BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa onde o nosso homem do teatro Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. Hoje debruça-se na recordação de Jaime Salazar Sampaio

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Teatro no Bancada Directa onde o nosso homem do teatro Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. Hoje debruça-se na recordação de Jaime Salazar Sampaio

In memoriam
Jaime Salazar Sampaio nasceu em Lisboa em 5 de Maio de 1925 e faleceu nesta mesma cidade em 13 de Abril de 2010
Foi um engenheiro, silvicultor, poeta, romancista ficcionista, autor dramático, tradutor e animador cultural

O Teatro no Bancada Directa onde o nosso homem do teatro Salvador Santos apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. 
Hoje debruça-se na recordação de Jaime Salazar Sampaio 


“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos. (Teatro Nacional de São João. Porto) 


JAIME SALAZAR SAMPAIO 

Extremamente influenciado pelo teatro do absurdo, a sua obra como dramaturgo constituiu acima de tudo um ato de resistência contra a censura do antigo regime, o que justifica em parte a ambiguidade e o hermetismo dos seus textos produzidos antes da Revolução de Abril. 

Como romancista, o inconformismo da sua escrita assume contornos intermédios entre a inspiração surrealizante e a simplicidade da literatura infantil. E como poeta, o seu trabalho é composto por poemas relativamente breves, de grande rigor prosódico, que tematizam o confronto entre um tempo e um espaço perdidos e um presente que releva da incompletude e da frustração. Pode ser este, em suma, o retrato de um escritor que se consagrou sobretudo como dramaturgo, sucesso comprovado pelo facto de a quase totalidade das suas peças ter sido já representada. 
O teatro constituiu de facto a grande linha de criação de Jaime Salazar Sampaio, mas foi com a poesia que ele se iniciou na literatura, ao mesmo tempo que ia publicando diversos estudos sobre questões económicas relacionadas com a silvicultura – área em que se formou como engenheiro em Lisboa, a que se seguiu o doutoramento na Universidade de Sorbonne –, que foi, aliás, a sua principal ocupação profissional. A escrita teatral manifestou-se um pouco mais tarde e de uma forma muito curiosa. Um dia escreveu umas quantas linhas numa folha de papel, que pretendiam ser o início de uma peça de teatro. Guardou a folha de papel numa gaveta e de vez em quando lia o que lá estava. 

E durante largos meses foi este o seu único esforço de criação daquela peça, em estado de incubação, como se aguardasse uma qualquer chamada vinda dos palcos. E essa chamada chegou, tendo por mensageiro o encenador Artur Ramos, que andava a preparar um espetáculo para o Teatro Nacional D. Maria II constituído apenas por peças de pequeno formato de jovens autores, que se viria a chamar “Teatro de Novos Para Novos”. 

À pergunta «Tens alguma peça em 1 ato pronta?», Jaime Salazar Sampaio respondeu descaradamente que sim, e, uma semana depois, aquela folha de papel que continha umas quantas linhas que pretendiam ser o início de uma peça de teatro, transformara-se no seu primeiro texto dramático, que subiu a cena com o título “Aproximação”. Mas apesar deste seu encontro inicial com o público de teatro não ter corrido nada mal, a verdade é que só voltou a escrever teatro dezasseis anos depois, em 1961, com “O Pescador à Linha”, que o consagrou definitivamente como dramaturgo. 

Com recurso às técnicas de teatro dentro do teatro e de desmistificação da convenção teatral, manejando habilmente técnicas teatrais não-textuais, colocando em derrisão o discurso lógico e evidenciando o absurdo da condição humana, “O Pescador à Linha” assinala a marca de Pirandello no teatro de Jaime Salazar Sampaio, visível em grande número das suas obras. 

Se bem que o ritmo e a linguagem da sua escrita teatral acabariam por aproximar-se do teatro beckettiano, o que é notório na peça “A Batalha Naval”, pela dialética das personagens isoladas em discurso circular e pela abstração dos protagonistas, que estreou com assinalável sucesso na Casa da Comédia, em 1970. 
Antes deste grande triunfo no teatrinho de bolso das Janelas Verdes, em Lisboa, Jaime Salazar Sampaio havia sido uma vez mais representado no Teatro Nacional D. Maria II, em 1969, com “Os Visigodos”, peça escrita um ano antes e que denunciava os graves problemas socioeconómicos enfrentados por Portugal naquela época, sofridos muitas vezes de forma dramática pela esmagadora maioria das pessoas das classes mais baixas, vítimas involuntárias de uma feroz política repressiva que as impedia de assumir uma postura crítica. 

E foi essa mesma política que o afastou dos palcos nos anos seguintes. Só mesmo com a mudança do regime, em abril de 1974, é que as suas peças regressaram a cena, destacando-se de entre elas, “Fernando (Talvez) Pessoa”, estreada em abril de 1983 no Nacional de Lisboa, numa felicíssima encenação de Artur Ramos. 
O serviço prestado ao teatro por Jaime Salazar Sampaio estendeu-se também à tradução, sendo de sua responsabilidade a conversão para a língua portuguesa de alguns dos mais importantes textos de Beckett, Gorki, Edward Albee, Harold Pinter, Arthur Miller e Michel Deutsch, tendo sido ainda autor de diversos ensaios sobre dramaturgia e a prática teatral. 

Paralelamente, organizou diversos fóruns sobre as artes cénicas e colaborou durante duas décadas com a Sociedade Portuguesa de Autores na defesa dos direitos dos autores teatrais, o que justificaria, em 2005, a atribuição da medalha de honra daquela instituição, cinco anos depois de a Sociedade Portuguesa de Escritores o ter distinguido com o Grande Prémio do Teatro pela peça “Um Homem Dividido”. 
Entretanto, em 2003, a 27 de Março, data em que se celebra o Dia Internacional do Teatro, o Museu Nacional do Teatro homenageara Jaime Salazar Sampaio com a exposição “Percursos do Dramaturgo”, uma das iniciativas que mais o sensibilizaram ao longo de toda a sua vida, conforme teve ocasião de nos confidenciar três anos depois na estreia da sua peça “Árvores, Verdes Árvores”, levada a cena pelo Teatro Independente de Loures. Foi a última vez que tivemos o prazer de estar na sua companhia e de ver representar o seu teatro. 

A 13 de Abril de 2010, soubemos da sua morte. Tinha 84 anos. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional da São João. Porto 
Porto. 2014. Setembro 18

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