BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”. Rubrica de Salvador Santos para recordar as grandes figuras do Teatro que já desapareceram do nosso convivio. Hoje recorda-se José Cayola. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

“No Palco da Saudade”. Rubrica de Salvador Santos para recordar as grandes figuras do Teatro que já desapareceram do nosso convivio. Hoje recorda-se José Cayola. É o Teatro no Bancada Directa

 “No Palco da Saudade”. 
Rubrica de Salvador Santos para recordar as grandes figuras do Teatro que já desapareceram do nosso convivio. 
Hoje recorda-se José Cayola. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto)

JOSÉ CAYOLLA 

No período que se seguiu à Revolução de Abril ele foi um dos guardiões do Teatro de Arte no Porto, primeiro pelo seu combate pela mudança de paradigmas na relação da cena com os públicos e depois enquanto responsável pelo antigo ANCA-Auditório Nacional Carlos Alberto, onde acolheu e suscitou a criação de algumas das propostas cénicas mais arrojadas e inovadoras desse tempo, numa altura em os velhos Rivoli e São João estavam quase completamente afastados das artes de palco. 

Antes disso ele tinha sido um dos espíritos mais inconformados com os caminhos traçados pelo teatro em Portugal nos últimos anos da ditadura salazarista, juntando a sua voz a um imenso coro de gente das artes que se batia por uma cultura livre e independente. 
"O Principe Feliz" Conto de Oscar Willde que foi o primeiro trabalho de encenação de José Cayolla para o Teatro Experimental do Porto, sob a direcção de Antonio Pedro

A iniciação de José Cayolla à Arte de Talma ocorreu nos finais da década de 1950, ao inscrever-se na escola de teatro do Teatro Experimental do Porto (TEP), que tinha como diretor o Mestre António Pedro, coadjuvado por Augusto Gomes, que cedo detetaram as qualidades do jovem aluno para os exigentes encargos inerentes à função de encenador, confirmadas logo no primeiro desafio a que o submeteram com a encenação de “O Príncipe Infeliz”, um conto de Oscar Wilde que ele próprio adaptou para teatro. 

Não se saiu nada mal o jovem, que mereceu os elogios de um dos críticos do Jornal de Notícias e de António Pedro, que o convidaria no ano seguinte para seu assistente numa das suas várias remontagens de “A Gota de Mel” de Léon Chancerel. A formação de José Cayolla seria completada na The Bristol Old Vic Theatre School, de Londres, uma das mais conceituadas escolas de teatro do mundo, como bolseiro da Fundação Gulbenkian. 

Interior da sala de representações do "The Bristol Old Vic Theatre School of London", por onde José Cayolla debutou

Na estadia inglesa, entre 1962 e 1964, para além de ter frequentado o curso de encenação daquela escola, onde dirigiu com distinção a peça de Garcia Lorca “Yerma”, estudou também na British Drama League orientado por William Gaskil, deu assistência a este encenador na formação de atores da Royal Shakespeare Company e do National Theatre e prestou colaboração na BBC, tendo sido ainda convidado para assistente de Gaskil no seu Laboratório Teatral em Londres, convite que foi forçado a declinar devido ao indeferimento da renovação da sua bolsa. 

De regresso a Portugal, ao Porto e a Matosinhos, onde nasceu e onde o esperavam a mulher e três filhos, José Cayolla foi olhado como um estrangeirado, um tipo pretensioso que se julgava muito importante por ter estudado em Londres. 

Mas apesar de olhado por despeito não desistiu dos seus propósitos de aplicar por cá os métodos aprendidos na Old Vic. Tentou por duas vezes criar o embrião de uma escola, primeiro no grupo de teatro Os Modestos e depois no TEP, mas sem sucesso. 

E só ao fim de muito porfiar lá conseguiu montar dois espetáculos no Porto: a ópera “Dido e Eneias” de Henry Purcell, com a Juventude Musical Portuense, e o auto “Da Arte de Bem Governar” de John Arden, levado a cena por um conjunto de atores amadores sob a égide do TEP. Mas isto era muito pouco para quem queria e merecia muito mais. 

Depois de ver o seu caminho praticamente barrado no teatro, José Cayolla optou então por procurar um emprego estável como tradutor e correspondente comercial de inglês, não deixando porém de contribuir para o crescimento das artes de palco no nosso país através de um notável trabalho junto dos grupos amadores. Montou peças e deu de formação n’ Os Plebeus Avintenses, no Teatro Universitário do Porto, na Associação Aurora da Liberdade, no Grupo Cultural Clara de Resende, entre muitas outras instituições. 

Entretanto, colaborou com a Rádio Comercial, assinando uma rubrica de crítica teatral, e desenvolveu um interessante trabalho de divulgação junto das escolas. Do seu TEP, uma das paixões da sua vida, vieram finalmente os primeiros convites. “A Peliça”, uma adaptação de O Capote de Gogol, marcou o arranque de uma relação conturbada, cheia de interregnos, de mal entendidos e de muitas incompreensões com grupo órfão de António Pedro, que levaram José Cayolla depois à encenação de espetáculos como “Woyzeck” de Georg Buckner, “Os Preços” de Jaime Salazar Sampaio ou “A Agonia do Defunto” de Esteban Navajas Cortés, entre muitos outros. 

Entretanto, envolve-se, em representação do TEP, no combate pela descentralização teatral no nosso país e integra o núcleo fundador do FITEI-Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, ao lado de Júlio Cardoso, António Reis e Estrela Novais. 
Café Majestic no Porto. Local onde José Cayolla encenou e apresentou um monólogo retirado da peça de Jonatham Swift "Os Preceitos". 1996

Sempre na primeira linha de combate por uma maior expressão do teatro a norte do país, José Cayolla esteve envolvido nos mais diversos fóruns de intervenção política, cultural e cívica, batendo-se nomeadamente por um apoio estruturante e sustentado aos grupos independentes, contra a venda do Rivoli a privados, pela transformação do Teatro São João em equipamento de serviço público e pela instalação de uma delegação do Ministério da Cultura no Porto, não deixando nunca de participar ativamente na criação de espetáculos. 

No final de 1996 encenou um monólogo retirado da peça “Os Preceitos” de Jonathan Swift, apresentado com alguma polémica no Café Majestic, que constituiu o seu último trabalho como encenador. Entretanto, em 1988, havia sido nomeado diretor do ANCA, cargo que manteria até à sua morte, ocorrida em 1998. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Setembro. 29

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