BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e que se destina a recordar os grandes vultos do passado que engrandeceram o Teatro Português. Hoje recorda-se Antonio Patricio. É o Teatro no Bancada Directa, como sempre e habitualmente às quartas-feiras.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

“No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e que se destina a recordar os grandes vultos do passado que engrandeceram o Teatro Português. Hoje recorda-se Antonio Patricio. É o Teatro no Bancada Directa, como sempre e habitualmente às quartas-feiras.

In memoriam

Antonio Patrício nasceu no Porto em 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau em 4 de Junho de 1930.
Foi um escritor e diplomata. Apesar de ter concluído o curso de medicina nunca exerceu esta profissão 
“No Palco da Saudade” é uma rubrica do nosso homem do teatro Salvador Santos e que se destina a recordar os grandes vultos do passado que engrandeceram o Teatro Português.
Hoje recorda-se Antonio Patrício.
É o Teatro no Bancada Directa, como sempre, e habitualmente, às quartas-feiras. 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

ANTÓNIO PATRÍCIO 
Nasceu no Porto e nesta cidade começou por estudar matemática, tendo optado depois por seguir os estudos superiores navais em Lisboa. No regresso à Invicta voltou à faculdade para tirar então o curso de medicina, pese embora nunca tivesse exercido aquela profissão e acabasse por se dedicar à vida diplomática, actividade que se reflectiu de forma evidente na sua produção literária, composta sobretudo por poesia, narrativa e teatro. 

Neste último género distinguiu-se pela sua contribuição para o património teatral simbolista português, havendo também na sua obra grandes influências do drama histórico, onde é notória uma ressonância humana a que a presença, latente ou manifesta, mas sempre obsidiante, da morte, confere uma verdadeira dimensão trágica. 

As cinco peças publicadas de António Patrício são todas atravessadas pelo sentido da dissolvência e pela presença da morte. Por exemplo, “O Fim” (1909), drama histórico em dois quadros que alude ao regicídio e prevê a queda da monarquia, foi vista como uma peça antecipadora do teatro do absurdo, um absurdo aberto para a História, com a narração da tragédia de uma raça que se suicida e onde se joga o destino do Homem. 

Ignorada durante décadas, esta peça foi redescoberta muito tardiamente, tendo a sua estreia absoluta ocorrido apenas em 1971 na Casa da Comédia, em Lisboa, com encenação de Jorge Listopad, e desfrutando desde então de um êxito surpreendente, vindo a integrar regularmente o repertório de diversos grupos amadores e profissionais. Já “Pedro o Cru” (escrita em 1913 e editada em 1918), definida pelo próprio António Patrício como tragédia da saudade, da nostalgia pelo amor perdido, devido à morte da amada, é a representação da transição, ou antes um elo de ligação entre o decadentismo simbolista e o saudosismo de Pascoaes, simbiose, digamos, de que virá a nascer o paulismo de Orpheu, ou seja, a primeira fase da literatura modernista. 

A peça, um exercício de introspecção que nos chega pela boca de um rei perdido entre reflexões pessoais e decisões de Estado, foi transmitida pela primeira vez pela RTP em 1974 e levada à cena com relativo sucesso pelo Teatro D. Maria II, em 1982, com Jacinto Ramos no papel de D. Pedro I e Carlos Daniel vestindo a pele do escudeiro Afonso. 
Com “Dinis e Isabel” (1919) o dramaturgo quis transpor para uma peça em cinco actos a tragédia de um homem que amou uma santa. O subtítulo shakespeariano “conto de primavera” evidencia as suas intenções líricas, que atingem o auge no último ato como uma tragédia estática, porque toda a acção se esgotara já no ato anterior. 

Um excerto do primeiro acto desta peça foi apresentado em estreia absoluta no dia 21 de Setembro de 1931 no Teatro Nacional D. Maria II, por ocasião da estreia mundial de “Um Sonho” de Luigi Pirandello, em que o dramaturgo siciliano esteve presente. Houve uma nova montagem de “Dinis e Isabel” em 1992 pelo efémero grupo do Teatro da Politécnica, no Teatro da Trindade, com direcção do encenador Mário Feliciano. 

Quanto à fábula trágica em três actos “D. João e a Máscara” (publicada em 1924 e estreada também pelo Teatro da Politécnica em 1989), tem como epígrafe uma frase de Shakespeare, «Nothing can we call our own but death. / Bem nossa, só a morte», e é uma versão do mito de Dom Juan que ignora a parte anedótica para mostrar um religioso instintivo, um místico amoral que, em todas as mulheres amadas, afinal amou a máscara de uma só mulher: a morte. 
Por fim, o acto único “Judas” (1924) foi levado a cena em 1946 pelo Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, no Teatro do Ginásio, e em 1990 pelo Grupo Teatro Hoje, no extinto Teatro da Graça, integrado no espectáculo “Cenas da Vida de Benilde, a partir de Benilde ou a Virgem Mãe” de José Régio. Republicano convicto e intelectual com uma visão aristocrática do saber e da existência, António Patrício escreveu durante toda a sua vida. 

Para além de ter colaborado com as revistas Águia, Límia e Atlântida, deixou várias peças de teatro inacabadas: “O Rei de Sempre”, com temática sebastianista; “A Paixão de Mestre Afonso Domingues”, drama histórico representado em 1985 no Teatro Nacional D. Maria II; “Auto dos Reis ou da Estrela”, de que existem alguns fragmentos; “Teodora”, de que nos chegaram breves anotações acerca da estrutura e esboços de algumas cenas; e “Diálogo na Alhambra”, fragmento editado pela primeira vez no Porto, nas páginas do periódico A Labareda, em 1914, e recentemente editado em livro pela Assírio &Alvim. 

Exceptuando a sua primeira e mais representativa peça (“O Fim”), toda a obra teatral de António Patrício foi criada durante a sua vida diplomática, que o levaria a inúmeras e, nalguns casos, longínquas paragens. Em 1911, foi nomeado cônsul de Cantão, tendo permanecido dois anos na China, de onde foi depois transferido para Manaus. 

Em 1914, prosseguiu com destino a Bremen e, no pós-guerra, foi-lhe atribuída a sede de Atenas, seguida da de Constantinopla, onde lhe chegou a notícia da sua nomeação como Ministro plenipotenciário. 

Passou também por Caracas e Londres, regressando depois a Portugal; e, em 1930, já doente, recebeu a nomeação de ministro em Pequim, posto que não chegou a ocupar, por motivos de falecimento, em Macau, onde se encontrava de passagem para um encontro com o Governador. Tinha 48 anos! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Setembro. 05

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