BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”, rubrica semanal de Salvador Santos e nela recorda os grandes nomes do nosso Teatro. Hoje fala-se de Paulo Eduardo Carvalho. E o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

“No Palco da Saudade”, rubrica semanal de Salvador Santos e nela recorda os grandes nomes do nosso Teatro. Hoje fala-se de Paulo Eduardo Carvalho. E o Teatro no Bancada Directa

 “No Palco da Saudade”, rubrica semanal de Salvador Santos e nela recorda os grandes nomes do nosso Teatro. 
Hoje fala-se de Paulo Eduardo Carvalho. 
E o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 PAULO EDUARDO CARVALHO 

Foi professor auxiliar da Faculdade de Letras do Porto, membro integrado do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da Universidade do Porto (UP) e colaborador do Centro de Estudos de Teatro (Universidade de Lisboa) e do Centre for English Translation and Anglo-Portuguese Studies (UP). 

Publicou diversos artigos em revistas nacionais e estrangeiras nos domínios dos Estudos de Teatro, dos Estudos de Tradução e dos Estudos Irlandeses, tendo participado na organização de diferentes reuniões científicas nessas mesmas áreas. 

No plano prático, prestou colaboração em diferentes companhias, assegurando a tradução e dramaturgia (e até a encenação) de diversos dramaturgos contemporâneos de língua inglesa, tais como Tom Murphy ou Caryl Churchill, Athol Fugard, Frank McGuinness e Martin Crimp, entre muitos outros. 
Ao longo dos últimos vinte anos, foram mais de quarenta as produções teatrais que se montaram a partir de textos que Paulo Eduardo Carvalho verteu para a nossa língua, alguns dos quais introduzidos por si pela primeira vez nos palcos portugueses, nos corpos e vozes dos nossos atores, nas nossas companhias, insertos em várias publicações e discutidos em inúmeros estudos e leituras. 

Na cidade do Porto, onde ajudou a criar a ASSÉDIO-Associação de Ideias Obscuras, desenvolveu um intenso e profícuo trabalho de reflexão crítica sobre a realidade teatral local, ao mesmo tempo que produzia um inestimável trabalho de aprofundamento da matéria cénica em jornais e revistas, sendo por isso de estranhar que o seu nome não seja hoje mais reconhecido. 

Da obra de reflexão teórica e crítica de Paulo Eduardo Carvalho, destaca-se naturalmente o trabalho que desenvolveu como membro do Conselho Redatorial da revista “Sinais de Cena”, da Direção da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro e do Comité Executivo da congénere internacional daquele organismo, onde foi, entre 2007 e 2009, responsável pela direção de Seminários. 

2001. PROBLEMAS. Construído a partir de textos dramáticos de  prosa e poesia de  HAROLD PINTER. Estreia: Armazém do Ferro / Agosto. Outras apresentações: Les Bernardines, Théâtre Merlin, Minoterie.  Marselha, França / Setembro  Tradução Paulo Eduardo de Carvalho. Guião Cão Solteiro. Encenação e Cenografia Nuno Carinhas.Figurinos Mariana Sá Nogueira. Desenho e Luz Carlos Assis. Fotografia Susana Paiva.Grafismo Paulo Reis. Actores Marcello Urgeghe, Miguel Loureiro, Paula Sá Nogueira

É de realçar ainda a publicação de “Identidades Reescritas-Figurações da Irlanda no Teatro Português” (Edições Afrontamento, 2009), livro que retoma a tese de dissertação de doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da UP e propõe uma caracterização da presença da dramaturgia irlandesa na dinâmica da criação teatral portuguesa dos últimos 50 anos. 

A partir de 1997, Paulo Eduardo Carvalho passou a colaborar regularmente com Teatro Nacional São João (TNSJ), sobretudo nos domínios da produção de textos de reflexão, críticas e entrevistas para a documentação de apoio aos espetáculos levados a cena por aquela estrutura pública de criação e difusão das artes de palco. 

Paralelamente foi coordenando diversas iniciativas complementares ao trabalho de cena, nomeadamente debates e conferências sobre as temáticas, épocas e autores transpostos para cena no âmbito da programação do TNSJ. Dessa relação resultou ainda a monografia, editada em 2006, “Ricardo Pais-Actos e Variedades”, que se debruça sobre o percurso profissional do então diretor artístico e administrador do Nacional do Porto. 
A colaboração de Paulo Eduardo Carvalho estendeu-se a muitas companhias e encenadores, mas terá sido para o Teatro Carlos Alberto e para o encenador Nuno Carinhas que assinou um dos trabalhos que mais prazer lhe terá dado: a tradução dos dramatículos de Samuel Beckett “Ir e Vir”, “Um Fragmento de Monólogo”, “Baloiço” e “Eu Não”, reunidos num espetáculo com o título genérico “Todos Os Que Falam”, apresentado também com grande sucesso em diversos outros palcos portugueses e em Bucareste. 

No seu último ano de vida, intensificou e diversificou ainda mais a sua plural dedicação ao teatro, tendo encenado pela primeira vez um espetáculo, a que chamou “Cartas Íntimas”, com texto de Brian Friel, um dos primeiros autores que traduziu. 

No dia em que Paulo Eduardo Carvalho morreu, engolido pelo mar no final da tarde de 20 de maio de 2010, quando tomava banho na praia do Cabo do Mundo, em Leça da Palmeira, estavam em cena dois espectáculos de teatro com traduções suas. 
Teatro Nacional de São João. Porto

Um deles era “A Rainha da Beleza de Leenane”, de Martin McDonagh, pelo Teatro Meridional, em Lisboa; o outro era “A Nova Ordem Mundial”, um curto texto de Harold Pinter, que os Artistas Unidos integraram num espetáculo duplo, com “Comemoração”, do mesmo autor (tradução de José Maria Vieira Mendes), que se apresentou em Aveiro, Guarda, Ponte de Sor e Lisboa. Dias depois estreava no Porto a sua tradução de “As Mulheres Profundas/Animais Superficiais” de Howard Barker. 

Grande parte do espólio de Paulo Eduardo Carvalho encontra-se hoje depositado no Centro de Documentação do TNSJ, situado no Mosteiro de São Bento da Vitória, disponível para consulta, através do qual se pode testemunhar o excelente trabalho por ele realizado, desde as traduções e as críticas de teatro até ao seu exercício académico. 

Maria Helena Serôdio, presidente da Associação Portuguesa de Críticos e orientadora da sua tese de doutoramento, classificou-o após a sua morte como «uma pessoa rara e de grande sensibilidade». 

Por seu turno, Rui Pina Coelho, professor universitário e crítico de teatro, afirmou que «havia um rigor e uma exigência de qualidade inexcedíveis em tudo o fazia». Nós recordamo-lo como um ser generoso e exemplar no seu trabalho. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Outubro. 08

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