BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e em que o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda a actriz Lina Demoel

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e em que o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda a actriz Lina Demoel


O Teatro no Bancada Directa integrando a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade” e em que o nosso homem do teatro dos dias de hoje recorda a actriz Lina Demoel 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 LINA DEMOEL

Ela foi a maior vedeta do teatro ligeiro em Portugal nas décadas de 1920 e 1930, sendo disputada pelos principais teatros da capital, onde criou alguns dos mais belos temas musicais de maior sucesso popular no nosso país que ainda hoje trauteamos sem memória da sua origem. Em 1926, um prestigiado jornalista escrevia assim: «Lina Demoel é uma artista que está sempre em foco. 

Depois do Inverno, onde cantou como ninguém a primavera linda e encantadora das Rosas de Portugal, criação magnífica que é uma verdadeira página de beleza, ela – que é hoje a estrela mais brilhante, cheia de fulgor e de elegância, de distinção e de sorriso, que pisa o nosso teatro ligeiro – foi para o Brasil conquistar para o seu nome novas glórias, outros triunfos, aplausos vibrantes”. 


Antes de pisar os palcos para uma rápida ascensão ao lugar de primeira estrela, Lina Demoel era uma jovem despreocupada e sonhadora. Certo dia, em conversa com uma costureira que trabalhava em sua casa, ficou a saber que se preparava uma nova revista no Teatro da Trindade, em Lisboa, para a qual procuravam coristas. 

E lá foi ela a caminho da audição, depois de se preparar muito bem e em segredo. Vestiu uma das suas mais belas peças de guarda-roupa, penteou-se e maquilhou-se com a perfeição que lhe era reconhecida no seio da família, subiu ao palco com a graça e a desenvoltura que a caracterizavam e cantou um conhecido tema – “A Valsa dos Beijos”. Na plateia, o maestro Luís Felgueiras e o empresário António de Macedo, ficaram deslumbrados...

A estreia de Lina Demoel nos palcos da revista aconteceu assim, desta forma,  em 1919, como simples corista, e dois anos depois encabeçava já o cartaz de “Gato por Lebre”, assumindo a partir daí a personificação de um certo tipo de vedeta de grandes luxos e muitas atenções sociais, com automóveis caríssimos que ostentavam o seu monograma em prata e motorista fardado ao seu serviço. 
Constantemente cortejada pelos homens mais poderosos, galantes e desejados da época, ela percorreu as mais ricas e idílicas paragens de veraneio sempre que os seus compromissos artísticos o permitiam. Nas suas estadas na cidade de Paris, para onde viajava com assiduidade, era frequentadora das grandes festas das estrelas e...comprava diamantes no Cartier!


Foi ali ás em Paris que teve origem “As Rosas”, um dos maiores sucessos de Lina Demoel. Ela fora convidada para um show de Mistinguett, onde esta cantou pela primeira vez o tema “Valência” de José Padilha. E ficou tão encantada com o que viu que, no final da actuação, foi ao camarim da mítica cantora francesa e manifestou-lhe o desejo de integrar aquela música no seu repertório. 

Daquele primeiro contacto nasceu uma enorme amizade entre as duas artistas. E foi tão grande a intimidade gerada entre ambas que, para além de passar a gozar do privilégio de fazer parte dos jantares privados em casa de Mistinguett, Lina Demoel teve oportunidade de visitar o seu ateliê de costura e de aprender alguns segredos na confecção de peças de guarda-roupa teatral.


Vestida com um belíssimo figurino branco, revestido com a aplicação de grandes rosas em tecido, Lina Demoel apresentou-se no primeiro ensaio da revista “Foot-ball” com a partitura de “Valência” nas mãos e pediu a um dos seus autores (Ernesto Rodrigues) que fizesse uma versão do tema de Padilha inspirada nas flores que embelezavam a sua peça de guarda-roupa. E graças àquela canção, o espectáculo esteve em cena durante um ano e meio com lotações esgotadas, acabando por se transformar no maior êxito da actriz, então também já empresária. 


"Carnaval de 1926": a actriz Lina Demoel, que tomou parte no corso da avenida da Liberdade

E foi nessa dupla qualidade que o público passou a vê-la a partir daquele momento, nos mais diversos teatros portugueses e brasileiros, representando alguns dos maiores sucessos do nosso teatro musicado


Depois de mais de três dezenas de espectáculos como vedeta absoluta, onde criou temas como “Marias de Portugal”, “Cavaquinho”, “Mademoiselle Bola de Sabão” ou “Cabaret”, em 1938, Lina Demoel, que teve tudo – fama, dinheiro, joias, casas, carros –, acabou abruptamente a sua carreira cheia de dívidas, que pagou tostão a tostão, e caiu num profundo esquecimento. Até que, em meados dos anos 1970, a imprensa deu conta de que ela estava semi-inválida por via de um acidente e vivia em condições quase miseráveis, com uma reforma ridícula, num pequeno quarto alugado. A comunidade artística uniu-se e fez quanto pôde para minimizar os efeitos devastadores da sua mal sucedida experiência de empresária, dando-lhe o apoio possível naquelas horas amargas.


Em 1982, já com 86 anos, e a viver em condições muito mais dignas graças aos esforços de Manuela Eanes, Lina Demoel foi convidada por Raul Solnado e Fialho Gouveia a participar no programa “O Resto São Cantigas”, da RTP, onde pudemos testemunhar a alegria, o carinho, a emoção e a gratidão desta atriz por reencontrar-se com o público, tantas décadas depois de ser aplaudida pela última vez. E foi bom vê-la recordar, ao talvez pelos versos mais eróticos da nossa música ligeira («Maria, são teus olhos azeitonas/Cachopa, são teus lábios quais cereja/E os teus seios cachos de uvas que
abandonas/À vindima desta boca que os deseja»)

No final do programa ouvimo-la dizer: «Tenho tanta pena de me ir embora». Deixou-nos para sempre três anos depois!

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2014. Agosto.18
 

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