BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. A actriz Hortense Luz é a sua recordação de hoje

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. A actriz Hortense Luz é a sua recordação de hoje



In memoriam

Hortense Luz, de seu nome completo Hortense Luz Pombeiro, nasceu em Lisboa em 8 de Fevereiro de 1900 e faleceu nesta mesma cidade no ano de 1984

Foi uma actriz e empresária do nosso Teatro



O Teatro no Bancada Directa. Salvador Santos coordena e apresenta a sua rubrica semanal “No Palco da Saudade”. 
A actriz Hortense Luz é a sua recordação de hoje 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

 HORTENSE LUZ 


Nasceu quando o século XX tinha pouco mais de um mês de vida e cresceu feliz no seio de uma família ligada ao teatro, com destaque para o seu irmão João Guilherme que veio a ser um dos nossos mais conceituados cenógrafos. 

Desde cedo seduzida pelos palcos, frequentou o curso de arte de representar do Conservatório Nacional, que terminou quando tinha apenas dezoito anos com a pontuação máxima de dezoito valores. Nesse mesmo ano, 1918, estrearia no Teatro Sá da Bandeira, do Porto, substituindo uma atriz que adoecera subitamente, na comédia “A Vizinha do Lado” de André Brun, que a Companhia de Maria Matos apresentava em digressão após uma brilhante carreira de vários meses com lotações esgotadas no Parque Mayer, em Lisboa. 


A ascensão de Hortense Luz ao estrelato foi meteórica, passando a figurar à frente de grandes elencos em inúmeras revistas e operetas levadas a cena a partir da década de 1920, como “Pó de Arroz”, “Saricoté”, “Maria Rapaz” ou “Miúdo do Terço”. Antes, porém, havia debutado em comédias como “As Fogueiras de São João”, “O Ninho das Águias”, “A Verdade”, “A Casa da Ordem” ou “Mulher Sem Importância”, algumas delas representadas no palco do Teatro Nacional São Carlos, gerido à época pela Companhia Lucília Simões/Erico Braga. 

E foi neste género, sobretudo na alta comédia, que ela foi efectivamente exemplar. Mas o teatro musicado era comercialmente mais atraente para quem queria aventurar-se como empresária, como era o seu caso. Com pouco mais de uma dezena de anos de carreira, Hortense Luz arriscou formar uma Companhia que ostentava o seu nome, em parceria com Mário Pombeiro, um jovem escriturário e amante de teatro com quem havia casado meses antes. 


Sem nunca descurar os palcos das cidades de Lisboa e do Porto, a actriz-empresária tomou as nossas ex-colónias africanas e o Brasil como territórios privilegiados de negócio, onde apresentou em digressão quase todos os seus maiores sucessos dos anos 1930, entre os quais se podem destacar as revistas “A Rambóia” e “Zabumda”, com as quais inaugurou o Cine Teatro Nacional de Luanda em 1 de Janeiro de 1932. 

Ao seu lado, no elenco, pontificavam então o grande António Silva e a estrela em ascensão Eugénio Salvador. Nos inícios da década de 1940, a Companhia de Hortense Luz regista frequentes fracassos de bilheteira, devido sobretudo à crescente crise que se faz sentir nos mais diversos sectores económicos, e a atriz-empresária desdobra-se em múltiplas actividades complementares na tentativa de manter a empresa e salvar os respectivos postos de trabalho. 

Hortense Luz numa cena do filme " A Vizinha do Lado", uma película realizada por Antonio Lopes Ribeiro

Começa a participar na rádio, enquanto locutora e intérprete de radionovelas, onde acabaria por permanecer durante largos anos como colaboradora regular, ao mesmo tempo que se inicia no cinema, ao integrar o elenco da primeira dobragem para português de um filme estrangeiro – “O Grande Nicolau” –, onde figuram alguns dos maiores nomes da cena teatral portuguesa da época, como Vasco Santana ou Ribeirinho. 

Apesar de todos os esforços de Hortense Luz, a sua Companhia acabou por sucumbir, deitando por terra os sonhos acalentados por ela e pelo seu marido Mário Pombeiro. 

Restou apenas uma consolação: todos os técnicos e actores seus contratados arranjaram rapidamente colocação nos diversos teatros do Parque Mayer. E o mesmo sucedeu com ela, que não tardou a subir aos palcos, agora integrada no elenco da Companhia Comediantes de Lisboa, liderada pelos irmãos Francisco e António Lopes Ribeiro. 

Quanto ao seu jovem marido, o futuro acabaria por reservar-lhe uma bem-sucedida carreira de ponto teatral em diversos teatros da capital, em paralelo com a função de secretário de Hortense Luz, o que lhe valeu o título de… o Cobrador da Luz. A propósito da mudança de actividade de Mário Pombeiro, não resistimos em partilhar uma das muitas histórias engraçadas que contam a seu respeito


Uma vez no Teatro Variedades, ainda se usava a caixa do ponto, o grande e querido Vasco Santana teve um lapso de memória e calou-se, olhando para a caixa à espera de ajuda. O Pombeiro, que tinha saído do local para ir fumar um cigarrinho, apercebeu-se da situação e correu precipitadamente, batendo violentamente com a cabeça no tampo da caixa, e, com a dor, gritou: porra!!! Em cena, Vasco Santana, que esperava ansiosamente o texto, ao ouvir o desabafo do ponto, comentou em tom de representação: “Ah, isso não digo!” 

E, a partir daí, a cena repetiu-se todas as noites. Nos Comediantes de Lisboa, Hortense Luz regressou ao género teatral que esteve na origem da sua formação e carreira, dividindo-se depois por outras companhias de repertório, pela rádio e pelo cinema. Mais tarde, com o advento da televisão, representou inúmeras peças nas célebres Noites de Teatro da RTP e apresentou o programa “Melodias de Sempre” com o locutor Jorge Alves.


Já quase no fim do seu percurso, a actriz regressou ao teatro de revista, onde sempre revelou um à-vontade e um tal domínio do género que se imaginaria ter iniciado nele a sua carreira, para uma aparição fugaz no espectáculo “Delírio em Lisboa”, no Teatro ABC, no Parque Mayer. Algum cansaço e problemas de saúde determinaram o seu afastamento dos palcos em 1970. Hortense Luz viria a falecer em 1984, com oitenta e quatro anos. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Julho. 07

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