BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda hoje o actor Filipe Ferrer

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. O nosso homem do teatro recorda hoje o actor Filipe Ferrer


O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos 
“No Palco da Saudade”. 
O nosso homem do teatro recorda hoje o actor Filipe Ferrer 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos Teatro Nacional de São João. Porto 

FILIPE FERRER 


Natural de Faro, onde nasceu em 1936, filho de bancário gerente de uma extinta instituição financeira naquela cidade, foi aluno do Liceu da capital algarvia e do Colégio de Santo Tirso, onde estudou representação teatral e deu os primeiros passos como actor amador. Com apenas treze anos já lhe reconheciam o talento que o levaria depois até ao TEUC (Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra) e mais tarde à direcção de diversos grupos de teatro amador, até que surgiu o convite para representar em Lisboa três espetáculos que o marcariam decisivamente no inicio da sua carreira como profissional: “O Monta-Cargas” de Harold Pinter, “O Mercador de Veneza” de William Shakespeare, onde desempenhou o papel de Lourenzo, e “Antígona” de Jean Anouilh.


Após três anos como profissional, enriquecidos com a encenação de “Médico à Força” de Molière na Casa da Comédia e a interpretação de “Thomas Moore” com direcção de Luzia Maria Martins, Filipe Ferrer decidiu emigrar para Londres, ingressando nos quadros da BBC como assistente de programação, ao mesmo tempo que frequentava cursos de teatro e se integrava no meio artístico daquela cidade. 

E pouco depois partiu para o Brasil, para ser secretário de redacção da Editora Abril, assumindo mais tarde a direcção geral da Revista Vogue, ao mesmo tempo que apresentava diariamente um programa na Rádio Gazeta de São Paulo, participava com regularidade em peças de teatro na televisão e se abalançava como realizador de cinema.



Ainda no Brasil, Filipe Ferrer inscreveu-se num workshop na Children’s Television, em Nova Iorque, a partir do qual obteve o lugar de «line producer» da versão brasileira do programa “Rua Sésamo” e ganhou mais tarde um estágio nos serviços da televisão educativa de Nova Iorque, Boston, San Francisco e Los Angeles. Com o decorrer do tempo, as saudades de Portugal começaram a fazer mossa nos seus dias americanos e o sonho de regressar fez o seu caminho até se tornar uma realidade inadiável e irreversível. Estávamos em 1981 quando ele tomou a decisão de voltar a Lisboa, carregado de projectos essencialmente voltados para o cinema, para a televisão e para a publicidade, territórios de criação onde tinha adquirido grande especialização.

            
 Em Portugal, Filipe Ferrer começa por realizar filmes publicitários e reportagens para a RTP. E a partir do ano seguinte participa como ator em vários filmes nacionais e estrangeiros, sob a direcção de realizadores como Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão, Luís Filipe Rocha ou Robert Mazoer, Samuel Fuller e Robert Faenza, entre muitos outros, contracenando com artistas como Marcelo Mastroiani, Mickey Rooney, Jean-Pierre Casal, Paco Rabal ou a portuguesa Ana Zanatti, sendo de destacar a sua prestação nos filmes “Afirma Pereira”, “O Segredo”, “Sapato de Cetim”, “A Bomba”, “Camarate” e “O Processo do Rei”. 

E tudo isto enquanto a televisão e o teatro iam também preenchendo o dia-a-dia da sua agenda de trabalho com as mais diversas propostas.


Homem de múltiplos talentos nos domínios da criação artística, com um refinado gosto pelo convívio e pelo debate de ideias, e um imbatível contador de histórias com um repertório de anedotas e episódios pitorescos quase inesgotável, Filipe Ferrer participou em inúmeras séries e telenovelas, onde ganhou grande notoriedade. “Bocage”, “Repórter X”, “Passerelle”, “Casino Royal”, “Na Paz dos Anjos”, “A Lenda da Garça”, “Médico de Família”, “O Primeiro Amor”, “Ganância”, “Amanhecer”, “Os Pós de Bem Querer” e “O Último Beijo”, foram algumas das produções televisivas em que emprestou a sua arte na composição das mais distintas personagens, o que ele fazia, aliás, sempre com imenso entusiasmo, muita entrega e extrema capacidade criativa.


Mas foi no palco, com uma notabilíssima interpretação na peça “Vidas Privadas” de Noel Coward, no Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, que Filipe Ferrer desfez as dúvidas dos mais céticos e de todos aqueles que começaram por não acreditar que um homem que se dividia entre a publicidade e a realização pudesse ser um bom ator. E se mais dúvidas persistiam, elas foram totalmente desfeitas com as suas prestações nas peças “Frei Luís de Sousa” de Almeida Garrett, “O Fim” de António Patrício, “Hamlet” de Shakespeare, “As Noites de Anto” de Mário Claudio, “Retrato De Uma Família Portuguesa” de Miguel Rovisco, e, por último, como protagonista de “As Pestanas de Greta Garbo”, uma peça de sua autoria, com a qual fez uma longa digressão nacional.


Quando aquela peça se apresentou no Porto estivemos à conversa com Filipe Ferrer e recordámos a sua passagem pelo TNT (Teatro do Nosso Tempo), onde nos cruzamos pela primeira vez – já lá vão tantos anos!... –, ao mesmo tempo que ficámos a saber dos projectos futuros que o animavam. A última vez que estivemos com ele foi em Julho de 2006, quando, já adoentado, se deslocou a Faro para apresentar um livro de amigos de infância. 
Nessa altura ele tinha em carteira a organização de um conjunto de iniciativas de homenagem ao poeta António Ramos Rosa. Mas todos os seus sonhos começaram a desmoronar alguns meses depois. O maldito cancro que o vinha atormentando começou a ganhar espaço e a robustecer-se, forçando o seu internamento no Hospital Curry Cabral, onde viria a falecer a 26 de Junho de 2007, tinha ele 70 anos.



Salvador Santos

Teatro Nacional de São João. Porto

Porto. 2014. Agosto. 12


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