BANCADA DIRECTA: “Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

“Histórias do Noninoni”. Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos. É uma coordenação de A. Raposo e Lena.

“Histórias do Noninoni”.
Uma novela colectiva de varios escritores policiais cujo “metier literário” é descobrir autores de crimes e outras especies de ilicitos.
É uma coordenação de A. Raposo e Lena.

“Historias do Noninoni”
Episódio zero (0)
Autores: A Raposo e Lena
A equipa da TIC tentava desembaraçar-se do trânsito para chegar ao incêndio antes dos bombeiros. Era fundamental filmar as labaredas e a fumaça antes da chegada dos Voluntários.

Se chegassem antes tinham reportagem, se fossem os bombeiros era como se lhes tirassem o pão da boca. À noite a TIC teria uma bela reportagem ou um mijarete. Se fosse na Roma antiga e no tempo de Nero, teriam reportagem pela noite fora, acontece que naquele tempo ainda não havia a TIC , muito menos a cores!

O chefe repórter da TIC resmungava: Fogo sem labaredas não é espectáculo. Fumaça só faz arder os olhos. Explicações dadas por quem assistiu são uma fraca ajuda.

Assim se constrói um telejornal. Um corrupio de desastres naturais, com um ou outro assassinato, um salpico de rapto de criança. Uma inundação num lar de velhos, uma rixa de ciganos, com sangue à vista, uma “boca” de político e o ramalhete está completo. O telejornal pronto, no ponto. É só servir à hora de jantar. Acontece que a equipa da TIC estava com azar naquele dia.
Nem foram os bombeiros que estragaram o espectáculo. Eu explico: O incêndio fora num prédio antigo de dois pisos. Soalhos de madeira, tabiques de tabuinhas, sem placas de cimento. Resultado: em menos de um fósforo ardera tudo, caira o telhado e as paredes.

As chamas fortes rapidamente perderam a chama e não havia nada para filmar. Desesperado o operador de imagem olhava a cena estarrecido enquanto o repórter de microfone na mão amaldiçoava a sua sorte.

Os dois homens vencidos pelos acontecimentos olhavam encostados ao prédio em frente. Iriam ouvir um raspanete do chefe, quando regressassem ao estúdio. Porém, perto deles, ali a dois metros dois paisanos discutiam o caso.
Dizia um: - Se o cego não fosse ao colo do coxo talvez se safasse! Afirmou o outro, talvez mais intelectual: - Já dizia Ortega y Gasset “o homem é ele e a circunstância”.
O repórter arrebitou as orelhas – havia ali assunto. Voltou-se para os dois paisanos e perguntou:
- Os senhores assistiram ao fogo?
-Assistimos a tudo: disse o mais novo, peremptório. Ao repórter voltaram-lhe as cores às faces.

- Então os amigos – insistiu o repórter – podem contar realmente o que se passou?
- Ó, Yé! – Afirmaram em uníssono. Então vamos simular a coisa, os amigos ficam de costas para os destroços e contam-nos de forma breve o que se passou. É só dizer; “Claquete”, como se faz no cinema.
- Claquete – gritou o operador de imagem, deitando fora a pirisca e disparando a máquina.
- Pois nós dois vínhamos do trabalho e ao aqui chegar vimos fumo a sair de uma janela, depois chamas e o pessoal residente a sair aos repelões.
Homens, mulheres e crianças. Um espectáculo! À frente, a correr sabe Deus como vinha o coxo com o cego ao colo. O cego já tinha o cajado a arder. Lá foram – direitinhos ao lago do jardim aqui em frente.

Chegados lá atiraram-se ao lago. O azar deles é que não havia nadador salvador e o cego não tinha pé ou estava ajoelhado, a rezar, quem sabe. Quando chegou o Sr. Armando da Farmácia, já de fato de banho e boia ao pescoço era tarde. O cego boiava
– ainda de óculos escuros e bengala na mão. Porque eu acho que ele ainda via qualquer coisinha. Interrompe o repórter: então o cego era amblíope!
- Sim, sim, ele era ali ao pé de Braga (disse o paisano intelectual) Ele só gostava de vinho verde! Deve ser de Amblíope.
- Adiante – conte lá o resto. Insistiu o repórter.
- Bem depois saiu o General da Marinha e logo seguido pela amante, a menina Arlete.

O general vai lá todas as sextas-feiras (é hoje) fazer o azimute. - Quer se dizer – afirmou o outro mais novo, menos intelectual, mas mais objetivo
– Pôr a escrita em dia! O repórter não deixou passar a gaffe:
- Mas, na Marinha não há Generais!
- Ai não que não há – insistiu o contador da história.
- Então quem é que manda nos barcos? Anda tudo à rédea solta? Já lhe disse que ele era General porque tinha uma farda cheia de galões. Era sim senhor general. Se insiste com essa casmurrice não conto mais nada! Vocês é que sabem tudo, contem vocês.
- Meu caro amigo não se enxofre. Bote lá um general da Marinha.
- Ah- Bom!

Com a chegada dos bombeiros tudo mudou. Uma chuva começou a sair das agulhetas, o coxo fugiu, o cego foi levado pelo INEM, ainda de óculos escuros. Os repórteres da TIC regressaram ao estúdio. À noite, no telejornal, o anúncio de fogo não foi ilustrado com imagens. Passou em rodapé numa frase seca: Fogo em Lisboa, uma casa ardeu no Alto Pina.

Os dois amigos bem esperaram pela sua preciosa colaboração. Mas nada! Ao fim da noite, o mais letrado dos dois afirmou: Isto é tudo pessoal do norte, carago!

A. Raposo e Lena



Os autores deste episódio



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