BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje a actriz Dina Teresa

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje a actriz Dina Teresa


O Teatro no Bancada Directa. 
Salvador Santos na sua rubrica “No Palco da Saudade” recorda hoje a actriz Dina Teresa 

No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

DINA TERESA 


Nascida em Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, de origens muito humildes, foi baptizada como Dina Moreira de Oliveira e entregue, aos quatro anos de idade, aos cuidados de uma senhora inglesa residente na cidade do Porto. 

Aos treze anos procurou trabalho no Teatro Águia D’Ouro, na portuense Praça da Batalha, onde se estreou muito cedo, tendo depois deambulado pelos mais diversos retiros de fado e salas de teatro, até se afirmar definitivamente como actriz de revista e fadista. 

Mas o seu maior sucesso acabaria por ser no cinema, onde aliou a sua alma fadista e os seus recursos na representação para dar vida a uma das mais míticas figuras da chamada canção nacional – A Severa –, figurando o seu nome ainda hoje entre os grandes nomes do fado, como comprova uma colectânea discográfica de quarenta e três temas recentemente editada. 

Dina Teresa nesta foto ao lado de Nascimento Rodrigues e Beatriz Costa

“Fado – Estranha Forma de Vida” é o título do disco que celebra a classificação do fado como Património Imaterial da Humanidade, reunindo a contribuição de algumas das nossas maiores vozes, desde os inesquecíveis Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues e Hermínia Silva até às vedetas da actualidade Ana Moura, Cristina Branco e Mariza, passando pela gaiense Dina Teresa, que interpreta o tema “Novo Fado da Severa”, composto pelo maestro Frederico de Freitas para o filme “A Severa”, baseado na peça teatral homónima de Júlio Dantas, com realização de Leitão de Barros, que ficou para a história da nossa cinematografia por ter sido o primeiro filme português sonorizado e ter registado um sucesso estrondoso tanto em Portugal como no Brasil. 

Quando, em 1930, Dina Teresa decidiu candidatar-se ao concurso organizado pelo jornal “Diário de Lisboa” para a escolha da protagonista daquele filme de Leitão de Barros, já o seu nome figurara no elenco de várias revistas como “O Triunfo é Paus”, “O Mexilhão”, “Areias de Portugal”, Há Festa na Mouraria” e “Arroz Doce”, mas sem grande notoriedade. 

Dina Teresa foi a protagonista do filme de Leitão de Barros "A Severa"

Foi por isso com alguma estranheza que ela recebeu a notícia de que tinha sido escolhida, entre largas centenas de candidatas, para interpretar o papel de Severa. O seu ar trigueiro, a sua voz quente e melodiosa, a sua pele morena e o seu jeito para tocar guitarra, foram algumas das razões invocadas pelo realizador para lhe dar a oportunidade de encarnar a fadista de origem cigana, prostituta e mulher de vários amores, que muito bem cantava e tocava, por muitos considerada a fundadora do fado. 

Depois de viver no cinema a carismática Maria Severa, Dina Teresa encabeçou o elenco de diversas operetas e revistas em Lisboa, como “O Canto da Cigarra”, “A Senhora da Saúde”, “Peixe Espada” e “Nobre Povo”, voltando à sétima arte para fazer “A Varanda dos Rouxinóis”, também do realizador Leitão Barros, ao lado de António Silva. 

Pelo meio, concretizou-se a primeira de muitas das suas viagens ao Brasil, dessa feita a convite de Francisco Serrador Carbonell, um empresário de origem espanhola responsável pela exploração de inúmeras salas de cinema brasileiras, para acompanhar a projecção do filme “A Severa” com shows de fado, durante uma gloriosa temporada de quatro meses, sendo entusiasticamente recebida pelo público em todas as cidades. 

 Dina Teresa e o actor e jornalista Antonio Fagim numa cena do filme "A Severa". Interpretaram os papeis de Severa e Romão

A sua chegada a São Paulo constituiu um verdadeiro fenómeno nacional, com milhares de fãs aglomerados na Praça Muã para a saudarem. E, no dia seguinte, a imprensa local dispensava um espaço generoso àquele acontecimento, dando também nota de que a gente do espectáculo preparava uma grande festa em sua homenagem. 

No Centro Português de São Paulo, repleto de artistas brasileiros e de gente da comunidade portuguesa, o actor Procópio Ferreira brindou-a com a interpretação de um monólogo em seu tributo e Dina Teresa retribuiu aquela honra com alguns fados do seu vastíssimo repertório, acompanhada pelo músico e professor de guitarra portuguesa José Cosme. 

Apesar dos imensos convites para continuar por terras do Brasil, e da sua forte vontade de permanecer por lá, esperava-a um conjunto de obrigações profissionais em Lisboa e Dina Teresa não teve outro remédio senão regressar ao seu país. Mas com a promessa de voltar! Promessa que viria a ser cumprida alguns anos depois, em meados de 1938, ao participar como atracção especial na revista à portuguesa “Arre Burro”, espectáculo onde triunfava a grande Beatriz Costa. 

Dina Teresa contracenando com Antonio Silva no filme "A Varanda dos Rouxinóis".

A sua permanência durou, porém, muito pouco tempo, porque outros compromissos e um noivo ansioso a reclamavam em Portugal. Com o seu casamento tudo mudou. Foi morar para Moçambique e os palcos foram ficando para trás, actuando por lá muito raras vezes por oposição de seu marido. 

Com o fim do casamento, Dina Teresa regressou a Portugal e participou em inúmeras revistas de sucesso em Lisboa. Até que decidiu retornar ao Brasil para umas pequenas férias. O empresário brasileiro Ferreira da Silva, ao saber da sua presença, convidou-a a integrar o elenco da revista “Pau de Arara”, a que se seguiram muitas outras. 

E a partir daí ela foi ficando por terras de Vera Cruz, só regressando a Portugal esporadicamente para visitar familiares e amigos. Durante mais de vinte anos residiu no Sítio Rosário, de sua propriedade, em Poá, no interior de São Paulo, cercada de lembranças da sua vida artística, onde veio a falecer aos 82 anos, a 7 de Abril de 1984. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Agosto. 26 

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