BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Apresentamos a rubrica “No Palco da Saudade” da autoria de Salvador Santos e hoje recorda-se a artista de revista de seu nome Maria Vitória.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Apresentamos a rubrica “No Palco da Saudade” da autoria de Salvador Santos e hoje recorda-se a artista de revista de seu nome Maria Vitória.

O Teatro no Bancada Directa.
Apresentamos a rubrica “No Palco da Saudade” da autoria de Salvador Santos e hoje recorda-se a artista de revista de seu nome Maria Vitória.

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

MARIA VITÓRIA

Aquela que dá hoje nome ao único Teatro do Parque Mayer, em Lisboa, que ainda mantém as suas portas abertas e prossegue o seu percurso de mais de noventa e dois anos ao serviço de um dos géneros teatrais mais populares no nosso país, nasceu em Espanha, na cidade de Málaga, em 1888. Espanhola de nascimento, mas portuguesa de alma-e-coração, ela veio muito cedo para Lisboa, ainda criança, onde cresceu a ouvir cantar o fado em casa de uma família muito religiosa, tão religiosa e crente em Deus que, quando ela chegou à pré-adolescência, decidiu inscrevê-la como aluna interna num convento, devido também ao seu espirito vivo e muito irrequieto.

Diz um dos seus biógrafos que «o fundo religioso da sua educação, um certo misticismo próprio da sua maneira de ser, combinados com a sua sentimentalidade e sensualidade, deram o fado». A endiabrada e deslumbrante Maria Vitória tinha tanto de rebelde como de inteligente, pelo que absorveu todos os ensinamentos recolhidos no convento, tendo sido pena que o seu espírito irrequieto a levasse a fugir de lá, não completando por esse motivo a sua educação.
Aliado a uma acutilante e assertiva inteligência, ela tinha uns brilhantes olhos negros que iluminavam o seu rosto moreno de uma estranha luz que encantava quem com ela convivia. Encanto esse que ganhava maior expressão quando cantava, o que começou a fazer em público nas feiras e arraiais de Lisboa mal fugiu do internato. Aí foi ganhando popularidade mas perdendo saúde, na boémia e na estúrdia, sendo cedo contaminada pelos genes das enfermidades que haveriam de a atormentar.

Um dia apareceu a cantar na taberna “Flor da Boémia”, que havia na castiça travessa da Espera, em pleno coração do Bairro Alto, de que era dono um tal Joaquim Rato, que viria a ser um dos seus grandes amores. Mas Maria Vitória não era de amores muito duradouros, tendo formado à sua volta uma roda de jovens galãs, todos eles boémios notívagos, apaixonadamente rendidos àquela graciosa e simpática morena de olhos negros, sonhadores, cheios de misticismo e de uma sentimentalidade sensual que aumentavam a sua estranha beleza.

E o que é curioso é que também as mulheres tinham por ela uma extraordinária simpatia, dispensando-lhe os mais rasgados elogios enquanto ser humano e os mais frenéticos aplausos enquanto artista, visível nas suas atuações. O sucesso alcançado nas feiras, verbenas e tabernas de Lisboa, acabaria naturalmente por levar Maria Vitória para os palcos do teatro de revista, onde o fado sempre ocupou um lugar de eleição. Mas não foi apenas como fadista que ela trinfou, se bem que não tenha sido propriamente uma grande actriz.

A sua estreia na revista aconteceu em 1908, no Casino de Santos, e já nessa altura representava com alguma desenvoltura papéis de características populares. Esteve depois nos palcos do Salão Fantástico e do Teatro da Rua do Condes, à porta do qual, por uma questão de ciúmes, se atirou à pancada a uma outra actriz, também vinda do fado (se bem que não fosse tão fadista quanto ela, nem tivesse alcançasse o nome glorioso que ela alcançou no teatro).

Luís Galhardo, notável homem de teatro, empresário e autor, foi quem melhor soube aproveitar os talentos de Maria Vitória, principalmente na revista “O 31”, no Teatro Avenida, em Lisboa, onde ela interpretou os principais papéis das rábulas “Estúrdia”, “Fado do 31, “Dueto dos Apaches” e “Alzira Fadista”, entre outros números de sucesso.

O poeta e escritor teatral Pereira Coelho (um dos autores da revista “O 31” e de outras peças, como “Ó da Guarda!” e “Sol e Dó”, em que a atcriz-fadista também brilhou em grande plano) escreveu para ela inúmeros fados, entre os quais, surge esta quadra que, segundo relatos da época, ela cantava divinamente: «P’ra se cantar bem o Fado / Não é preciso talento / É preciso ser chorado / P’ró cantar com sentimento!»

Com o seu feitio irrequieto, Maria Vitória só estava bem aonde não estava, vivendo a vida sem cedências nem cuidados com a sua frágil saúde. E um dia, muito atacada pela tuberculose, recolheu de urgência ao Sanatório do Caramulo, de onde também acabaria por fugir ainda não completamente curada, voltando para uma nova produção no teatro de revista.

Até que, no dia 30 de abril de 1915, com apenas 27 anos de idade, a infeliz atriz-fadista de voz cavada e triste tombou definitivamente nas garras da maldita doença, falecendo na sua própria casa. Esteve sete anos no teatro, mas esse curto espaço de tempo chegou para que granjeasse um nome que perdura na história no nosso teatro e na fachada do único teatrinho ainda em funcionamento no Parque Mayer.
O conhecido poeta Júlio Guimarães, um dos autores do livro “Sabor do Fado” e um dos mais respeitados letristas da chamada canção nacional, recordou-a muitos anos após a sua morte, contando que, por ter morada no mesmo prédio onde ela também morava, ia muito a casa dela, quando [ele] tinha apenas doze anos de idade.

Maria Vitória brincava muito com ele e um dia ofereceu-lhe um cigarro (imaginem!...). O primeiro que ele fumou, e a verdade é que nunca mais deixou de fumar, «não por se sentir escravo do vício, mas porque esse gesto de todos os dias [o] ajuda a recordar uma das nossas maiores fadistas de sempre», que, não sendo uma actriz extraordinária, foi sem dúvida nenhuma uma das mais marcantes personagens do nosso teatro de revista.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Novembro. 27

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