BANCADA DIRECTA: O Teatro no blogue Bancada Directa. Salvador Santos, o nosso homem do teatro, recorda-nos hoje na rubrica “No Palco da Saudade” a actriz Josefina Silva

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Teatro no blogue Bancada Directa. Salvador Santos, o nosso homem do teatro, recorda-nos hoje na rubrica “No Palco da Saudade” a actriz Josefina Silva


O Teatro no blogue Bancada Directa. 
Salvador Santos, o nosso homem do teatro, recorda-nos hoje na rubrica “No Palco da Saudade” a actriz Josefina Silva 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos

JOSEFINA SILVA 

De descendência italiana, filha de um cantor lírico, pisou o palco pela primeira vez quando tinha apenas cinco anos de idade na peça “A Casa de Bonecas” do dramaturgo sueco Henrik Ibsen. O gosto pelo teatro, que lhe estava no sangue, ficou-lhe desde então, e, aos quinze anos, a sua figura elegante, de olhar vivo, com um rosto encantador, uma graciosidade jovial e uma simpatia esfuziante, levá-la-ia ao teatro de revista, onde se estreou como corista no Teatro da República (actual São Luiz), no espectáculo de autoria do escritor e argumentista português João Bastos “De Capote e Lenço”. 

E foi assim, no patamar mais baixo do género, que começou oficialmente o percurso artístico de uma das nossas mais queridas e talentosas actrizes do século XX. Após esta primeira experiência na revista, Josefina Silva, então ainda usando o nome de Josefina Barco, passou pelo Teatro Apolo, onde se manteve durante dois anos como bailarina e corista, antes de partir para o Brasil na companhia da mãe e do pai, que havia sido contratado por uma empresa brasileira. 

Já então carinhosamente tratada por Fina – ou Fininha, como a chamaram desde sempre os seus camaradas de profissão – a jovem não teve dificuldade em integrar-se no elenco de um espectáculo de revista brasileiro produzido pela Companhia do actor António de Sousa, onde já se encontrava há um par de anos o nosso António Silva. O encontro dos dois não podia ter resultado melhor: a paixão aconteceu e o casamento não tardou, apesar da resistência da mãe dela

Após o seu casamento, um dos mais duradouros e felizes dos que aconteceram até hoje entre gente do teatro, a atriz escolheu o apelido do marido e passou a ser Josefina Silva para sempre. Ainda no Brasil começou a interpretar pequenos papéis de várias produções teatrais locais e a empenhar-se no aperfeiçoamento das técnicas de representação, com a preciosa ajuda de António Silva, que a dirigiu num filme por ele realizado em terras de Vera Cruz, “Convém Martelar”. 

A este filme, que se perdeu nos tempos, seguiu-se mais uma produção cinematográfica luso-brasileira rodada no Rio de Janeiro (“Coração de Gaúcho”) e depois o convite de Estevão Amarante para o casal regressar ao seu país e ingressar na Companhia que aquele liderava com Luísa Satanela. Durante a década de 1920, Josefina Silva afirmou-se finalmente como actriz em Portugal, primeiro no teatro musicado e depois na comédia ligeira e no chamado declamado, onde ela foi realmente exemplar. 

Começou por se impor nas operetas “Miss Diabo”, “Amor-Perfeito” e “A Rosa Enjeitada”, fez depois furor nas revistas “Água-Pé”, “Chá de Parreira” e Arraial”, e deslumbrou de seguida nas comédias “O Papa-Açorda”, “A Bisbilhoteira” e “O Solar das Picoas. Mas onde ela acabaria por triunfar de forma absoluta foi no teatro de repertório, com as suas célebres criações em “Electra, a Mensageira dos Deuses”, “Pigmaleão” e “Báton”, tendo também registado um notável desempenho em peças como “Topaze”, “O Conde Barão” ou “O Cadáver Vivo”. 

Após aquelas três últimas peças n’ Os Comediantes de Lisboa, Josefina Silva decidiu fazer uma breve incursão pela comédia ligeira, a convite do ator Assis Pacheco, que formara empresa com as suas colegas Madalena Sotto e Maria Lalande, brilhando em espetáculos como “Dois Maridos em Apuros”, “A Hipócrita” e “Um Drama em Casa do Diabo”. 

 Josefina Silva numa cena do filme "Sangue Toureiro". Filme realizado por Augusto Fraga em 1958

Seguiram-se então os grandes textos no Teatro d’Arte de Lisboa, Teatro Nacional Popular e Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, entre os anos 1950-60, com “Yerma” de Lorca, “As Três Irmãs” de Tchekhov, “As Bruxas de Salém” de Miller, “O Camarada Miussov” de Kataiev e “Divinas Palavras” de Valle-Inclán, com o qual conquistou o prémio Lucília Simões para a melhor actriz do ano. 

Após o incêndio do Teatro Nacional D. Maria II, em 1964, e os sinais da terrível maleita que havia de destronar o seu amado marido e fiel companheiro de todas as horas, Josefina Silva começou a diminuir o ritmo de trabalho, tanto no teatro, como na televisão ou no cinema, onde deixou para a posterioridade desempenhos notáveis em filmes como “Camões”, “O Noivo das Caldas” ou “Dois Dias no Paraíso”, até se dedicar quase por completo ao acompanhamento da doença degenerativa que dava cabo do nosso querido António Silva. 

O seu regresso mais regular aos palcos viria a acontecer apenas em 1978, com a reabertura do primeiro teatro do país, em peças como “Felizmente há Luar” de Sttau Monteiro ou “A Casa de Bernarda Alba” de Lorca. Já muito velhinha, com oitenta e seis anos, Josefina Silva aceitou o convite do apresentador Carlos Cruz para interpretar, com o inesquecível Barroso Lopes, um velho casal que animava uns pequenos sketches de humor numa das primeiras versões do popular concurso televisivo 1,2,3. 

Pouco tempo depois, a actriz abandonaria de vez a actividade profissional, não sem antes concretizar o sonho de representar uma das mais belas peças de Raul Brandão, “O Avejão”, no Teatro D. Maria II. 

O Prémio Prestígio da Casa da Imprensa e a Ordem de Sant’Iago e Espada, que lhe foram atribuídos em 1985, fecharam com chave de ouro a carreira desta exemplar mulher e actriz de quem temos imensa saudade. Ainda recordamos as pesadas lágrimas que nos caíram sobre o rosto naquela tarde triste do dia 18 de Fevereiro de 1993, em que partiu a nossa querida Fina! 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Julho. 15 

Sem comentários:

Obrigado Pela Sua Visita !