BANCADA DIRECTA: O Teatro no Bancada Directa. A rubrica “No Palco da Saudade”, coordenada e levada à escrita pelo nosso amigo Salvador Santos, recorda hoje a actriz Adelina Campos

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O Teatro no Bancada Directa. A rubrica “No Palco da Saudade”, coordenada e levada à escrita pelo nosso amigo Salvador Santos, recorda hoje a actriz Adelina Campos


O Teatro no Bancada Directa. 
A rubrica “No Palco da Saudade”, coordenada e levada à escrita pelo nosso amigo Salvador Santos, recorda hoje a actriz Adelina Campos 

“No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 


ADELINA CAMPOS 

Nascida em terras de Trás-os-Montes, no concelho de Vila Flor, em 1905, partiu para a grande capital muito jovem após o falecimento de sua mãe. Em casa dos familiares que a acolheram em Lisboa, ouviu falar pela primeira vez de teatro e dos actores e actrizes que dominavam a cena portuguesa, os quais só teve oportunidade de ver nos palcos já mulherzinha. Seduzida pela magia do teatro, decidiu inscrever-se no curso de arte de representar do Conservatório Nacional, onde acabaria por se formar com distinção e louvor. 

Como prémio pelo desempenho académico, foi convidada a estagiar no Teatro Nacional D. Maria II durante uma temporada, onde se estrearia com vinte e um anos na peça “As Duas Metades”, e onde conheceu o grande amor da sua vida. A actriz Adelina Campos tinha uma personalidade cativante e um sorriso doce, que não deixava indiferente quem com ela convivia ou trabalhava, o que acabaria, aliás, por encantar o ator Samwel Diniz, com quem viria a casar pouco mais de um ano depois de se conhecerem. 

Com o seu excelente porte físico e a sua melodiosa voz, ela poderia ter sido mais uma das figuras de primeira grandeza a brilhar nos palcos portugueses, mas a sua condição de esposa dedicada, preocupada com a carreira profissional do marido, foi-lhe diminuindo aos poucos as ambições, apostando em não ser mais do que uma belíssima figura secundária, daquelas que fazem brilhar os outros, com contracenas perfeitas e leais em todas as representações, dispensando quaisquer protagonismos. 

Mas não se pense que o percurso artístico de Adelina Campos foi vulgar ou pouco interessante. Nada disso. Para atestar a sua real capacidade interpretativa bastaria evocar a sua criação na peça “O Homem Que Mudou de Cor” de Reinaldo Ferreira (Repórter X), que este adaptou da sua novela “Preto e Branco”, estreada no Teatro São Luiz, em 1935. 

Dizem as crónicas da época que a actriz compôs de tal maneira a sua personagem que ofuscou os demais intérpretes que integravam o elenco daquele espectáculo, onde pontificavam artistas como Aura Abranches, Amélia Pereira, Constança Navarro ou Francisco Ribeiro (Ribeirinho). Mas já antes a actriz havia dado provas do seu real talento durante a sua estada na Companhia Teatral de Ilda Stichini. A prova do talento de Adelina Campos foi, aliás, prestada em diversos palcos, nos mais distintos géneros teatrais, ao serviço de inúmeras companhias, de onde se destacam os trabalhos realizados para as empresas lideradas por Lucília Simões, Maria Matos e, claro, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. 

Na empresa concessionária do Teatro Nacional D. Maria II, onde permaneceu durante mais de catorze anos, deixou a sua marca em três espectáculos memoráveis: “Napoleão” de Paul Reynal, “Rapazes de Hoje” de Roger Ferdinand e “O Gebo e a Sombra” de Raul Brandão. Mas seria injusto não destacar igualmente as notáveis interpretações da actriz, como ingénua dramática, nas peças “Lourdes” de Alfredo Cortez e “Morgadinha de Valflor” de Pinheiro Chagas. 

Nos tempos heróicos da RTP, Adelina Campos foi presença regular nos pequenos ecrãs, quase sempre com transmissões em directo, no tempo em que a televisão pública produzia uma peça de teatro por semana e que o público conhecia os artistas pelo seu próprio nome (e não pelo nome das personagens, como acontece agora nas telenovelas), falavam deles como se pertencessem à família e iam vê-los regularmente aos teatros. 

Da década de 1960, recordamos com alguma nostalgia a sua prestação em memoráveis noites televisivas preenchidas por peças como “O Capote”, “A Rapariga do Vestido Cor de Esperança”, “A Recompensa” e “O Auto de Inês Pereira” ou com a série “Histórias da Gente Simples Cá do Meu Bairro” do actor e encenador Varela Silva. 

Uma actriz tão multifacetada e generosa como Adelina Campos não podia passar ao lado de uma carreira no cinema, tendo sido, por isso, convidada a contribuir com o seu talento para o sucesso de uma dúzia de filmes, entre eles “José de Telhado” de Armando de Miranda, “Uma Vontade Maior” de Carlos Tudela e “O Diabo Era Outro” de Constantino Esteves. 

O mesmo sucedeu na rádio, onde a sua inesquecível voz brilhou em inúmeras peças de teatro e folhetins radiofónicos, rubricas que a antiga Emissora Nacional manteve com alguma regularidade na sua grelha de programação até meados dos anos 1980. Mas eis que, de súbito, deixámos de a ouvir na rádio e de a ver no teatro e na televisão. 

E passados alguns anos chegou a notícia de que havia morrido. Mas como é que ninguém soube de nada, como é que ninguém nos deu conhecimento do falecimento de Adelina Campos a tempo de podermos prestar-lhe uma última homenagem? – questionavam-se os seus camaradas de profissão. E foi preciso porfiar muito, correr muitas capelinhas, falar com muita gente, para se descobrir que, afinal, a nossa querida actriz estava viva: vivia num lar para idosos e tinha 103 anos! 

Era a actriz mais velha dos palcos portugueses e foi por isso entrevistada no programa “Há Conversa” da RTP Memória, em jeito de homenagem. O mesmo aconteceu na sua terra natal, onde o executivo municipal tomou a decisão de dar o seu nome ao Auditório do Centro Cultural de Vila Flor. Alguns meses depois, Adelina Campos, que parecia estar apenas à espera do reconhecimento da sua gente e da sua terra, deixou-nos para sempre. 

Salvador Santos 
Teatro Nacional de São João. Porto 
Porto. 2014. Julho. 28

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