedido de resgate?”.
Idealizando a possível cena do rapto do Lobão do Mar

Ela foi à mesinha de cabeceira e tirou de lá uma folha com caracteres de jornal colados. O Cucas perante isto não conseguiu deixar de perguntar: “Mas eu vi-a entregar um papel à polícia, não era o pedido de resgate?”. “Claro que era o pedido de resgate”, disse ela acrescentando de pronto “Este aqui é uma cópia perfeita do outro”. “Uma cópia?!!” exclamaram os dois. “Então agora os raptores deixam os pedidos de resgate acompanhados de uma cópia?”.

A menina Arlete sem disfarçar um certo enfado, acompanhada pelo agudo olhar de desprezo que o Zé Cego dirigia aos ‘high inspectors’, elucidou-os de imediato: “Ó seus totós, então julgam que eu ia chamar a polícia sem mostrar que era uma pessoa que exige sempre um recibo ou uma cópia. E não pusemos o NIF no pedido de resgate porque a transacção não está concluída, entenderam?”.

Era de mais! A quantidade de informação contida nesta última resposta da menina Arlete, junto com tudo o resto, só podia ser digerida mais tarde. E havia ainda que registar o pedido de resgate, que rezava o seguinte: “Arlete, se queres recuperar o teu Lobão do Mar, tens de arranjar 2750 euros até ao fim desta semana.

Quando tiveres a massa, estendes as tuas cuequinhas roxas à janela que eu, depois, direi onde vou recolher o pilim. Caso não cumpras, o teu Lobão será transformado num submarino que deixarei para sempre no fundo do mar. Não falhes, este é um pedido irrevogável. João Janelas”. Amachucados pela enorme quantidade de material a tratar os dois ‘high inspectors’ abandonaram o quarto da Arlete. Ainda não tinham chegado á rua quando começaram a ouvir o noninoni de ambulâncias e carros da polícia. Que mais teria acontecido ou estaria para acontecer?!

Nove / Verbatim

O autor deste episódio










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