BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”. É uma rubrica semanal de Salvador Santos que tem por objectivo recordar as grandes figuras do Teatro português. Hoje Luis Sttau Monteiro é a motivação para esta quarta-feira. É o Teatro no Bancada Directa.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

“No Palco da Saudade”. É uma rubrica semanal de Salvador Santos que tem por objectivo recordar as grandes figuras do Teatro português. Hoje Luis Sttau Monteiro é a motivação para esta quarta-feira. É o Teatro no Bancada Directa.

In memoriam

Luis Sttau Monteiro de seu nome completo Luis Infante de Lacerda de Sttau Monteiro nasceu em Lisboa em 3 de Abril de 1926 e faleceu nesta mesma cidade em 23 de Julho de 1993.

Foi um notavel escritor português, tendo feito intervenções no teatro e no jornalismo. Era licenciado em Direito

“No Palco da Saudade”. 
É uma rubrica semanal de Salvador Santos que tem por objectivo recordar as grandes figuras do Teatro português. Hoje Luis Sttau Monteiro é a motivação para esta quarta-feira. 
É o Teatro no Bancada Directa. 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacinal de São João. Porto) 

LUÍS DE STTAU MONTEIRO 

Foi um dos mais respeitados dramaturgos portugueses do final do século XX, tendo imposto o seu carisma noutros géneros literários, como o romance, a novela e a crónica, ao mesmo tempo que se evidenciava no jornalismo e noutros universos mais ou menos criativos. Nasceu em Lisboa, em 1926, mas a sua educação foi feita em Londres, onde o pai exerceu funções de embaixador entre 1936 e 1943. 

Com a demissão do pai, por discordâncias políticas com Salazar, regressa à sua cidade natal com dezassete anos, onde conclui os estudos liceais e ingressa depois na Faculdade de Direito, apesar da sua paixão pela matemática. Concluído o curso, ainda exerce advocacia no nosso país durante dois anos, até que decide regressar à capital inglesa. Por lá torna-se condutor de Fórmula 2 e conhece uma jovem inglesa, por quem se perde de amores para toda a vida. Perdidamente apaixonado, Luís de Sttau Monteiro regressa a Portugal para se casar em Sintra, em 1951, e por cá assenta arraiais com a sua amada June. 
Trabalha então como tradutor e publicista, colaborando em várias publicações, como a revista Almanaque, onde começou por assinar crónicas gastronómicas. Relevante foi sobretudo o seu desempenho no jornal Diário de Lisboa, coordenando o Suplemento “A Mosca” na década de 1970, onde contou com a colaboração de João Abel Manta, José Cutileiro, José Cardoso Pires, Joaquim Letria e Mário Castrim, entre outros. 

Neste matutino, são célebres as suas “Redações da Guidinha”, onde numa linguagem infantil uma miúda lisboeta de classe média-baixa escrevia sobre a sua vida quotidiana, embora, na verdade, versassem temáticas denunciadoras de situações relacionadas com o estado da Nação. A ficção surgiu na obra de Luís de Sttau Monteiro em 1960, com as novelas “Um Homem Não Chora” e “Angústia para o Jantar”, ganhando desde logo alguma notoriedade. 
Mas foi o seu teatro despertou as maiores atenções, a partir da publicação, em 1961, da sua primeira peça, “Felizmente Há Luar”, um drama narrativo histórico sobre a figura de Gomes Freire de Andrade e a tentativa frustrada da revolta liberal de 1817, que viria a ser distinguida no ano seguinte com o Grande Prémio da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. A notícia da atribuição deste prémio chegou-lhe quando estava preso por suspeita de envolvimento na célebre intentona de Beja. E os esbirros do regime não lhe perdoaram: A peça foi proibida pela censura! 

Esta experiência traumática levou-o a regressar uma vez mais para Inglaterra, onde permaneceu entre 1963 e 1967, continuando, porém, a escrever teatro. “Todos os Anos pela Primavera”, “O Barão” e “Auto da Barca do Motor Fora da Borda”, foram as peças que escreveu no exílio em Londres, todas igualmente proibidas. Já em Portugal, Luís Sttau Monteiro viria a ser preso pela PIDE, em 1967, após a publicação das peças satíricas “A Guerra Santa” e “A Estátua”, onde teceu duras críticas à ditadura e à guerra colonial. 
A experiência de dois meses de prisão levou-o a escrever “As Mãos de Abraão Zacut”, cuja ação se situa num campo de concentração, representada pela primeira vez em 1969, pelo Teatro Estúdio de Lisboa, numa encenação de Luzia Maria Martins. A escrita dramática passou então a ocupar mais espaço na vida de Luís de Sttau Monteiro. Foi coautor, com Alexandre O'Neill, dos diálogos para o filme “Pássaros de Asas Cortadas” de Artur Ramos. 

Com este adaptou depois para teatro o romance de Eça de Queirós “A Relíquia”, representada no Teatro Maria Matos, e, ainda no mesmo ano, escreveu a peça “Sua Excelência”, uma nova sátira social, projetada para aquele mesmo teatro. Concebeu para o Grupo 4 (no velho Teatro Aberto) a peça de inspiração satírica e brechtiana “A Crónica Atribulada do Esperançoso Fagundes”, que teve música de Pedro Osório e canções de José Carlos Ary dos Santos e Paulo de Carvalho. 

Seis anos após a Revolução dos Cravos, a primeira peça de Luís de Sttau Monteiro, “Felizmente Há Luar”, que fora objeto de montagem em 1969 no Théâtre de l’Ouest Parisien com produção do Teatro-Oficina Português, é finalmente estreada em Portugal, no Teatro Nacional D. Maria II, com encenação do próprio autor. 

Luis Sttau Monteiro fez parte do juri do concurso televisivo " A Visita da Cornélia". Está no centro da foto e tem à sua direita Maria João Seixas e Raul Calado. Do seu lado esquerdo está Maria Leonor e Paulo Renato

Refira-se que esta foi a sua quinta experiência como encenador, tendo antes encenado “A Fera Amansada” de William Shakespeare, “Um Inimigo do Povo” de Henrik Ibsen, “O Milagre de Anne Sullivan” de William Gibson e “A Casamenteira” de Thornton Wilder, peças que ele próprio traduziu. Entretanto, publica a novela “E Se For Rapariga Chama-se Custódia” e escreve ainda o romance “Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão”, que viria a adaptar para telenovela sob a égide da RTP com o título “Chuva na Areia”. 

No final da década de 1970, a convite de Raul Solnado, Luís de Sttau Monteiro integra o júri do concurso televisivo “A Visita da Cornélia”, ao lado de quatro outras das nossas mais mediáticas figuras do espetáculo e da comunicação (Maria Leonor, Paulo Renato, Raul Calado e Maria João Seixas), granjeando novas amizades e enorme popularidade. 

A sua atividade passa a fixar-se quase em exclusivo na tradução de obras literárias, mantendo no entanto a sua colaboração nalguns órgãos de comunicação, até a morte o surpreender a 23 de julho de 1993, aos 67 anos, no Hospital São Francisco Xavier, onde fora internado de urgência alguns dias antes com uma invulgar infeção. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Setembro. 14

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