O Teatro no Bancada Directa apresentando a rubrica de Salvador Santos
“No Palco da Saudade”.
O nosso homem do teatro recorda hoje o actor Filipe Ferrer
“No Palco da Saudade”
Texto inédito e integral de Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
FILIPE FERRER
Natural de Faro, onde nasceu em 1936, filho de bancário gerente de uma
extinta instituição financeira naquela cidade, foi aluno do Liceu da capital
algarvia e do Colégio de Santo Tirso, onde estudou representação teatral e deu
os primeiros passos como actor amador. Com apenas treze anos já lhe reconheciam
o talento que o levaria depois até ao TEUC (Teatro de Estudantes da
Universidade de Coimbra) e mais tarde à direcção de diversos grupos de teatro
amador, até que surgiu o convite para representar em Lisboa três espetáculos
que o marcariam decisivamente no inicio da sua carreira como profissional: “O
Monta-Cargas” de Harold Pinter, “O Mercador de Veneza” de William Shakespeare,
onde desempenhou o papel de Lourenzo, e “Antígona” de Jean Anouilh.
Após três anos como profissional, enriquecidos com a encenação de “Médico
à Força” de Molière na Casa da Comédia e a interpretação de “Thomas Moore” com direcção de Luzia Maria Martins, Filipe Ferrer decidiu emigrar para Londres,
ingressando nos quadros da BBC como assistente de programação, ao mesmo tempo
que frequentava cursos de teatro e se integrava no meio artístico daquela
cidade.
E pouco depois partiu para o Brasil, para ser secretário de redacção da
Editora Abril, assumindo mais tarde a direcção geral da Revista Vogue, ao mesmo
tempo que apresentava diariamente um programa na Rádio Gazeta de São Paulo,
participava com regularidade em peças de teatro na televisão e se abalançava
como realizador de cinema.

Ainda no Brasil,
Filipe Ferrer inscreveu-se num workshop na Children’s Television, em Nova
Iorque, a partir do qual obteve o lugar de «line producer» da versão brasileira
do programa “Rua Sésamo” e ganhou mais tarde um estágio nos serviços da
televisão educativa de Nova Iorque, Boston, San Francisco e Los Angeles. Com o
decorrer do tempo, as saudades de Portugal começaram a fazer mossa nos seus
dias americanos e o sonho de regressar fez o seu caminho até se tornar uma
realidade inadiável e irreversível. Estávamos em 1981 quando ele tomou a
decisão de voltar a Lisboa, carregado de projectos essencialmente voltados para
o cinema, para a televisão e para a publicidade, territórios de criação onde
tinha adquirido grande especialização.
Em Portugal, Filipe Ferrer começa
por realizar filmes publicitários e reportagens para a RTP. E a partir do ano
seguinte participa como ator em vários filmes nacionais e estrangeiros, sob a direcção de realizadores como Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão, Luís Filipe
Rocha ou Robert Mazoer, Samuel Fuller e Robert Faenza, entre muitos outros,
contracenando com artistas como Marcelo Mastroiani, Mickey Rooney, Jean-Pierre
Casal, Paco Rabal ou a portuguesa Ana Zanatti, sendo de destacar a sua
prestação nos filmes “Afirma Pereira”, “O Segredo”, “Sapato de Cetim”, “A
Bomba”, “Camarate” e “O Processo do Rei”.
E tudo isto enquanto a televisão e o
teatro iam também preenchendo o dia-a-dia da sua agenda de trabalho com as mais
diversas propostas.
Homem de múltiplos talentos nos domínios da criação artística, com um
refinado gosto pelo convívio e pelo debate de ideias, e um imbatível contador
de histórias com um repertório de anedotas e episódios pitorescos quase
inesgotável, Filipe Ferrer participou em inúmeras séries e telenovelas, onde
ganhou grande notoriedade. “Bocage”,
“Repórter X”, “Passerelle”, “Casino Royal”, “Na Paz
dos Anjos”, “A Lenda da Garça”,
“Médico de Família”, “O
Primeiro Amor”, “Ganância”, “Amanhecer”, “Os Pós de Bem Querer” e
“O Último Beijo”, foram algumas das produções televisivas em que emprestou a
sua arte na composição das mais distintas personagens, o que ele fazia, aliás,
sempre com imenso entusiasmo, muita entrega e extrema capacidade criativa.
Mas foi no palco, com uma notabilíssima interpretação na peça “Vidas
Privadas” de Noel Coward, no Teatro Municipal Maria Matos, em Lisboa, que
Filipe Ferrer desfez as dúvidas dos mais céticos e de todos aqueles que
começaram por não acreditar que um homem que se dividia entre a publicidade e a
realização pudesse ser um bom ator. E se mais dúvidas persistiam, elas foram
totalmente desfeitas com as suas prestações nas peças “Frei Luís de Sousa” de
Almeida Garrett, “O Fim” de António Patrício, “Hamlet” de Shakespeare, “As
Noites de Anto” de Mário Claudio, “Retrato De Uma Família Portuguesa” de Miguel
Rovisco, e, por último, como protagonista de “As Pestanas de Greta Garbo”, uma
peça de sua autoria, com a qual fez uma longa digressão nacional.
Quando aquela peça se apresentou no Porto estivemos à conversa com Filipe
Ferrer e recordámos a sua passagem pelo TNT (Teatro do Nosso Tempo), onde nos
cruzamos pela primeira vez – já lá vão tantos anos!... –, ao mesmo tempo que
ficámos a saber dos projectos futuros que o animavam. A última vez que estivemos
com ele foi em Julho de 2006, quando, já adoentado, se deslocou a Faro para
apresentar um livro de amigos de infância.
Nessa altura ele tinha em carteira a
organização de um conjunto de iniciativas de homenagem ao poeta António Ramos
Rosa. Mas todos os seus sonhos começaram a desmoronar alguns meses depois. O
maldito cancro que o vinha atormentando começou a ganhar espaço e a
robustecer-se, forçando o seu internamento no Hospital Curry Cabral, onde viria
a falecer a 26 de Junho de 2007,
tinha ele 70 anos.
Salvador Santos
Teatro Nacional
de São João. Porto
Porto. 2014.
Agosto. 12
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