BANCADA DIRECTA: Nasceu no popular Bairro da Graça em Lisboa. 1902. Eis Francis Graça que o nosso Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Nasceu no popular Bairro da Graça em Lisboa. 1902. Eis Francis Graça que o nosso Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. É o Teatro no Bancada Directa

Nasceu no popular Bairro da Graça em Lisboa. 1902. 
Eis Francis Graça que o nosso Salvador Santos recorda hoje na sua rubrica “No Palco da Saudade”. 
É o Teatro no Bancada Directa 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

 FRANCIS GRAÇA 


Nasceu em Lisboa, no velho bairro da Graça, em 1902, filho de um abastado comerciante anarco-sindicalista – empresário da Praça de Touros do Campo Pequeno no primeiro quartel do século XX –, que sempre procurou contrariar as suas opções artísticas, desde muito cedo voltadas principalmente para a música. Apesar da férrea oposição do pai, fez-se aluno do Conservatório Nacional, onde ganhou grande amizade com o colega de curso Frederico de Freitas, que viria a tornar-se num dos mais inspirados músicos, maestros e compositores portugueses. 

Ao contrário deste seu amigo e companheiro de turma, Francisco (era este o seu verdadeiro nome) não vingou na música, mas tornou-se num dos nossos mais importantes coreógrafos e bailarinos. Apesar de não ter formação convencional de bailado clássico, Francis Graça adquiriu grande notoriedade como bailarino e coreógrafo entre os anos 1920 e 1960, destacando-se sobretudo pela sua acção renovadora a nível do teatro musicado e na estilização do folclore nacional. 

Francis Graça e Madeleine Rosay no bailado Nazaré. 1948. Foto do Museu Nacional do Teatro

Ao que consta, ele terá tido apenas como início de aprendizagem algumas lições de bailado clássico com uma professora de nacionalidade russa residente no nosso país, cujo nome não ficou para a história. Mas isso não o impediu de se afirmar logo na sua primeira apresentação pública como intérprete, em 1925, num espectáculo do Teatro Novo, dirigido por António Ferro, estreado no foyer do Teatro Tivoli (decorado expressamente para o efeito pelo pintor futurista José Pacheko). 

Depois daquele espectáculo do grupo de António Ferro, que causou algum escândalo junto do público mais conservador, Francis Graça decidiu partir para Paris, levando como propósito a sua participação em alguns estúdios de dança parisienses e um estudo acompanhado de bailado clássico. Foram sete meses de um enriquecimento prático e teórico notável que lhe valeram o convite para coreografar e encabeçar o corpo de baile da revista “Foot-Ball”, no lisboeta Teatro Maria Vitória, que alcançou grande êxito em finais de 1925. 

A partir daí, ei-lo envolvido em inúmeros espectáculos liderados por algumas das maiores vedetas do teatro ligeiro português, como Luísa Satanela, Estevão Amarante, Beatriz Costa, Hermínia Silva, António Silva ou Lina Demoel. A verdadeira consagração de Francis Graça aconteceu em 1927, com a sua prestação na revista “Água-Pé”, que mereceu grande destaque na imprensa da época, onde se disse que o bailarino e coreógrafo «deu largueza e horizonte ao palco do Avenida». 

Dois anos volvidos, comentando a sua participação no espectáculo “Chá de Parreira”, o reputado crítico teatral Avelino de Almeida considerou que «desde o bailado magnífico do [número] Golf que, guardada a distância milenária, relembra a vida, a beleza e a graça de um friso helénico, até ao fandango nacional e trepidante, não esquecendo o sabor clássico do bailado das fogueiras dos Santos de Junho, Francis afirmou-se um incomparável animador que não sofre cotejo com qualquer outro». 

Segundo aquele mesmo crítico, durante cerca de duas décadas a colaboração artística de Francis Graça «imprimiu à revista à portuguesa um cunho civilizado e europeu», bem patente, aliás, nas suas belíssimas coreografias para “O Sete e Meio”, “A Ramboia”, “Feira da Luz” e “A Minha Terra”. 


Nesta última revista, que subiu a cena no Coliseu de Lisboa, dançou, sobre música de Rui Coelho, dois bailados de tema regional (“Alegria Popular” e “Festa Portuguesa”) e outros dois de maior ambição (“O Pássaro Encarnado” e “Ritmos Luminosos”), em que pela primeira vez se utilizaram entre nós tubos de néon como elemento decorativo. 

Nalguns desses bailados encontrava-se o germe de que viria a brotar, em 1940, a Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio. Com a criação daquela Companhia, que se propunha ser prioritariamente um grande veículo de divulgação da música portuguesa, concretizou-se um velho sonho de Francis Graça. 

Sob a sua direcção, muito bem coadjuvado pela bailarina alemã Ruth Walden, com quem formou dupla durante largos anos, o Verde Gaio apresentou-se por diversas vezes além-fronteiras com assinalável êxito, nomeadamente no Gran Teatre del Liceo de Barcelona, no Coliseum de Madrid e no Théâtre des Champs-Elysées de Paris, palcos que Francis e a sua parceira alemã já tinham pisado ao longo da década de 1930, como solistas, em espectáculos que circularam também por outras cidades de Espanha e França, bem como por diversas localidades da Suíça, Reino Unido, Argentina e Brasil. 
Francis Graça, ao centro, no bailado "Dança da Menina Tonta". Companhia Portuguesa de Bailado Verde Gaio. 1941

Paralelamente à direcção do Verde Gaio, Francis Graça foi mantendo uma colaboração regular na revista, com algumas passagens esporádicas pela ópera, tendo experimentado a representação em duas peças de teatro. Na verdade, ele foi (também) actor em “Rei Édipo” de Sófocles no Teatro Apolo e “Sonho de Uma Noite de Verão” de Shakespeare no Teatro Nacional D. Maria II, peças levadas a cena em 1952. 

Já um pouco debilitado fisicamente, seria definitivamente afastado da Companhia de Bailados Verde Gaio em 1960, passando a viver praticamente de uma pequena reforma. Data de 1968, a sua última criação, o bailado “Encruzilhada”, no Teatro Politeama. Morreu em Julho de 1980, com 78 anos, praticamente esquecido, num lar onde residia há alguns anos, diminuído por uma arteriosclerose que lhe apagara por completo a memória. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Agosto. 26

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