BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”. Rubrica semanal de Salvador Santos e, hoje nela, recorda a figura do grande comediante Henrique Santana. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

“No Palco da Saudade”. Rubrica semanal de Salvador Santos e, hoje nela, recorda a figura do grande comediante Henrique Santana. É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”.
Rubrica semanal de Salvador Santos e, hoje nela, recorda a figura do grande comediante Henrique Santana.
É o Teatro no Bancada Directa

“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Naciconal de São João. Porto)

HENRIQUE SANTANA
O teatro de revista e a comédia ligeira não tinham segredos para ele, que escreveu, encenou, representou e produziu alguns dos melhores espectáculos do género na segunda metade do século XX.

Filho do actor Vasco Santana e da actriz Arminda Martins, sobrinho dos consagrados autores José e Luís Galhardo, neto do mestre de carpintaria teatral Henrique Santana, foi no Teatro Éden, na oficina do avô que se deixou apaixonar pelos mistérios do teatro, tinha oito anos.

O seu destino seria inevitavelmente o espectáculo, tendo-se estreado como actor quando atingiu a maioridade apesar de alguma resistência dos pais, ao mesmo tempo que se iniciava na escrita dramatúrgica, faceta essa que resultou em mais de meia centena de textos originais e inúmeras traduções de peças estrangeiras, que foram êxito comercial nos nossos palcos.
Henrique Santana era filho de outro grande actor:Vasco Santana. É caso para dizer que filho de peixe sabe nadar".

Depois de alguns textos humorísticos curtos, que mais tarde viria a utilizar nalgumas revistas, Henrique Santana escreveu a sua primeira comédia em meados de 1957, que deu a ler a seu pai com grande receio da sua opinião. Vasco Santana, depois de ler a peça, ficou tão agradavelmente surpreendido com o humor e a desenvoltura da escrita que decidiu começar de imediato a ensaiar com ela um novo espectáculo.

E foi tão rápida a sua decisão que, dois meses após a primeira leitura da peça, a sua estreia acontecia no Teatro Monumental, com o título “Um Fantasma Chamado Isabel”. A estreia do espectáculo foi um enorme sucesso, mas quis o destino que o grande Vasco Santana fosse substituído quinze dias depois, vítima de doença de fígado, tendo morrido meses depois de colapso cardíaco quando convalescia de uma intervenção cirúrgica.
Antes da sua estreia como dramaturgo, Henrique Santana tinha já feito o seu baptismo como actor, em 1948, na peça “O Melhor do Mundo”, a que se seguiram as comédias “Luta Livre, o Campeão” e “Do Céu Caiu Uma Velha”, para a empresa de Piero Bernardon. Por sua iniciativa, seria então criada poucos anos depois a Companhia Vasco Santana, por si dirigida, onde acumulava diversas funções, entre as quais a de diretor de montagem, que viria a transformar numa das mais bem-sucedidas empresas teatrais do início da década de 1950.

São de produção dessa companhia os populares espectáculos “O Conde Barão” e “O Caso Barton”, onde trabalhou pela primeira vez com a filha de Maria Matos, a também actriz e encenadora Maria Helena Matos, por quem se apaixonou e com quem viveu uma linda história de amor até ao fim dos seus dias. Após a morte de seu pai, Henrique Santana explorou cada vez mais os seus dotes de dramaturgo, assinando a autoria de muitas peças, algumas delas em parceria com Ribeirinho, como foi o caso da comédia “Três Em Lua de Mel”, que registou um sucesso extraordinário em 1961, numa produção da Companhia de Teatro Alegre, que fundou com sua mulher.

Esta peça proporcionou ao actor a sua maior digressão de sempre, entre as muitas que organizou, levando-o a quase todas as cidades do continente português, aos arquipélagos dos Açores e da Madeira e às antigas colónias de Angola e Moçambique, empreendimento que entendia ser dever de todas as companhias teatrais. Este grande sucesso popular foi também a porta de entrada de Henrique Santana na RTP, que surgira poucos anos antes.
Outro grande êxito de Henrique Santana: a peça "Aqui Há Fantasmas"

Entre esta e outras peças e os mais diversos programas de humor produzidos para a estação pública, em que participou como actor e autor, destaca-se naturalmente a transposição para o pequeno ecrã de outros dois grandes êxitos que são recorrentemente recordados no Canal RTP Memória. Referimo-nos às comédias “Aqui Há Fantasmas” e “O Gato”, ambas por ele protagonizadas, que são o melhor exemplo da sua comicidade e capacidade criativa, entretanto evidenciadas no teatro de revista onde se estreou como autor em 1960 com “Acerta o Passo”.

O teatro de revista foi, aliás, o género em que Henrique Santana mais se envolveu na recta final da sua carreira, de que destacamos quatro espectáculos entre as dezenas em que participou como actor e autor. Um deles estreou com um título e de um dia para o outro passou a designar-se de forma diferente.

Referimo-nos a “Ver, Ouvir e Calar”, que estava em cena na noite de 24 de Abril de 1974, quando a rádio emitiu a canção de Zeca Afonso que foi sinal para o arranque da mudança que o país há muito esperava. Nesse momento, um pesadelo que durava há quase meio século iria acabar, enquanto nascia e tomava forma o sonho de uma Pátria livre da opressão e do medo. E, de um dia para o outro, aquela revista passaria a chamar-se “Ver, Ouvir e… Falar”.
Uma foto para a posteridade: pai e filho

Os outros três espectáculos que elegemos com as melhores criações de Henrique Santana no teatro de revista são “Até Parece Mentira”, “Força, Força, Camarada Zé” (onde interpretou a excelente rábula “A Visita da Velha Senhora”, que não era senão uma velha autoritária e agressiva que dava pelo nome de Dona Reação…) e “Não Há Nada Para Ninguém”, que esgotaram lotações durante largos meses no Teatro Maria Vitória.

Em 1993, escreveu um livro dedicado a seu pai, chamado “A Gaveta dos Manguitos”, onde, com muito humor e mal dizer, contou histórias da sua vida; vida que seria bruscamente interrompida, aos 71 anos, em 1 de Julho de 1995, um ano depois de ter sido agraciado pelo Presidente da República com a Ordem de Sant’Iago da Espada.

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. 10. 21

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