BANCADA DIRECTA: “Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho da Detective Jeremias (made in Santarém).

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

“Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena. Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho da Detective Jeremias (made in Santarém).

“Histórias do Noninoni”.
Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena.
Hoje apresentamos aos nossos leitores o trabalho da Detective Jeremias (made in Santarém).

1º EPISÓDIO
Detective Jeremias
Ao fim da noite, o mais letrado dos dois afirmou: Isto é tudo pessoal do norte, carago! O coro de vaias habitual sempre que esta boca era atirada para o ar na Leitaria do Sousa desta vez nem se chegou a ouvir. O quase silêncio do fim de noite era, naquele instante, rasgado pelo som ensurdecedor das sirenes.

Tudo se desenrolou num ápice. A meia dúzia de clientes precipitou-se para a porta, com as pernas entarameladas por causas das imperiais e do vinho verde, que a Leitaria do Sousa de leitaria nada tem. Depois, junto à beira do passeio, pararam todos lado a lado, os corpos curiosos ligeiramente inclinados para a frente arregalaram os olhos e as bocas, num desempenho digno de um grupo profissional de natação sincronizada.
Lisboa. O bairro do Alto do Pina em todo o seu esplendor.  À esquerda temos a fabulosa Rua Moraes Soares e ao lado a tipica Rua Barão de Sabrosa, a espinha dorsal do bairro. Perto, muito perto mesmo, está a Rua do Sol a Chelas e a Praça Paiva Couceiro. Por aqui brincou na sua infância o ora desaparecido Detective Tempicos.

A cada micro segundo o som ganhava intensidade e as luzes intermitentes azuladas iam ficando mais perto. Passou uma viatura da Polícia, não, duas viaturas. Esperem, afinal são três no total. A primeira sem um farol dianteiro, a segunda com o pirilampo fundido e a terceira com o noninoni asmático. Adivinhava-se bronca. E da grossa. De manhã o fogo e à noite sabe-se lá o quê.

Nunca aquela rua do Alto do Pina vivera um dia tão intenso. Muito superior ao episódio de tentativa assalto do Tópê Agarrado, que ameaçou o Senhor Armando da Farmácia com as agulhas de tricot da avó. Os três carros travaram a fundo, os agentes saíram a correr de arma em punho como nos filmes americanos. As persianas abriam-se sem timidez e as janelas e as varandas bem iluminadas encheram-se de mirones temerários, ávidos de notícias em directo e em tempo real.
Lisboa. Fonte Luminosa. Ninfa de Pedra (Tágide do Tejo) referida no texto da detective scalabitana
Os nossos dois amigos, escaldados pelo desdém com que foram tratados no incidente do fogo, comentaram entre eles, à boca pequena: “Se aparecerem por aqui os gajos da TIC, nem um pio”. O mais letrado ainda acrescentou: “Por mim podem ir sacar informações à ninfa de pedra da Fonte Luminosa”, depois, para rematar, afirmaram em uníssono: − Ó, Yé!

Mas da TIC nem sinal. O Conselho de Ministros extra-extraordinário reunido desde 5ª feira,− mais de 24 horas, um record nunca visto − absorvera todos os repórteres que revezavam esperas, agastamentos e irritações na Gomes Teixeira, obrigando as reportagens de cacaracá do Alto do Pina a ficar para trás. Que acontecimento terrível motivara aquele inusitado aparato policial?
Estamos de acordo que a Leitaria Sousa tinha ar de ser mais uma taberna do que uma leitaria. Mas tinha uma certa dignidade, pois quando serviam cervejas ou vinho verde não era tremoços ou amendoins que  acompanhavam as libações mas sim línguas de gato.

Tudo se soube em menos de um nada. Arlete, aos guinchos histriónicos, correu na direcção do agente mais espadaúdo e, com uma mudança súbita de decibéis, lamuriou-se, mas num tom suficientemente alto para ser ouvido pela vizinhança: “Levaram o meu Lobão do Mar e o carro daqui mesmo do pé da porta! E deixaram um pedido de regaste! Chegaram tão depressa … quem vos avisou?”

A bem do rigor e da verdade dos factos, convém aqui esclarecer que 90% dos mirones femininos e masculinos nem compreendeu à primeira as palavras da menina Arlete, por estar mais empenhando em observar, uns a sua minúscula lingerie, e outros as extensas zonas deixadas a descoberto.

Um zumbido sussurrado percorreu a rua: “O Almirante foi vítima de carjacking….” Todos lhe conheciam o Mini vintage de 1975, de cor galão claro e estofos de napa castanha com que se deslocava todas as semanas a casa da amante, num ritual marcado pela pontualidade britânica.

O amigo mais intelectual atirou para o outro entre dentes; “Cheira aqui a esturro… o homem já cá tinha estado hoje e duvido que aguente duas sessões no mesmo dia… carago!”. O outro, o mais novo, semicerrou os olhos piscos de tanta emoção e declarou com ar conspirativo: “É verdade, é verdade o General hoje já cá veio… aposto meio pacote d’enrolar como ainda vamos ser nós a descobrir est’ imbróglio…

Detective Jeremias
Santarém



A autora deste eepisódio





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