BANCADA DIRECTA: “No Palco da Saudade”. Rubrica semanal de Salvador Santos destinada a recordar as figuras de nomes do nosso teatro do passado. Hoje recorda-se Ilda Stichini. É o “Teatro no Bancada Directa”.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

“No Palco da Saudade”. Rubrica semanal de Salvador Santos destinada a recordar as figuras de nomes do nosso teatro do passado. Hoje recorda-se Ilda Stichini. É o “Teatro no Bancada Directa”.

“No Palco da Saudade”. 
Rubrica semanal de Salvador Santos destinada a recordar as figuras de nomes do nosso teatro do passado. 
Hoje recorda-se Ilda Stichini.
É o “Teatro no Bancada Directa”. 

“No Palco da Saudade” 
 Texto inédito e integral de Salvador Santos 


ILDA STICHINI 

Irrequieta e sempre sorridente, de uma voz lindíssima e bem modelada, de uma beleza imperfeita que a tornava bonita, dotada de uma extraordinária intuição e de um incontestável talento, ela foi uma das nossas maiores actrizes da primeira metade do século XX e a primeira a utilizar processos simples e modernos na pesquisa e criação teatral. 

Através de uma carreira brilhantíssima e fulgurante, soube afirmar ao mais alto nível o seu inegável valor de comediante, o seu temperamento de intérprete dramática exímia, as suas qualidades naturais para a difícil arte a que tanto se dedicou, aliando a essas suas qualidades um espírito aventureiro e destemido, que a levaria às mais diversas e longínquas paragens, conquistando um lugar de eleição por onde andou. 


De descendência italiana, Ilda Stichini nasceu em 1895, na cidade de Elvas, onde deu os primeiros passos na representação teatral, ainda muito jovem, ao integrar uma companhia itinerante que percorria na altura a região do Alentejo e do Algarve, apesar da firme oposição de seu pai. E foi assim que, com apenas catorze anos de idade, se estreou em Cuba do Alentejo, na peça popular “João José” de autor anónimo. 

Alguns anos depois, aconselhada por amigos e familiares, a actriz muda-se para Lisboa, e é aí que se estreia profissionalmente no teatro, graças ao apadrinhamento cénico e apoio do grande actor Eduardo Brazão, que, quando escreveu as suas memórias, afirmou: «Regozijo-me de ter sido o seu primeiro guia no teatro. Ela é a nossa melhor ingénua». «Ilda Stichini pertence àquela linhagem de artistas que não aprendem a ter talento nos conservatórios. 

Nela admiro um forte temperamento de intuição, de rebeldia, uma comunicação simpática, feita muitas vezes para nos comover e encantar» – foi assim que a caracterizou o poeta António Lopes Vieira, um acérrimo defensor do património cultural português, que acompanhou o desenvolvimento da actriz desde a sua interpretação do papel principal da peça “Ingleses”, do dramaturgo Lorjó Tavares, onde rubricou um trabalho notável ao lado do actor José Ricardo, merecendo os maiores elogios da critica e do público, que a aclamou durante os dois meses em que a comédia esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II, quase sempre com lotações esgotadas
Dois anos antes, exactamente a 1 de Janeiro de 1922, Ilda Stichini havia surpreendido o público com a sua admirável interpretação num esboço cinematográfico sobre “O Centenário”, a deliciosa comédia dos Irmãos Quintero que fora sucesso nos palcos de Lisboa, que Lino Ferreira realizara com a participação dos actores daquela peça. 

Foi aí que a actriz teve a ideia de formar uma Companhia em nome próprio, vocacionada para a itinerância, o que só viria a concretizar depois de duas experiências pontuais bem sucedidas, viajando pelo interior do país com as comédias “O Centenário”, “Simone” e “Os Mosquitos”, envolvendo os actores Luís Filipe, Rafael Marques e Luz Veloso, entre outros, que foram seus parceiros nas aventuras seguintes. 

Antes de se voltar definitivamente para a itinerância, que a levaria por inúmeras vezes a percorrer todo o território nacional, incluindo as ex-colónias de Angola e Moçambique, para além do Brasil, a Companhia Teatral de Ilda Stichini, fixou residência nos lisboetas Teatro da Trindade e Teatro Nacional São Carlos, como concessionária daqueles importantes espaços, onde apresentou com assinalável êxito as peças “Os Fidalgos da Casa Mourisca”, “Sonho da Madrugada”, “Rainha Santa” e “A Morgadinha de Valflor”, entre muitas outras. 

Nessa altura, a actriz procurou levar a cena sobretudo textos de autores portugueses, mas deparou-se com a falta de peças de seu agrado, desafiando, por isso, alguns homens das letras do seu tempo a escrever teatro. Em meados de 1931, quando planeava mais uma grande tournée, Isabel Stichini pediu ao escritor Vasco Mendonça Alves que lhe escrevesse um texto para ela e para o actor Alves da Costa. 

O escritor acedeu ao pedido e escreveu um diálogo, que intitulou “Os Gatos”, em que um rapaz e uma rapariga do povo, ele serralheiro e ela vendedora de figos, se encontravam em plena rua, num namoro cheio de arrufos e mais ou menos felino. 

Depois de ler o texto, a actriz lamentou que não tivesse uma segunda parte. Escrita a segunda parte, comentou que era pena que não tivesse uma terceira. E os três diálogos acabariam por constituir os três atos de uma peça, com o título de “O Meu Amor é Traiçoeiro”, que subiria a cena em Dezembro de 1935, com assinalável êxito. 

Certo dia, em finais da década de 1930, a América tentou-a. E para lá partiu, levando na bagagem alguns dos nossos poetas e aquela peça de Vasco Mendonça Alves, que mais tarde viria a ser reposta com igual sucesso por outras das nossas mais populares actrizes. Lá como cá, os êxitos não pararam e, em recitais destinados à colónia portuguesa e ao público americano, Ilda Stichini soube provar que a arte não tem fronteiras. 

A morar na Califórnia, passou a exercer a profissão de professora de português, francês, espanhol e arte dramática numa Universidade de Hollywood. E aos poucos foi deixando a representação, mantendo-se sempre em contacto com os antigos camaradas de trabalho. Nunca mais voltou a Portugal. Faleceu em Setembro de 1977. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Agosto. 02

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