BANCADA DIRECTA: “Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

“Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.

O “Teatro no Bancada Directa” apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”.
Hoje vem à nossa memória a figura de Gilberto Gonçalves.
Um grande nome do teatro das relações do Ralas, do Vinas, do Selvas e do Jaças. Era a Guilherme Cossoul dos bons velhos tempos…Ali na Madragôa

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

GILBERTO GONÇALVES

Gigi foi o seu "petit nom".

Era assim que o tratavam Ralas (Raul Solnado), Vinas (José Viana), Selvas (Varela Silva) e Jaças (Jacinto Ramos), quatro dos seus amigos e camaradas do grupo de teatro da Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, popular colectividade de intervenção cultural e cívica de Lisboa que, para além de alfabetizar cidadãos e de prestar ensinamentos sobre os mais diversos ofícios, formou actores, encenadores, dramaturgos, cenógrafos e técnicos de cena, faceta que lhe valeu o título de “Conservatório da Esperança” durante as décadas de 1940/60.

Foi lá que estes cinco amigos despontaram para o teatro, sendo Gigi considerado na altura pelos próprios como o melhor de todos eles, pela sua comicidade, pelo seu sentido perfeito dos tempos, pela sua excelente verve dramática e pela humanidade que transparecia em cena.

Ainda muito novo e com um enorme talento, Gilberto Gonçalves, que era apontado como uma grande promessa, foi aconselhado por insignes actores da época a frequentar o Curso de Teatro do Conservatório Nacional. Ficou por lá até ao exame final. Saiu exactamente nessa altura, quando o proibiram de representar o texto escolhido, por razões políticas.
De orgulho ferido, atingido na sua dignidade moral e consciência política, decidiu virar as costas à grande paixão pelo teatro e foi trabalhar para o Arsenal do Alfeite, em Almada. O trabalho braçal era coisa que conhecia desde os quinze anos e não havia emprego que considerasse menos digno, regressando por assim dizer às suas origens de operário. Só voltou de novo aos palcos em 1968, já com 46 anos, a convite do seu amigo Raul Solnado, quando este construiu o Teatro Villaret.

Foi um regresso muito saudado pelos amigos, que o acolheram com uma comovente salva de palmas aquando da estreia de “Querida Mulatinha” de François Campaux, espectáculo que esteve em cena durante largos meses com lotações esgotadas no Teatro Villaret, depois uma primeira série de apresentações no Teatro São João, no Porto, onde Gilberto Gonçalves comprovou que quem sabe nunca esquece, embora denotasse um certo e compreensível nervosismo apenas comum nos estreantes.

Aquela peça, protagonizada pela prestigiada actriz brasileira Iolanda Braga, que colocava em confronto o mundo primitivo e o mundo urbano, o choque de valores entre ambos e o deslumbramento recíproco, com uma rodada de sorte para bem de todos os males, marcou uma grande reviravolta na vida do actor que um dia escolheu ser operário.
O PARQUE de Botho Strauss.. Tradução Alberto Pimenta. Encenação Stephan Stroux.
Director de cena Luis Miguel Cintra . Gilberto Gonçalves interpretou o papel de Oberon/Secundino. Lisboa: Teatro do Bairro Alto. Estreia: 08/01/1985. 47 representações. Companhia subsidiada pelo Ministério da Cultura . Espectáculo com o apoio especial do Instituto Alemão em Portugal
 
A partir daí, o actor percorreu inúmeras companhias e grupos de teatro, prestou colaboração quase ininterrupta na rádio até aos anos 1980, deu o seu notável contributo em diversos programas de televisão e desenvolveu um interessante trabalho no cinema.

Dos filmes em que participou o destaque vai naturalmente para “O Convento” do veterano Manoel de Oliveira, onde contracenou com Catherine Deneuve, John Malkovich e Luís Miguel Cintra, actor por quem nutria uma profunda admiração desde que o viu pela primeira vez em cena nos primórdios do Teatro da Cornucópia, grupo que tinha o secreto desejo de vir a integrar como actor residente.

Foi, por isso, que recebeu com um grande e indisfarçável regozijo esse convite, decorria o ano de 1976. O facto de se integrar, a seguir à Revolução de Abril, num grupo de gente mais nova e num projeto que passou a defender como inovador, profissional e de esquerda, parecia que o compensava da sua precocemente interrompida carreira de actor.


SIMPATIA. Escola de Dramaturgia de Florença dirigida por Eduardo De Filippo

Tradução e encenação Luis Miguel Cintra . O actor Gilberto Gonçalves interrpretou o papel de Salvador, o guarda-livros.. Lisboa:Teatro do Bairro Alto. Estreia: 06/07/1984. 66 representações. Companhia subsidiada pelo Ministério da Cultura

No Teatro da Cornucópia, Gilberto Gonçalves começou por fazer o Juiz de “Ah Q” de Jean Jourdheuil e Bernard Chartreux, a que se seguiram as mais diversas personagens em trinta e oito espectáculos, de que recordamos como as mais bem conseguidas e felizes o seu guarda-livros Salvador de “Simpatia” de Eduardo de Filippo, o ator de “Catástrofe” de Samuel Beckett, o filósofo de “À Saída” de Pirandello, a consciência política de “Mauser” de Heiner Müller ou o criado de “O Público” de Federico García Lorca.

Há vinte e um anos, numa tarde de 1993, quando ensaiava “A Mula, o Clérigo, o Alfaiate e Outras Lamentações”, a partir de textos dramáticos do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, um pequeno espectáculo muito bem cuidado e destinado ao público escolar, por sinal o género de projecto que o entusiasmava, defensor que era de um teatro entendido como serviço público, Gilberto Gonçalves parou bruscamente o ensaio, após alguns lapsos de memória, e disse: «Desculpem meus amigos, eu vou para casa. Já não consigo».

Foi nessa tarde, e com a mesma discrição e o mesmo profissionalismo de sempre, um respeito e um amor pelo teatro pouco vulgar entre nós, que decidiu que já não estava à altura das exigências profissionais e que a sua carreira de actor acabava ali. Gilberto Gonçalves, o Gigi, nunca mais fez teatro. Continuou a marcar presença em todas as estreias da Cornucópia, escondendo uma ferida muito grande, um grande desgosto de envelhecer, abraçando sempre Luís Miguel Cintra de lágrimas nos olhos. A partir de 2008 deixou de aparecer.
Por estas instalações da Marinha, Gilberto Gonçalves desenvolveu a sua vida como operário

A 20 de agosto de 2012, com 91 anos, deixou-nos. «O meu pai amava o teatro com toda a paixão, e os actores mais novos reconheciam-no como um actor de muita experiência e sempre pronto a passar os seus conhecimentos de uma forma desinteressada», disse o filho na hora da despedida. Uma grande verdade

Salvador Santos .
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Outubro 12

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